O Homo Sapiens versus “Goldilocks Conditions”

Há cerca de 13,8 mil milhões anos deu-se o que se convencionou designar por “big bang”. Dessa grande explosão surgiu um universo em expansão, o qual é constituído essencialmente por energia escura, matéria escura, gases, poeiras, planetas e estrelas. Estas agruparam-se formando galáxias, numa das quais, a Via Láctea, se encontra o nosso planeta, felizmente bem longe, a cerca de 25 800 anos-luz, do buraco negro que ocupa a zona central.

Por um feliz acaso, durante a evolução do universo, o planeta Terra, que se formou há cera de 4,5 mil milhões de anos, ocupou uma posição ideal para que se criassem as condições para que surgisse vida. Os primeiros sinais de vida devem-se à existência de oxigénio na atmosfera e na hidrosfera, e à Terra orbitar em torno do Sol a uma distância que lhe permite receber radiação cuja intensidade não se pode considerar nem excessiva nem em falta. Surgiram, assim, as primeiras espécies de seres que evoluíram dando origem a centenas de milhares de outras espécies que se foram adaptando às variações do clima.

O sistema climático sofreu, entretanto, alterações devido a vários fatores, nomeadamente de origem cósmica e vulcânica. Entre os fatores cósmicos contam-se a variação da atividade solar e os ciclos de Milankovitch, que consistem em alterações da órbita em torno do Sol, relacionadas com a excentricidade, a obliquidade e a oscilação do eixo da Terra. Da ação destes e outros fatores resultaram mudanças do clima, entre as quais se contam as que provocaram as eras glaciares e interglaciares.

As condições favoráveis à existência de vida no nosso planeta são comumente designadas, nos meios relacionados com a astronomia e a astrobiologia, por “Goldilocks conditions”, que se poderá traduzir por “condições caracolinhos dourados”, assim designadas por analogia com a história infantil “Goldilocks and the three bears”, muito popular nos países anglófonos, de autoria de Robert Southey (1774-1843). Nesta história, uma menina de caracóis dourados escolhia sempre o meio-termo como a melhor opção entre as possibilidades que se lhe deparavam ao longo das suas traquinices. Por exemplo, entre três pratos de papa, um muito quente, outro muito frio e outro morno, escolhia o morno, ou entre três camas preferia a que não fosse nem muito dura nem muito mole, mas medianamente macia. Quando aplicada à astronomia, este conceito refere-se metaforicamente a uma zona habitável do universo.

Na realidade, mesmo podendo existir outros planetas com condições semelhantes às da Terra, não será possível, pelo menos nas décadas mais próximas, alcançá-los e aí criarmos as condições para que a nossa civilização possa sobreviver em caso de colapso das condições de vida no nosso planeta. Temos de zelar, portanto, pelo sistema climático da Terra. Caso contrário, poderão ocorrer extinções em massa de espécies. Tal já aconteceu por cinco vezes e há quem afirme que estamos perante a sexta extinção, devido às atividades humanas, com especial relevo para as alterações climáticas, poluição, destruição de habitats e exploração desenfreada de recursos naturais.

Atualmente não se deteta qualquer tendência significativa relativamente a fatores cósmicos que possam alterar as tais “Goldilocks conditions”. Porém, no que se refere ao comportamento humano, a realidade é que, se não refrearmos o uso indiscriminado dos combustíveis fósseis estamos a provocar o aumento significativo do aquecimento global. A humanidade não está a zelar para que as tais condições perdurem, atendendo a que o nosso planeta está a aquecer desde o início da era industrial, a um ritmo nunca observado anteriormente, o que provoca a degradação das várias componentes do sistema climático. E o futuro próximo não se apresenta risonho, pois o país que mais emite gases de efeito de estufa tem à sua frente um governo irresponsável que continua a ignorar os avisos de instituições encarregues de monitorizarem a evolução do clima e de zelarem pela sustentabilidade do nosso planeta. Pior do que isso, tem vindo a tomar medidas contrárias a essas recomendações como, por exemplo, a saída do Acordo de Paris, o despedimento de cientistas de organismos que lidam com a atmosfera e os oceanos, ou o corte de verbas a universidades onde se procede à investigação relacionada com a evolução do clima. Enfim, um rol de medidas que poderão contribuir para a deterioração do sistema climático, constituindo, assim, uma ameaça à vida no nosso planeta. O pior é que, como afirmou o ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, “não há planeta B”.

Mas, poder-se-á perguntar, «que é que tudo isto tem a ver com as tais “Goldilocks conditions”?». Na realidade, as mudanças que o clima sofreu e que se estima causaram, nos últimos quatrocentos e cinquenta milhões de anos, algumas das cinco extinções em massa de seres vivos, processaram-se durante milhares de anos. É comumente aceite pelos paleontologistas e paleoclimatologistas que a maior ou menor concentração de dióxido de carbono foi uma das causas das mudanças climáticas que estiveram na base na maioria das extinções em massa. Apenas uma das grandes extinções, a dos dinossauros e outras espécies da megafauna, não está diretamente relacionada com o clima, mas sim devido ao impacto de um asteroide com a Terra, há cerca de 66 milhões de anos.

A grande diferença entre as mudanças climáticas de há milhares de anos e as alterações de que atualmente o clima está a ser alvo, consiste no facto de aquelas terem ocorrido lentamente, durante milhares de anos, enquanto as atuais se estão a verificar apenas desde o início da revolução industrial, ou seja, desde há cerca de duas centenas e meia de anos.

De acordo com o cosmólogo Stephen Hawking (1942–2018), “Like Goldilocks, the development of intelligent life requires that planetary temperatures be ‘just right'”. Inspirados nesta afirmação de alguém que estudou a fundo a evolução do universo, resta-nos contribuir para que as tais “Goldilocks conditions” continuem a ser cumpridas.

Luis Queirós (1) vai com certeza desculpar-me por utilizar os cálculos constantes no seu livro “A Humanidade e o Futuro” para evidenciar quão recente é o aparecimento do Homo sapiens, em relação ao surgimento dos primeiros indícios de vida, entre 3 mil milhões e 4 mil milhões de anos. Abandonando períodos numa escala geológica, difíceis de apreender, e recorrendo à correspondência de um valor intermédio, por exemplo 3,6 mil milhões de anos, a 40 horas, o Homo sapiens teria surgido apenas nos últimos quinze segundos. Permito-me acrescentar que, mantendo esta correspondência, os cerca de 250 anos desde a revolução industrial correspondem a 0,012 segundos. Esperemos que nas milésimas de segundo subsequentes o Homo sapiens refreie o uso dos combustíveis fósseis e leve a cabo uma efetiva transição energética, tomando medidas para travar e reverter o aquecimento global, fazendo com que as “Goldilocks conditions” nos continuem a proteger.

(Meteorologista)

(1) Luis Queirós – autor de “O Mundo em Transição” e “A Humanidade e o Futuro”. Fundador do Grupo Marktest, entidade pioneira dos estudos de mercado em Portugal. Instituiu a “Fundação Vox Populi” e criou o blogue “Transição”.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários