Breve inventário das coisas impossíveis

Take your cracked violin
Let the music begin
And sing like you’re Francis Hoboken
If your voice is all shot
It’s still the best one you’ve got
Paddy McAloon (Prefab Sprout)

 

Uma das boas notícias parece-me ser esta: um tipo tem uma afeição musical que se transforma em interesse e na fronteira com a obsessão patológica. Um tipo – por conveniência da narrativa e do anonimato irei designá-lo por “eu” – acha, por exemplo e nesta lógica, que sabe tudo ou muito sobre, digamos, Sinatra ou Prefab Sprout. Mas se tudo correr bem acontece o que o agora desvairado profeta Morrissey lapidou em Cemetery Gates, canção de um disco perfeito dos The Smiths vinda à luz no cada vez mais distante 1986: “There’s always someone with a big nose who knows”. E há.

O leitor, como é sábio, percebe que aqui o tamanho do apêndice é metáfora para um apelo à humildade e à escuta antes de começar a perorar furiosamente e carregado de certezas. Se esta atitude parece estranha à corrente destes dias é porque é. E mais: faz falta.

Mas deixem que regresse ao que tenho para dizer. Tenho o privilégio de ter noites de amizade regulares que incluem descobertas e cumplicidades musicais. Por vezes – tantas vezes – fazemos de DJ de emoções, escolhendo canções conhecidas ou não mas destinadas a fazer explodir as emoções do outro. Assim uma espécie de drones dos afectos, só que mais devastadores e personalizados. Foi numa dessas noites que conheci a canção cujos versos estão em epígrafe. Isto não é coisa pouca para quem é fanático de Prefab Sprout. E como se não bastasse, para um auto-proclamado sinatrólogo pior ainda. Reparai: aquele Francis Hoboken é o mestre em pessoa, nado e criado em Hoboken, New Jersey. McAloon, um admirador inveterado do songbook americano e caso extraordinário na bruma pop dos anos 80, prestou-lhe mais uma homenagem explícita (oiçam Hey Manhattan para ter outra prova). Foi o “big nose” que precisava para estar caladinho e grato.

E o rastilho para estas palavras. Aquele título, só por si, é de uma beleza e abre possibilidades maravilhosas – até mesmo para não-utópicos como este vosso criado. Criar uma lista de coisas impossíveis está longe de registar os últimos desejos ou desejar a paz no mundo em cima de uma passerelle. Uma lista dessas pode ser algo belo porque inatingível. Por aí fui, com a noção de que os meus impossíveis valem o que valem. Mas a ambição destas crónicas é pelo menos inquietar. Ou fazer rir, o que vier primeiro. Enfim, aqui fica uma brevíssima lista de alguns dos meus impossíveis, sem ordem de importância:

Ser lido e amado por quem me lê.
Estar com gente de opiniões contrárias e discuti-las com argumentação, ideias e de preferência, rosto a rosto.

Erradicar de vez e selectivamente a influência francesa na nossa academia e legislação em geral.
Explicar a quem se julga com uma “missão” para nos salvar de alguma coisa (a “má literatura”, a “sociedade ideal”, a arte que deve ter sempre uma “mensagem”) que todos somos imperfeitos e que isso nunca irá resultar.

Tentar aceitar de bom grado e com sensatez a “banal democracia da morte”.
Considerar que Fernando Namora é um bom escritor.
Considerar que amar alguém é cómodo.
Achar que a história tem um sentido e é por ele que vamos.
Esperar que a gentileza – a mãe e filha de todas as boas maneiras – regule o mundo.
Nunca mais fazer listas de coisas impossíveis.
Erigir uma estátua a Sinatra no Campo Grande.

É a sua vez, leitor amigo. Lembre-se que esta lista do impossível não é mais do que uma espécie de lista de desejos e não um conto de fadas. Por isso, cuidado: se a realidade nos agraciar só teremos a nós para nos culpar.

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