Evolução

Continuando no tema da náusea provocada pela morte do significado e dos conceitos. Reflexões um nadinha mais profundas, ainda assim epidérmicas, depois da espasmódica coluna canina de sexta-feira, levaram-me a pensar na evolução das espécies, na viagem incrível de Darwin a bordo do Beagle, na sobrevivência como recompensa para maior aptidão.

Tal como na biologia, também conceitos, direitos, ideias e valores dissipam-se e extinguem-se na luta constante e cruel entre fortes e fracos. Sem as constrições da genética, mas também sujeitos aos elementos, os ideários são susceptíveis ao zeitgeist político, ao panorama económico, às vontades umbilicais dos que olham para o mundo como se fosse sua propriedade. Nesse aspecto, as ideias são seres frágeis, apesar de duradouros alargando o zoom temporal para um longuíssimo-prazo.

A questão linguística de deturpar o sentido dos conceitos, de tingir significados com as cores berrantes da propaganda, não é a única causa de morte, mas talvez seja uma das mais exasperantes. Eleva a raiva aos píncaros. Como o exemplo dos antigos esclavagistas norte-americanos que preferiam guerra civil a abdicar da “liberdade” de fazerem pleno uso do “direito” de disporem da sua “propriedade”, deturpando esses conceitos para retirar humanidade a outro humano.

A vasta maioria das ideias perecem na imparável evolução moral e social. Em certos casos, o que já foi ética e socialmente aceitável em tempos é hoje em dia hediondo e um trauma do passado.

Há bem pouco tempo, havia apenas uma ténue linha entre pedofilia e uma espécie torcida (hoje em dia) de educação sexual, de tutela íntima. Até JP Sartre escreveu sobre isso. Muito mais antiga é a noção de que a mulher não é um ser pleno, capaz como o homem, bizarria lógica e desrespeito que ainda hoje envenena algumas mentes paradas no paleolítico ético.

Nunca antes na história desta aventura chamada humanidade tivemos uma situação tão favorável em termos de direitos humanos e de respeito pela vida, apesar de todos os horrores que enchem os noticiários. Mas isso não é sinónimo de passividade.

Tudo o que somos hoje em dia foi conquistado com sangue, suor e lágrimas. Iniquidade e perversão estão sempre à espreita, como uma força corrosiva. Por isso, é nossa obrigação, enquanto homens e mulheres deste tempo, levantarmos o dedo do meio perante as vozes que atentam contra noções de direitos humanos, que tentam instrumentalizar a dor dos povos para tirar dividendos políticos. O equivalente biológico ao lagostim vermelho, ao bicho que provoca extinção sem adaptação ou evolução, mas a extinção através da chegada de uma espécie invasora, introduzida como instrumento para matar um ecossistema de valores.

Transportando estas ideias para o que nos rodeia, para o mundo em que vivemos, é nossa missão maior sermos guardiões das conquistas do passado, protectores da invencível máquina da selecção natural dos princípios. Assim sendo, quando ouvimos, lemos, vemos pedras no caminho da evolução ético/social, temos a obrigação de as desviar, mesmo que o peso pareça insuportável.

Não podemos ficar de braços cruzados enquanto forças que planam por cima das preocupações do homem médio traçam cenários de regressão e ameaçam valores de decência e humanismo que conquistámos a tão elevado custo.

Quando vemos a bem presente confusão local entre elevado grau de autonomia e subserviência cega perante o poder maior sobre o qual se arroga a autonomia devemos afirmar esse paradoxo e denunciá-lo.

Existe aqui uma enorme contradição que mata os dois significados, um par de premissas fracas num silogismo que não vai a lado nenhum. Autonomia e servilismo não podem acontecer ao mesmo tempo, um destes organismos conceptuais está destinado à extinção.

O mesmo acontece com um princípio basilar que rege a especial administração desta região. Não são necessárias forças externas para corromper um segundo sistema quando este está em constante assalto interno.

Meus amigos, sejamos claros. Uma Assembleia Legislativa que se transformou num concurso para ver quem é o mais patriótico não tem qualquer interesse em ser autónoma. Já não tinha interesse em ser independente e fiscalizar o Executivo, muito menos defender Lei Básica, declarações conjuntas, ou o princípio “Um País, Dois Sistemas”. Para a larga maioria dos deputados de Macau, este princípio acaba em “Um País”.

Estamos todos a assistir impávidos e serenos à extinção de valores e princípios basilares ao papel que Macau tem e quer ter no futuro, enquanto natural parte do território chinês. Não estão em causa lentos processos de adaptação que imprimem novas características ao organismo na ancestral corrida pela procriação e sobrevivência, como testou o visionário Darwin. Não. Estamos a olhar para o asteróide apocalíptico como se fosse um foguete de fogo-de-artifício a iluminar o céu.

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