Direito a entristecer

Escrevo quando o meu relógio ordena que sejam 1:43 AM do dia 31 de Dezembro de 2019 em Lisboa, Portugal. O relógio tem razão: chegado da rua bem pude observar a efervescência misteriosa que acompanha estes dias e mais ainda a véspera da véspera do que supostamente vemos como final de um ciclo e a esperança de um novo.

Sobre isto, pouco a dizer. Em rigor estou grato a esse 24 de Fevereiro de 1582, quando o Papa Gregório XII estabeleceu pela bula Inter gravíssimas o modo artificial como podemos domesticar o tempo, esse monstro que criámos. Provavelmente a minha gratidão seria idêntica se por acaso pertencesse a outra cultura com outros modos de fazer o mesmo. É uma das coisas que nos une, a nós pobres humanos: a percepção do tempo, do que nos atravessa devagar e sem retorno. E sempre é um pretexto, se pretextos forem precisos, de reunir com amigos e em clima festivo fazer o que na verdade deveríamos fazer ao longo do ano. Mas divago.

A questão que me atormenta é outra. É a vida, é o que temos. E ao olhar hoje para estes dias que são “emblemas de perfeita felicidade” (para traduzir o poeta que mais me diz) sinto desconforto e estranheza.

Tudo parece turvo e desalinhado. Admito: fases da vida, horas que doem mais, disposição melancólica incorrigível. Mas assim mesmo, amigos, mas assim mesmo. Onde ficamos nós, as vítimas de dramas nem por isso dramáticos mas que doem? Para onde podemos ir, nós os que por mistério, sorte ou destino conseguimos escapar às grandes tragédias humanas mas que como todos temos que enfrentar as mais quotidianas?

Nestas alturas onde ficamos nós, os exilados da alegria luminosa, os fugitivos dos outros? Onde nos iremos esconder da felicidade, mesmo que ela não exista? Onde podemos expiar os nossos pequenos dramas – tão pequenos que não podem importar face a quem morre ou face a quem não tem abrigo? Que petições existem para os que apenas padecem de um amor que fugiu, de um amigo que desiludiu, de uma vida que muda quando não existem forças para ela mudar ? Que santuário para o tipo que bebe o seu jantar a pensar no que perdeu, para todos e todas que apostaram e perderam? Quem pode aceitar os que estão tristes?

Ah, amigos: nestas alturas a vozearia periódica da alegria pode ser insuportável. Corrijo: é insuportável.
E ninguém nos deseja, e todos fogem de nós porque entristecer é contagioso, inoportuno, inconveniente. Esta continua a ser a época em que é mais fácil chorarmos globalmente do que enfrentar as lágrimas de alguém próximo. O dom das lágrimas, tão louvado pelo cristianismo primitivo, perdeu-se para uma névoa de compaixão anónima, muito mais confortável.

É preciso não ter medo da tristeza. Ainda mais nestas alturas em que não seria suposto enfrentá-la. É preciso lembrar que numa cultura orientada a todo o custo para a perseguição dessa entidade mítica que é a “felicidade” a tristeza vale exactamente o mesmo, até por oposição. Não, amigos: regressado da euforia do que achamos que temos de fazer, reclamo sem medo e com urgência o direito a entristecer.

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