Caminho de Sahel

Longa estrada. Quantos anos têm estas palavras novas, já irisadas de dunas? Forma-se uma bolha, no tempo. Como uma erupção dermatológica que vai passar ou deixar marca. Na pele. Do deserto. Uma ruga nas areias assestadas ao vento. Como ombro defensivo. O dia mais pleno e a paisagem mais longa. A ociosidade que evolui nas dunas como as rugas do tempo a lavrar o rosto e com a lentidão inexorável que só ele sabe.

Lembrar tantas coisas não vistas e não vividas. Tantas, que nelas nos encontramos. Que liberdade imensa só assim. Bem vês, estamos ali, mais longe do que o imaginado simplesmente nos dias iguais. Vou. E sei que nos encontramos lá. Para um chá perfumado de menta e um sol tórrido. A fugir. Lento. O toldo em franjas. Mas nada importa porque se coa a luz e o tempo pára. Em coisa escuras “para ser amadas entre a sombra e a alma”, como dizia Neruda.

Ou lugares possíveis que dizias, estendendo a mão mapa. Tiravas da carteira esses catões de visita que sigo, a vir dar aqui. Onde haveria que voltar e sempre. É talvez por isso ou porque que não há dia maior do que o do deserto. Nem lugar que menos sombras ocultem. À luz, sem que tudo se faça visível, sem cantos sombrios e estátuas a encobrir a face que conta. Em segredo nas luzes da cidade. Olho para dentro deste copo de chá, que tenho entre as mãos. É preciso que na transparência do líquido não veja um chá deserto.

Não me apanhes pela noite, viajante. Enquanto o chá me arrefece sem emenda nas mãos. E, pontual, chegou, como outras vezes, em sua vez a ausência.

Há desertos de viagem, como objectos portáteis que trazemos connosco. E há os desertos grandes que se estendem ao olhar e, na comparação, os reduzem a ínfimas partículas de um punhado de areia, no enorme continente. Espraiamos os olhos como quem os atira ao mar. Refrescam a alma sedenta de correr como só o faz um chá quente. E quantas vezes – outras – à beira do deserto. Deserto do tórrido esplendor a sós. O ar do deserto. Move-se. Cedo ao perfume e à linguagem do chá no copo de vidro, a escaldar e a espalhar um aroma de menta. Das folhas sóbrias a acabar vida na beira do desvão do copo e um oásis. Abismar as pupilas mínimas e os lábios nessa fronteira do líquido transparente. E doce, sempre demasiado doce. Para lá, não há esquinas nem ângulos abruptos. Só esse mar. Em drapeados que não parecem temer nem acabar. O Sahel.

Esta faixa quase árida de savana seca, com um verão chuvoso mas pouco. Lacrimal. Sahel é quase nome de anjo. Uma longa asa estendida à cintura de África, como quem dissesse, daqui para cima o deserto. Porque quando atraca a um território, revira-se a terra em alguns graus no eixo de rotação diário e cria desertos de longitude indeterminável. Mas agora as penas um muro. Uma barreira de árvores contra a vastidão crescente.

Onde mais te poderia encontrar? Neste terraço ressequido sobre o mar de luz. Nem precisava de me virar porque pressenti sem equívoco a enormidade que quase alteraria o eixo de rotação da terra de novo em mais uns graus. Não fora assim antes e seria bem outra a paisagem. Que a mudar, seria como a minha num minuto determinante. E mesmo se mais um grau apenas, da rotação, a mudar, muitos quilómetros de deserto novo sobre as terras limítrofes. Que deserto é tudo o resto. O que se instala. Sentes o poder?

Veio, chegou antes de se anunciar. À beira do nada, a orla do estéril. Em contrição pelo aperto inclemente e do sol. Se alguns reconhecem a linguagem do deserto. Se ouvem as vagas como senão sentido, ouvido e amado. Secreto rumorejar de areias sob os pés, porque o restolhar é indiscreto, o sentir. Sair daquele ponto apontado no mapa. Nas entrelinhas de um mapa, encontramos por vezes quem voou sem destino e amarou em dunas.

Uma trepidação lânguida do ar, como se toda a realidade a rescender do deserto da terra logo ali aos pés, num fumegar a respirar o calor intenso. Como se acabada de sair das trevas frias e ainda fumegante. Sahel, como outra franja de deserto qualquer. Percorrida de caravanas, de alforges repletos de coisas essenciais. Segredos. Armas. Coisas que o comum mortal não coloca na lista do necessário. Mas cada um sabe de si e do que transporta.

Descalço-me. Os pés, a alma exaustos de caminhar. Os oásis existem, afinal. E depois, mais além não interessa mais do que o teu olhar indizível. Então estás aqui finalmente no meio deste nada. Nada mais carece de sentido nenhum. Porque cheguei, porque me sentei, descalcei as botas doridas e simplesmente rejeitei a possibilidade dessa dor menor entre o meu olhar e tu. Ali. Na minha frente e longe de tudo. Uma camada de tempo e abstracção. Mais que não seja desta dor insistente.

No deserto, onde acampar senão na voz de uma voz amiga. No semáforo inclemente desse sol sem-abrigo nem destino. São vozes, as do deserto que nos toma. E quentes. Sobejantes ao sol que ilumina. A importância ou o esquecimento. Olho mais além. Ali está ele, parado, extático em espera. Ao apelo na atmosfera densa e tórrida, a inundar pulmões e alma de caminho, volta-se de frente e reconheço-o inconfundível. Cruzamentos nas linhas do mapa, da mão estendida. O relógio parado sem prazo a extinguir, fecho as folhas amareladas do sol a esta escrita.

As palavras não crescem no deserto. A plenitude. Talvez. Longe da selva, urbana. Demasiado urbana. Onde cada pessoa é demasiado humana. E só ele, anjo. Mas as árvores crescem. Lentamente. A grande muralha verde contra o avanço do deserto.

A verdade é chegar. Ninguém vem tão longe senão para se encontrar, ou um amor. O chá aromático, de folhas, no copo que rolo nos dedos e ainda a escaldar, o dirá. Senão o tempo.

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