Eventos MancheteRota das Letras | Guy Delisle defende que BD é um “meio eficaz” de jornalismo Hoje Macau - 9 Mar 20269 Mar 2026 O escritor franco-canadiano defende que a banda desenhada costumava ser vista como “algo só para crianças”, mas que actualmente é lida “tanto por avôs como por netos” O premiado autor Guy Delisle, conhecido por obras gráficas de não-ficção, descreveu a Banda Desenhada (BD) como um “meio eficaz” de jornalismo que atinge um público mais vasto. O escritor franco-canadiano foi convidado da 15.ª edição Festival Literário de Macau – Rota das Letras que decorre entre 5 e 15 de Março para uma conversa sobre um meio que “costumava ser visto como algo só para crianças”, mas que é hoje em dia lido “tanto por avôs como netos”. Delisle escreveu vários livros aclamados no género de não-ficção gráfica centrados nas suas experiências de viagem e vida incluindo Pyongyang, Jerusalém: Crónicas da Cidade Santa, Crónicas da Birmânia, e Shenzhen. No entanto, o autor nascido no Québec considera-se mais parte da primeira vaga de “autores de livros de viagem” gráficos, e menos como jornalista no estilo de autores como Joe Sacco, conhecido por livros que descrevem o quotidiano em cenários de guerra na Palestina e nos Balcãs. “Há muitas direcções, existem muitos livros de viagem de Banda Desenhada. Joe Sacco é um jornalista e faz algo parecido, mas tem experiência de jornalista e tem uma perspectiva e abordagem diferente”, indicou Delisle em resposta a uma pergunta da Lusa. “Eu faço alguma pesquisa do contexto dos locais em foco, mas prefiro a abordagem de fazer observações casuais, apontar os detalhes que considero mais engraçados e interessante”, disse. O autor trabalhou principalmente na indústria de animação, mas acabou por entrar no mundo das novelas gráficas depois de ser destacado para Shenzhen em 1997. Desenhos para a família Começando como um método de contar as suas experiências de viagem “para a família” transformando os seus apontamentos diários nesta cidade no sul da China na sua primeira BD. O autor seria transferido em trabalho, inusitadamente, para a capital da Coreia do Norte em 2001, que gerou o seu livro mais traduzido, Pyongyang. “Fui enviado para a Coreia do Norte durante dois meses. Conhecia muita gente da indústria da animação que me disseram que era super aborrecido […] mas eu sempre me senti fascinado pelo país”, destacou. “Quando lá cheguei recebi flores para por aos pés de uma estátua de Kim Jong Il [líder da Coreia do Norte na altura]. Só isso me fez pensar que daria um bom livro”. O escritor franco-canadiano recebeu também o prémio máximo da Banda Desenhada europeia quando a edição francesa de “Jerusalém “ foi eleita Melhor Álbum no Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême. Uma das suas obras de maior teor jornalístico inclui o “Refém”, que descreve a experiência de Christophe Andre, um membro dos Médicos Sem Fronteiras, sequestrado durante três meses como refém na Tchetchénia. “Um sequestro é uma experiência muito difícil, mas quando lhe perguntei ele contou-me tudo”, lembrou. Habituado a descrever as suas memórias, Delisle teve pela primeira vez que descrever as experiências de terceiros, realizando “gravações de quase 8 horas” das conversas com Andre. “Era material muito bom, mas a primeira versão parecia mais um filme de Hollywood e funcionava, por isso mudei o estilo para uma descrição realista da experiência de alguém privado da sua liberdade.” O livro descreve, por exemplo, como a certa altura os sequestradores esqueceram-se de fechar a porta do quarto, com Andre a ponderar durante horas se deveria arriscar sair. “Ele esperou algumas horas até ficar escuro. A pergunta que ponho ao leitor é o que faria na situação dele? Abria a porta?”, disse Delisle. Novo livro brevemente O seu livro mais recente, MuyBridge publicado em 2024, descreve a vida de Eadeward MuyBridge, um dos pioneiros da fotografia, com Delisle a revelar que um novo livro será publicado na “próxima semana”. Quanto a usar o seu tempo em Macau e Hong Kong para um livro, considera que “infelizmente precisaria de ficar muito mais tempo” do que três meses para ter notas suficientes para um livro. A edição deste ano do Festival Literário de Macau irá prestar um tributo a Camilo Pessanha, no centenário da morte do poeta português. O programa do festival inclui ainda o jornalista e comentador político João Miguel Tavares, que publicou em Outubro o livro “José Sócrates – Ascensão”. Também virá a Macau Miguel Carvalho, autor de “Por dentro do Chega. A face oculta da extrema-direita em Portugal”, que resulta de uma investigação que o jornalista e escritor fez ao longo de cinco anos.