SCMP escreve que primeiro caso de infecção com o novo coronavírus remonta a Novembro, contrariando datas oficiais

O primeiro caso conhecido de infecção pelo Covid-19 remonta a 17 de Novembro, na província chinesa de Hubei, segundo uma investigação do jornal de Hong Kong South China Morning Post, com base em dados oficiais. O jornal escreveu que uma pessoa de 55 anos foi o primeiro caso identificado, informação que desafia a versão oficial, que data o surgir da doença em finais de Dezembro, em vários casos de contaminação ligados a um mercado de marisco, situado nos subúrbios de Wuhan, a capital de Hubei.

O jornal de Hong Kong cita dados do Governo chinês, que apontam que houve entre uma e cinco infecções por dia até 15 de Dezembro. Em 20 de Dezembro havia 60 infectados, apurou a mesma fonte. No entanto, nenhuma das nove primeiras infecções – quatro homens e cinco mulheres – foi identificada como o “paciente zero”, segundo os dados citados pelo jornal.

Essas nove pessoas tinham entre 39 e 79 anos de idade, e embora não se saiba quantos eram moradores em Wuhan, foi aí que o surto se alastrou, atingindo, até à data, quase 50.000 infectados e 2.436 mortos. Segundo o jornal, as autoridades chinesas identificaram pelo menos 381 casos de infecção até 1 de Janeiro passado.

No entanto, a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan só anunciou o primeiro caso no dia 5 de Janeiro, explicando que fora diagnosticado a 12 de Dezembro. O Governo chinês também só informou a Organização Mundial de Saúde (OMS) da deteção dos primeiros casos de uma “nova doença misteriosa” em Wuhan em 31 de Dezembro.

Segundo a OMS, o primeiro contágio pelo Covid-19 na China ocorreu no dia 8 de Dezembro, enquanto a revista médica ‘The Lancet’ apurou recentemente que a primeira infecção conhecida teria ocorrido no início de Dezembro.

Médicos chineses em Wuhan alertaram desde Dezembro para os perigos do surto de um novo coronavírus, mas foram silenciados pelas autoridades, que os obrigaram a assumir publicamente esses avisos como “rumores infundados”.

“As informações falsas divulgadas por departamentos relevantes [de que a doença era controlável e não era infecciosa entre seres humanos] deixaram no escuro centenas de médicos e enfermeiros, que fizeram tudo ao seu alcance para tratarem pacientes sem conhecerem a doença”, apontou o chefe de um dos departamentos do Hospital Central de Wuhan, citado pela revista Caixin, uma das raras publicações independentes na China.

“E mesmo aqueles que adoeceram não puderam denunciar. Não puderam alertar os seus colegas e o público a tempo, apesar do sacrifício”, disse. “Essa é a perda e a lição mais dolorosas”.

Entre os 4.000 funcionários que trabalhavam no Hospital Central de Wuhan, 230 morreram devido a infecção pelo Covid-19, outros permanecem em estado crítico.

Segundo apurou a Caixin, um funcionário do ministério de Segurança Pública visitou o hospital no dia 12 de Janeiro, e ordenou que os formulários sobre doenças infecciosas só pudessem ser preenchidos e os casos reportados após consultas com especialistas a nível municipal e provincial, atrasando o processo de identificação da doença, entretanto designada Covid-19.

Em 13 de Janeiro, Wang Wenyong, chefe do gabinete de controlo de doenças infecciosas do distrito de Jianghan, em Wuhan, ligou para o hospital e pediu que fossem alterados relatórios suspeitos de infeção pelo novo coronavírus, arquivados em 10 de janeiro, para que constassem outras doenças nos ficheiros, apurou a mesma publicação.

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