A abertura e o desenvolvimento

Quem gosta de jogar snooker, sabe que a tacada inicial define o decorrer do jogo. Se surgirem situações especiais, é preciso encontrar uma maneira de as contrariar para vencer. Com a entrada de 2026, a economia de Macau enfrenta uma mão cheia de contradições. Por um lado, o número de turistas está a aumentar; por outro lado, a receita bruta dos jogos de fortuna ou azar em Fevereiro foi inferior à de Janeiro. Depois do Novo Ano Lunar, o mercado local retomou a agitação, embora com níveis contrastantes entre as áreas residenciais e as turísticas. Muitas lojas foram colocadas para venda ou para aluguer, à procura de novas oportunidades de negócio. Recentemente, uma das seis concessionárias da exploração de jogos de fortuna ou azar publicou os dados financeiros e, em 2025, reportou uma perda de 429 milhões de patacas, passando do lucro ao prejuízo. O encerramento dos casinos- satélite arrastou a quota de mercado, causando uma queda de 13,1 por cento para 11,9 por cento.

Não se pode subestimar esta queda de 1,2 por cento. Embora a receita dos casinos-satélite não fosse substancial, o impacto que esta actividade tinha nos negócios vizinhos era significativo. Ainda que o Governo da RAEM tenha implementado várias medidas destinadas a lidar com o encerramento dos casinos-satélite, a sua eficácia foi limitada. Basta olhar para os arredores do Hotel Sofitel, que se tornaram manifestamente deslocados desde que o casino que lhe ficava próximo fechou. Quando as Galerias Lafayette, situadas no Centro Comercial YOHO, fecharam no início de Fevereiro último, tornou-se evidente que o comércio de topo de Macau já não conseguia recuperar o volume de negócio do tempo em que as salas VIP dos casinos estavam cheias de gente. A actividade dos grandes centros comerciais e dos supermercados “aguenta-se por pouco” e as dificuldades que as PMEs enfrentam são inimagináveis.

Não podemos culpar a diferença de hábitos de consumo do grande número de turistas vindos da China continental que visita Macau, nem criticar o facto de que os mais de 100.000 trabalhadores não-residentes não optem por viver e fazer compras na cidade. Afinal, o objectivo destas pessoas é trabalhar em Macau e ganhar dinheiro para sustentarem as suas famílias. Embora os concertos organizados pelas concessionárias da exploração de jogos de fortuna ou azar tragam imensos jovens a Macau, eles desaparecem rapidamente depois de tirarem umas fotos e manifestar admiração pelos seus ídolos. O Local de Espectáculos ao Ar Livre de Macau, construído a grande custo pelo Governo da RAEM, tornou-se apenas decorativo, tal como a antiga sede do Macau Jockey Club na Taipa.

O “Terceiro Plano Quinquenal de Desenvolvimento Socio-Económico da Região Administrativa Especial de Macau (2026-2030)” está a ser redigido e foca-se em quatro grandes projectos: 1) Cidade (Universitária) de Educação Internacional de Macau e Hengqin, 2) Macau como uma zona internacional integrada, turística e cultural, 3) um Eixo de Transporte Aéreo Internacional, na margem oeste do Rio das Pérolas, e 4) um parque industrial de investigação e desenvolvimento de ciência e tecnologia, estando todos eles ou em fase de construção ou de planeamento. Não se sabe se os 20 mil milhões de patacas do Fundo de Orientação investidos nestes projectos darão frutos e a fatia deste bolo alocada a cada um deles ainda está por determinar. No entanto, existem pelo menos dois fundos governamentais para as indústrias, um dos quais é dedicado ao desenvolvimento de Hengqin e da Área da Grande Baía.

Reparei que os deputados de Macau à Assembleia Popular Nacional (APN) e os membros de Macau do Comité Nacional da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (CCPPC), realizada em Pequim, estão sobretudo preocupados com a integração de Hengqin e Macau, que está em linha com o desenvolvimento nacional global, o que é compreensível. No entanto, como é que se pode melhorar as condições dos comerciantes de Macau? Como é que a vitalidade económica de Macau pode ser mantida? Como garantir emprego aos residentes da cidade? Como fazer progredir o modo de vida da população e assegurar que os grupos vulneráveis têm cuidados adequados? Todas estas questões requerem que o Governo da RAEM “quebre o impasse”. O Vice-Primeiro-Ministro do Conselho de Estado da China, Ding Xuexiang, assinalou que “a predominância do poder executivo não é responsabilidade exclusiva do Chefe do Executivo, mas uma responsabilidade comum do Governo da RAEM, da população em geral e de todos os sectores da sociedade”. Embora a defesa da Lei Básica de Macau e a lealdade à RAEM e à RPC sejam requisitos, a “boa e eficaz governação” é o pré-requisito para “tirar todas as bolas de uma mesa de snooker numa só tacada”.Paul

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