O fenómeno do hospedeiro

Atravessemos então este deserto pois que é Natal no mundo e sem ele não há a festa. Aquela faixa estreita e alta, por onde todas as colunas de um estranho fogo se levantam, é um corpo, um organismo, um efeito anatómico, e o seu estreito desenho nos mapas parece-nos ainda uma serpente emplumada, e se grandes extensões na Terra são mais ou menos estáticas, neste corredor tudo o que muda nos fez mudar também. O metabolismo deu certamente origem a um “órgão” não assimilável pelo conjunto do todo, uma árvore trepadeira perto do jardim do paraíso onde querubins guardiões ainda vigiam o mistério vegetal do seu reino. Daqui, todos se foram em diásporas e reinos disseminados para o corpo mundo que os circunscreveu ao seu domicílio de estranhos hospedeiros, mas o órgão retorna, e mesmo quando não está no local de origem sente as dores fantasmas do amputado, e é este órgão que se vê submetido a uma luta infinda perante o corpo que se instala por fim no local nascido.

Foi a dissidência da sua condição original que criou o coração, e nós ainda caminhamos à procura do centro, ponto indizível do tal órgão indesejado neste corpo em circuito fechado que expele sémen e detritos, mas que pode vir um dia a ser o lugar da habitação: somos escravos e estrageiros no corpo habitado e não sabemos onde está nele o local mais santo. Tocar nesse corpo é o convite ao hospedeiro na funda gruta da sua estalejaria, mas se o corpo apenas nascer, não saberá desta função. Se da casa de David vier um longo entendimento, essa casa é a Arca e transportar o seu enigma convidar-nos-á a dançar enquanto pelo deserto a marcha vai.

Quem regressou da viagem veio por uma estrela. Foi na época de um corpo muito sombrio que não deixou de sentir a sua vocação, e se nas margens de um Mar Morto a imortalidade o tomou, é por que o mar é um elemento que morrerá quando todo o deserto cobrir o detrito que foi a humanidade, e nem por isso fomos menos sagrados a um tempo que esse menino que nasceu. Que nascer era tudo que os profetas almejavam para libertar o seu mundo da morte constante, da fuga sem fim, da diáspora, dos ódios de todos. Nascer em qualquer lado sempre a andar, e regressar um dia apenas pelos sonhos- por um imperecível sonho- que só um corpo tão glorioso não apagara.

Quando toda a memória dele se for estaremos perdidos dentro de nós, o corpo quer viver, mas a sua alma, não, e tudo lhe serve de combate a um confronto épico onde a matéria se endeusa para cobrir a fria corrente… Sem que o saibamos podemos estar mortos dentro do corpo a pedir ao desejo que nos traga um sentido para não morrermos de terror. Os que vaguearam pelas vagas de inimigos retornaram ao lar, os dissidentes desse lar deram-nos uma luz, mas, se o corpo estiver coberto de musgo pela passagem dos presépios, apenas andaremos em busca do nosso refúgio imaginário. O deserto onde nasce um deus não precisa de mais nada que ser um ponto de infinito entre as Nações. Nem nós, corpo imenso, somos capazes de cobrir a sua grandiosa desolação, nem entender os rios onde se chorou para a ele retornar. Ao nosso corpo juntemos as palavras do Levítico, 19, 33-34: «Não oprimireis o estrangeiro que permanecer na vossa terra» o que não conhecermos de nós que seja bem-vindo e se junte para a transformação; os nossos órgãos de fogo não podem destruir toda a grande casa!

Com compassos de espera até ao estertor final nós vamos prosseguindo tão sós como num qualquer deserto e falta-nos ainda saber da rota deste desconhecido habitado. Veste-se de usura e é indecifrável nos seus desígnios? Despe a usura e cobre-se de um manto bom e protector? É porque veio da sua própria necessidade ocupar o tempo no espaço que deve ser melhorado e criar luz nas próprias entranhas.

Diz-nos ainda que seis órgãos servem o ser humano e três escapam ao seu controlo, e nesta aventura saberemos o que temos de integrar. Nada se passa muito além e, no entanto, é sempre para longe que reflectimos e desconhecidos de nós mesmos, festejamos. Estamos na hospedaria mas está tudo preenchido, não temos lugar…. e quando damos por nós fomos parar a um local improvável, nos confins do mundo, desértico, com as dores de parto de um mistério por decifrar.
Guardemos os segredos e caminhemos.

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