Sexanálise VozesA Terapia de Casal ou O Amor na Tempestade Tânia dos Santos - 28 Fev 2025 Agora trabalho como terapeuta de casal, um sonho que há muito queria concretizar. A minha compreensão já não se baseia apenas em leituras incontáveis, mas também na experiência direta com o conflito dos casais. Deixo que essas vivências ressoem no meu conhecimento e na minha prática terapêutica, na esperança de que resultem em reflexões mais ricas neste espaço de escrita. Hoje, quero falar-vos sobre o amor na tempestade. Uma relação amorosa pressupõe um vínculo afetivo. Podemos discutir as muitas formas possíveis de “casal”, mas convido-vos a focarem-se na ideia de duas pessoas que se encontram e procuram conectar-se através do que têm de mais íntimo e profundo. Normalmente, nesse tipo de relação, há sexo—o mecanismo de ligação por excelência, que nos remete aos nossos desejos mais primários. A teoria sugere que escolhemos os nossos parceiros porque encaixam na longa história das nossas ligações afetivas, começando pelas relações mais primárias, como a dos nossos pais. Assim, estabelecemos vínculos românticos que, ao mesmo tempo que oferecem a possibilidade de reparação emocional, também alimentam as nossas disfunções. O amor não existe sem essa polaridade. O vínculo vive na tensão entre encontrar o amor das nossas vidas e o risco de esse mesmo amor se tornar no nosso maior inimigo. Esta é, claro, uma caricatura, mas quero que fiquem com a consciência desta dualidade. É comum que os casais, ao tomarem consciência dessa tensão, procurem a terapia. Surge, então, uma questão angustiante: como pode a pessoa que amo despertar em mim tanta tristeza, raiva ou frustração? É a própria evolução da relação que leva a esses caminhos sinuosos. As nossas crenças, a forma como moldam o nosso comportamento e até a nossa compreensão do amor romântico influenciam a maneira como lidamos com essa ambivalência. A verdade é que pouco nos preparamos para essa realidade. Recentemente, um marido em profunda angústia partilhou comigo: “Eu não traí, nem ando atrás de ninguém. Não percebo porque estamos assim.” Na terapia de casal, o objetivo não é eliminar o conflito, mas compreendê-lo. O desencontro é inevitável, e é por isso que se procuram ferramentas para melhor lidar com ele. Um dos pilares desse processo é criar um espaço onde se possa falar francamente sobre os desafios da relação. No entanto, esse desencontro é emocionalmente carregado e nem sempre de fácil resolução. Não basta oferecer um novo mapa para que o casal trilhe um caminho diferente. Nem é papel do terapeuta dar soluções simples. Para reconstruir uma relação, é necessário encarar uma tempestade—daquelas de chuva descontrolada, vento a 100 km/h e trovões ensurdecedores. O terapeuta ajuda a navegar essa tempestade, para que o casal compreenda que o amor contém, em si, essa possibilidade disruptiva. No fundo, o terapeuta confirma que, mesmo que o sofrimento pareça atroz e o desencontro confuso, está tudo bem. O desencontro faz parte da vida. A tempestade é um sintoma de um estado primitivo, um reflexo do corpo perante a frustração das suas necessidades emocionais—sejam elas de proximidade ou de afastamento. É um estado em que o pensamento racional é ofuscado pela reação instintiva. Pode manifestar-se como luta ou fuga, como se o parceiro fosse um predador, ou como evitamento, uma tentativa de se proteger de um parceiro que parece consumir a pouca energia emocional que resta. Em última instância, a forma como reagimos ao desencontro está ligada à maneira como lidamos com o vínculo afetivo. Independentemente da abordagem terapêutica utilizada, todas as escolas psicoterapêuticas convergem nesta estratégia essencial: tornar esses mecanismos internos evidentes. A partir dessa consciência, a terapia ajuda o casal a criar novas “danças” emocionais, promovendo compreensão e empatia para que o desencontro se torne menos destrutivo. Naturalmente, há casais que chegam à terapia num ponto em que o espaço terapêutico serve para preparar o divórcio ou a separação. Nesses casos, a mediação oferecida pelo terapeuta permite que se mantenham formas de comunicação baseadas no respeito. Muitos terapeutas “divorciam” casais, e isso também é um resultado de sucesso. O estigma associado à terapia em geral é uma barreira. Para além do jantar romântico esporádico, ou tempo de qualidade juntos, que muitos terapeutas irão certamente prescrever, a terapia ambiciona ir para outros sítios. Investir na relação é essencial para o amor, seja através da terapia ou de conversas honestas sobre a dinâmica do casal. Porque o amor não acontece simplesmente, ele sobrevive entre o conforto, o prazer e o conflito.