Via do MeioZhou Qi Olhou e Compreendeu a Figura vista no Espelho Paulo Maia e Carmo - 24 Mar 2026 Yuan Mei (1716-1797), o insubmisso poeta e ensaísta autor de Zibuyu, «O que o Mestre (Confúcio) não discutiria» (1788), um título que responde ao que se escreve nos Analectos: «Tópicos sobre os quais o Mestre não falou foram: prodígios, forças, desordem e deuses», uma obra no descomedido género literário biji, «notas do pincel», que consiste em anotações das mais diversas ordens que o autor considera interessante reter, também foi dono de um jardim. E foi para esse jardim em Nanquim, onde propunha que a imaginação brotasse natural como as flores, que se retirou ainda novo, em 1748. A esse jardim Suiyuan, a partir da palavra sui, que se pode traduzir como «deixar-se ir», com o qual tanto se identificava que passou a incorporá-lo em nomes de pincel como Suiyuan zhuren, «O dono do jardim Sui», ou Suiyuan laoren, «O ancião do jardim Sui», acediam diversos criadores entre os quais e, de modo inédito para o tempo, mulheres literatas e poetas. Entre elas, uma senhora casada mas provavelmente, de acordo com o sistema em vigor, não a primeira esposa, talvez uma concubina do escritor Wang Xilian, um estudioso e comentador do Honglou meng, o relato do «Sonho do quarto vermelho». Como ela mesma notou, nas divagações do seu espírito inquieto, foi-se deixando levar ao acaso descobrindo súbitas afinidades. Chamava-se Zhou Qi (1814-61) e desses inesperados encontros faria memoráveis meditações. Como quando um dia, conforme ela escreveu, achou sobre a mesa de trabalho do marido o livro do «Sonho do quarto vermelho» que leu como se fora seu porque «pega em sentimentos humanos e relações sociais e coloca-os no mundo dos traços de pó de arroz e rouge, o mundo das mulheres.» Além de um comentário, fez dez poemas sobre dez personagens do livro que o marido publicou em 1832. Outra dessas invenções pelos meandros da percepção do trânsito lento do tempo foi um rolo vertical de pintura feito mais de cem anos antes e ao qual não teve receio de acrescentar um cólofon. Wang Qiao, um pintor profissional activo na área de Jiangnan entre 1657-1680, fizera já a sua pintura como se existisse uma via a contemplar entre o visível e o invisível, como um poema. Conhecida como Senhora no seu toucador (tinta e cor sobre seda, 99,4 x 57,8 cm no Instituto de Artes de Minneapolis), nela se pode ver ao centro uma cadeira onde se senta uma senhora diante de um elaborado espelho, atrás dela outra ajuda-a no penteado. À direita, uma terceira senhora ajeita os cobertos de uma cama de dossel sobre o qual estão rolos de pinturas, caligrafias e mais à direita um cesto com roupa. Olhando, Zhou Qi interrogou o reflexo da figura no espelho: «Quantas vidas foram precisas para que te tornasses na pessoa desta pintura?» E intui a sua circunstância: «Deve ter sido por amar as flores que ela acordou cedo nesta Primavera».