Quem descobriu o Brasil, ou Uma Dúvida

Estando a acabar a revisão do meu livro “As Árvores na Cidade” tive uma dúvida de “última hora” sobre a exacta classificação do salgueiro de ramos amarelos: era o Salix x sepulcralis var. chrysocoma, ou o Salix x salamonii var. chrysocoma? No site “The Plant List”, tido como “a referência” dos nomes científicos das plantas indicava-se que Salix x sepulcralis era um sinónimo e o nome aceite era Salix x salamonii.

Os Jardins de Kew

Ora eu tinha visto há algum tempo no site dos Jardins de Kew – os quais são os mais completos/conceituados a nível mundial (1) – o nome de Salix x sepulcralis, indicando inclusive onde tinha aparecido; e assim quis voltar a esse site – seria que teria lido apenas parte do texto e assim havido algo que me escapasse? E por tal voltei ao site dos Jardins de Kew, procurando esclarecer a minha dúvida.

Um artigo sobre a descolonização

Qual não foi o meu espanto, porém, quando verifiquei não conseguir encontrar nenhuma “brecha” para pesquisar as espécies pelo seu nome – o que anteriormente nesse site era muito fácil-, mas sim um grande artigo do director científico dos Jardins, Alexandre Antonelli intitulado “It’s time to decolonise botanical collections” (artigo que copio a seguir para que o leitor possa, independentemente do que vou referir, fazer o seu juízo).

Fiquei espantado e chocado. Então a política tinha aqui chegado? Sim porque a razão de ser dos Jardins Botânicos em geral, e de o Kew em particular (uma criação da era Victoriana, iniciado em 1840) é o de conservar/ aclimatar nos seus países as plantas que os botânicos-exploradores foram encontrando nos vários continentes – de preferência vivos (por vezes em estufas, pois, o clima outra coisa não permite), mas se tal não for viável herborizados.

Quem descobriu o Brasil? ou fazendo pouco caso da ciência

Ora Antonelli (um brasileiro), começando por contestar que o Brasil tivesse sido descoberto pelos portugueses em 1500, pois, segundo ele, o país já era habitado por milhões de pessoas (o que é uma falsidade pois não existia o “Brasil”, apenas centenas de tribos, com falas e costumes diversos e guerreando-se entre si, nomeadamente com curare) – continua negando também que as plantas tropicais tivessem sido “descobertas”, pois essas plantas já eram conhecidas e utilizadas pelos aborígenes há muito. Um discurso que seria admissível numa conversa de “chofer de táxi”, mas que não se pode aceitar da parte de um botânico. De facto, essas plantas foram “apresentadas ao mundo” por botânicos intrépidos que viajaram por todo o globo em busca de novas espécies (2); e porque esses botânicos, provenientes de vários países europeus, dispunham – ou foram construindo – uma botânica sistemática e organizada, que definia rigorosamente os termos científicos que descrevem as plantas e as agrupava de acordo com as suas características (nomeadamente o tipo de flor). Tal método permitiu que fossem comparados os resultados e experiências dos diversos países e zonas do globo; e assim hoje na China, em Portugal, ou na América, quando falamos de uma planta sabemos do que estamos a falar. E assim as tais descobertas, por muitas aspas que lhe queiram pôr, fizeram com que os conhecimentos sobre determinada planta passassem de ser das poucas centenas dos membros da tribo para património de milhões de homens e mulheres

Uma pseudo “nova política”

E, continuando, Alexandre Antonelli enuncia como frutos dessa “nova política” dos Jardins de Kew, o ensaio de duas espécies alimentares (o inhame selvagem em Madagáscar e a falsa bananeira na Etiópia), e o mapeamento das espécies úteis na Colômbia; e a digitalização das suas coleções.

Ora para tal não é preciso “descolonizar” – o ensaiar numa região de plantas provenientes de outras geografias foi o que as potências coloniais sempre fizeram através da história (em Portugal desde o tempo dos Romanos e dos Árabes). Sobre esta troca de plantas teve lugar uma Exposição muito interessante orientada pelo professor José Eduardo Ferrão, “A Aventura das Plantas e os Descobrimentos Portugueses”, exposição da qual resultou um livro com o mesmo nome. E se não tivesse havido essa troca muitos povos e países não teriam hoje de que viver, ou só poderiam suportar pequenas populações. P. ex., para o Brasil os portugueses levaram o café, a laranjeira, inhame, canela, jaca, fruta-pão, vinha, arroz, manga, a bananeira… para Angola a mandioca, o arroz, o feijão, o ananás, o milho, a batata doce, a bananeira, o limoeiro…E quanto à digitalização das coleções tanto um governo comunista como fascista ou democrático a poderia fazer. Mas, alto! Antonelli não fica pela digitalização – os textos e descrições vão ser “revistos” “and by examining and updating the western-centric labels we use to describe these items”.

Habilitações ou Etnias?

E Antonelli continua dizendo que vai aumentar o número de funcionários de diversas etnias entre os funcionários dos seus Jardins. Eu pensaria, na minha ingenuidade, que para a admissão de pessoal os critérios seriam as qualificações e a experiência dos candidatos – e que em igualdade de habilitações, obviamente, não se fizesse distinção de cor – mas parece não ser assim. Até porque os textos e descrições vão ser “revistos” “and by examining and updating the western-centric labels we use to describe these items”.

E se este artigo começa com uma dúvida acaba com uma certeza. Pensava eu que as intrusões da ideologia na ciência tinham acabado com Galileu, há 400 anos (e pelas quais, aliás, já o Papa João Paulo II pediu desculpa). E que assim a botânica era “irrespective of politics” – e veja-se que nem a revolução russa de 1917 nem a chinesa de 1949 haviam tocado neste ponto. Assim para mim fico com a certeza de que o artigo de Antonelli, um membro influente da sociedade, revela uma alteração profunda de mentalidades, para pior e não para melhor; e que sob a aparência de “modernidade” é um triste sinal de regressão.
….

(1) Estes Jardins têm uma área de 120 hectares (e várias grandes estufas); nele são cultivadas cerca de 28 mil espécies diferentes de plantas e de fungos, tendo além disso mais de 7 milhões de plantas herborizadas e uma biblioteca com 750 mil volumes. O número de funcionários é de cerca de 1.100.

(2) Exploradores que Antonelli de certa forma apouca com a seguinte frase: “Colonial botanists would embark on dangerous expeditions in the name of science but were ultimately tasked with finding economically profitable plants.”

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Arthur Soffiati
Arthur Soffiati
14 Jul 2020 05:47

Ao partirem para a conquista do mundo, no século XV, os europeus sabiam da existência de sociedades com cultura aprimorada na Índia, Oriente Médio, norte da África, China e Japão. A África era um continente a ter seus bens e habitantes pilhados. Sabia-se apenas que o Egito fora o berço de uma civilização pujante e que a população da Etiópia era cristã, embora não seguisse o papa. A chegada à América deu os europeus a esperança de que haviam alcançado as Índias, nome genérico para o Oriente. Daí o nome de índios aos povos que os europeus encontraram. Com o… Ler mais »