Armazém do Boi | Três artistas apresentam novas visões sobre Macau

O Armazém do Boi revela, a partir do dia 13 de Fevereiro, os trabalhos de três artistas chineses que realizaram residências artísticas no território e que traçaram, com a sua arte, novas visões sobre o território que habitaram provisoriamente. “O Viajante da Montagem”, “Resíduos: Sopa sem Água” e “Com Quem Estou” são os resultados desta espécie de trabalho de campo

Há muito que o Armazém do Boi nos habituou a trazer novas visões do território com o trabalho de artistas locais, mas também do exterior. O novo tríptico de exposições, a ser inaugurado no próximo dia 13 de Fevereiro, volta a revelar ao público novas leituras sobre este espaço comum e partilhado que é Macau.

Uma das mostras é do artista Liao Yu-An, intitulando-se “The Drifter of Assemblage – Red and Blue, Color Fields and Monsters” [O Viajante da Montagem – Vermelho e Azul, Campos de Cor e Monstros]. Trata-se do resultado de um mês de vivências em Macau, onde o artista “ganhou consciência da natureza fragmentada e complexa da cidade”.

Na nota do Armazém do Boi sobre esta exposição, descreve-se que Liao Yu-An olha Macau como “um lugar onde as escalas oscilam entre a miniatura e o monumental”, e onde “múltiplas facetas coexistem em densa proximidade, assemelhando-se a um guisado ricamente estratificado e intensamente saboroso”.

Nesta apresentação, “o artista absorve e reflecte sobre estas impressões sensoriais, traduzindo-as em diversas expressões pictóricas”. Mais concretamente, o que o público poderá ver são três conjuntos de obras onde se examinam “os mecanismos de transformação entre sinais visuais, estruturas de cores urbanas e uma experiência perceptiva subjectiva”.

Aqui, a pintura não é mais do que “uma prática de tradução perceptiva e reconstrução experiencial”. “Entre a montagem e a transformação, a pintura deixa de ser apenas um meio de representar a realidade, tornando-se uma acção contínua que gera percepção. Cores, imagens e experiências fragmentadas entrelaçam-se para formar uma trajetória fluida de visualização, guiando o público numa viagem sensorial situada entre a cidade, o corpo e a imaginação”, descreve-se na mesma nota.

Outro trabalho que se apresenta a partir do dia 13, é “Resíduos: Sopa sem Água” [Dregs: Soup without Water], de Biyi Zhu, contando com curadoria e trabalho académico de Vivien Chan.

Nesta mostra, há significados que se vão buscar a uma espécie de dicionário imaginário, em que resíduos são encarados como “a última gota, grão ou molécula espalhada no fundo da panela”.

“Resíduos: Sopa sem Água” remete para aquilo que resta “depois de toda a sopa ter sido comida”, olhando-se para a “consistência macia e húmida” dos restos sem água de uma sopa tradicionalmente confeccionada mediante as regras da cozinha cantonense.

Assim, Biyi Zhu questiona: “Quais são as possibilidades do que resta?”, agarrando-se, através da arte, “aos restos do passado”. Este é um regresso a Macau depois de uma temporada de dez anos nos Países Baixos, sendo que, nesta exposição, “Zhu usa os processos e as materialidades da sopa cantonense para explorar modos de viagem no tempo, entre lugares, relações e vidas”.

“Depois de beber a sopa, os resíduos tornam-se a prova do que foi absorvido pelo corpo, pela atmosfera. Pegando no que normalmente seria descartado, Zhu transforma os resíduos em formas tangíveis, dissolvendo e reformulando ideias de memória, parentesco, migração e desperdício”, lê-se ainda.

Questões pessoais

O terceiro espaço expositivo é composto por “Com quem Estou” [Who Am I With], de Li Aixiao, com curadoria de Wendy Wong. Trata-se de uma mostra com um cunho mais pessoal, que começa pelo “eu” do artista, quando este “entra nas vidas, linguagens e objectos dos outros”.

Para isso recorre à performance, fotografia e demais interacções artísticas “para questionar persistentemente com quem e como estabelecemos conexões neste lugar”. “As obras desenrolam-se entre a aproximação e o afastamento do corpo e entre a ocorrência e a interrupção da troca, onde algumas conexões se enraízam enquanto outras permanecem no reino do não realizado. À medida que os espectadores navegam e observam, percebem a transformação transitória da identidade e o surgimento ou ausência de intimidade, testemunhando como a linguagem, as imagens e os objectos servem como modos de presença”, é descrito.

Desta forma, “estas obras apontam para um estado de coexistência que permanece perpetuamente instável, mas que ocasionalmente desperta ligações raras e autênticas no momento do encontro”. As três exposições podem ser vistas gratuitamente até ao dia 15 de Março.

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