A rua era nossa, foi minha

Houve tempos em que morei ao pé do jardim Luís de Camões numa casa inteira, mas pequena, só para mim. A localização era perfeita: estava ao pé da biblioteca do Tap Seac, do café Honolulu, da Cinemateca Paixão, do restaurante Afonso e dos bares Che Che e Mico.

Durante o dia frequentava os três primeiros lugares, à noite os restantes. Aquela rua quieta, aonde não ia vivalma, era nossa. Primeiro jantávamos no Afonso, depois passávamos para o Che Che, cigarro atrás de cigarro, e depois terminávamos a noite no Mico. Às vezes começávamos a noite no Mico e bebíamos whisky japonês. Durante a semana ou aos fins-de-semana, conforme a disposição e a vontade de qualquer coisa.

Aos meus poucos leitores, peço que me desculpem esta onda de saudosismo, mas quando soube da morte do Pedro Ascensão, este domingo, recordei-me destes tempos em que subia aquela rua que fazia as minhas noites. Dono de um feitio muito particular, Pedro era capaz de pôr pessoas no olho da rua como também contava as histórias fascinantes dos tempos em que deu aulas no Alentejo e dormia ao relento, depois de andar quilómetros de motorizada. Aconteceu comigo. A minha casa foi vendida, saí. Pedro morreu e o Afonso fechou o restaurante. Aquela rua, que era nossa, e que foi minha, terá agora outra forma.

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