Macau Visto de Hong Kong VozesAbrir mão dos indesejáveis (I) David Chan - 20 Jan 2026 Num artigo que circulou recentemente online pode ler-se que uma clínica privada no Yinan County, Província de Shandong, China continental, fez uma publicação com o título “Abrir Mão dos Pacientes de Baixo Nível”, da qual seguem os seguintes excertos: “Os pacientes de mais baixo nível querem pagar um dólar por atendimento médico que custa dez, exames que custam cem e por serviços que custam milhares! Depois tornam-se exigentes, tentam extorquir-nos e se não satisfizermos as suas exigências evocam a ética médica para nos chantagear.” “Os pacientes de nível superior são muito diferentes! Desde que tenhamos capacidade para resolver os seus problemas, nunca se queixam. Mesmo que o preço seja razoável ou mesmo um pouco alto, estão dispostos a pagar!” “Quando se abre uma clínica, nunca se pode salvar toda a gente. Algumas pessoas têm a alma doente, não o corpo. A compaixão excessiva é o maior inimigo de uma clínica! Praticar medicina implica ter competências e gerir um negócio implica saber seleccionar.” O que sente o leitor depois de ver estes excertos? A comunicação social revelou que Wang, o responsável pela clínica citada, viu estes conteúdos online, considerou-os razoáveis e publicou algumas afirmações para “se proteger”. Afirmou que alguns pacientes se queixam do custo elevado dos tratamentos e outros tentam deliberadamente dificultar a vida aos médicos. Admitiu que o conteúdo da publicação podia deixar alguns pacientes desconfortáveis mas sublinhava que o funcionamento da clínica implica despesas, acrescentando, “Quando gerimos uma clínica, não esperamos salvar toda a gente; a compaixão excessiva não é aceitável.” Posteriormente, o Gabinete de Saúde e Bem-Estar do Condado de Yinan criou uma equipa para investigar o incidente. As autoridades declararam que os conteúdos desta publicação violavam a ética médica e que a clínica também transgrediu a moral da classe, ordenando que rectificasse de imediato a situação. A publicação não foi retirada. No livro de medicina “A Sinceridade do Bom Médico” escrito por Sun Simiao, um famoso especialista em medicina tradicional chinesa que viveu na Dinastia Tang, na antiga China, o autor declara que os melhores médicos devem ser calmos, resolutos, altruístas, concentrados e que não devem ambicionar fortuna ou fama quando tratam os seus pacientes. Além disso, devem ser compassivos e fazer um voto de salvar todos aqueles que precisam. Quando os doentes procuram ser tratados, não importa saber quem são, qual o seu estatuto, a nacionalidade, a conta bancária, a idade, a aparência, a moralidade, se são aliados ou adversários, inteligentes ou tolos; devem todos ser tratados como membros da família, com a mesma compaixão. Durante o tratamento, não devemos hesitar, nem ter em consideração a nossa sorte ou o nosso infortúnio, não valorizar a nossa própria vida; depois de vermos o sofrimento e a aflição do doente, é preciso senti-los como se fossem nossos. Não devemos evitar dificuldades e perigos durante o tratamento; quer seja de dia ou de noite, faça um calor abrasador ou um frio glaciar, mesmo quando temos fome, sede, ou estamos exaustos, é preciso tratar os doentes com total dedicação, sem procurar créditos ou glória. Um bom médico que salva vidas age desta forma; por outro lado, quem não age assim é como uma grande praga que prejudica o povo. Estas passagens sublinham as condições necessárias para se ser um médico altamente qualificado. Traduzido para a actualidade, diríamos que é preciso “um coração benevolente e mãos habilidosas.” Na próxima semana, continuaremos a analisar o tema da vocação médica, do significado de “coração benevolente e mãos habilidosas” e de como resolver conflitos entre clínicas e pacientes.