Esperar

Esperar” é uma relação intencional, admite um espectro de possibilidades de comportamentos relativamente a uma multiplicidade de objectos. Esperamos por A, B ou C, X, Y e Z. A relação que se estabelece entre nós e cada objecto implica estarmos depostos num futuro, mais ou menos imediato ou até tão remoto que nem parece estarmos à espera do que quer que seja. Há várias possibilidades de projectarmos futuro na espera. Há a espera accionada com a expectativa de qualquer coisa que está aí a rebentar, uma pessoa que, não tarda, chega, o início de um espectáculo, a vinda de um meio de transporte. O campo perceptivo não fica apagado, mas não está em sossego, não importa verdadeiramente na sua contemporaneidade, enquanto sincroniza sujeito de percepção, eu a ver, e objecto de percepção, a rua a ser vista. Quando esperamos por um meio de transporte, de chegada iminente, vemos a Av. de Lisboa, onde estamos, com os seus prédios de cada lado do passeio, carros que passam, nas duas direcções, se há ou não tráfego, os transeuntes, árvores, o céu que serve de plano de fundo. A espera não é, contudo, um aspecto assistencial da realidade. Não o é no seu sentido mais próprio. Se estamos à espera de um meio de transporte, se soubermos de onde se dá a sua aproximação espacial, olhamos nessa direcção. Não olhamos, portanto, com interesse ao que está a desenrolar. Tudo o que se está a desenrolar é um conteúdo sem o objecto da espera. Olhamos para tentar ver o que não pode ser visto nunca do ponto de vista da espera. Se estou à espera de um Uber olho para a aplicação, vejo a representação digital do carro no seu percurso, olho para a rua para ver se já está disponível na percepção. Enquanto não estiver estou “virado” para um espaço físico mas representado: as ruas pelas quais o carro passa, não está a ser efectivamente vistas por mim. Há bairros de prédios a esconder essas ruas, há a distância a que me encontro delas. Além disso, estou virado para o ponto que define a esquina que será dobrada pelo carro, depois de dobrada, sei que o carro se configurará em percepção. Se olho na Av. de Berna para o Campo Pequeno, é porque acho que sei que o carro aparecerá daí. Não olho para o lado da Gulbenkian, se estiver na NOVA FCSH. Se estiver do outro lado do passeio e quiser ir na direcção do Areeiro, então olho na direcção da Praça de Espanha. É daí que virá o meio de transporte. Tudo o mais perde a importância ou antes é compreendido como o plano atrás das minhas costas, na direcção do qual quero ir, que me orienta espacialmente a espera, mas não está a ser visto. Quando vejo o Uber aproximar-se, está já no campo perceptivo, mas está ao serviço do funcionamento da espera. O carro tem de se aproximar a tal ponto que eu consiga, ao esticar o braço, agarrar o trinco da porta, abrir, aproximar-me do carro para entrar, primeiro perna esquerda, depois direita, baixo-me, sento-me, espero pelo arranque, início da viagem, etc., etc.. Quando entramos para dentro de um carro a espera não se dissipa. Há uma fase da espera que fica preenchida. O carro demorou a chegar ou veio de rapidamente. Depois, é necessário fazer o caminho que leva até ao ponto de chegada. O ponto de chegada, uma vez lá, não é o preenchimento, a não ser de uma fase do que estamos a fazer, do que temos de fazer. Vamos a um sítio sempre para tratar de alguma coisa em agenda, para ir por ter de ir ou para ir para qualquer coisa específica. O que se passa para a espera por um meio de transporte, de forma evidente, passa-se para todos os objectos nos quais estamos depostos. Achamos que esses objectos de espera, os objectos por que esperamos, estão já disponíveis na nossa percepção momentânea em que presente e conteúdos apresentados parecem coincidir. Mas se parecem não são coincidentes. Se quero ir de uma divisão da casa para outra, a biblioteca não está na sala de jantar, eu sei que as duas divisões estão contíguas espacialmente, mas uma está à distância temporal do percurso que tem de, necessariamente, ser feito até lá chegar. As divisões de uma casa estão justapostas ou são contíguas espacialmente, mas estão descontinuadas temporalmente. Agora que me levanto do sofá da sala de jantar, a biblioteca onde está o livro encontra-se “depois”, “mais tarde”, mesmo que seja a instantes de uma qualidade tão breve que esse simples facto, de que há uma distância temporal entre as duas divisões, não é percebido cabalmente. Mas se estivermos numa mesma divisão, a espera está a constituir-se eficazmente relativamente a conteúdos que não se destacam nem perfilam na sua individualidade dinâmica. O meio de transporte por que esperamos ou a espera pelo meio de transporte é o sentido da situação em que nos encontramos. Não estamos à janela do mundo apenas para assistir como espectadores desinteressados ao que se está a passar. Todo o campo da percepção está situado pela espera. O livro que precisamos de consultar não está no campo de visão da sala de jantar, mas erige-se, sem uma apresentação visual forçosamente, pela ideia que tenho de que está na biblioteca. Eu vou até ele, passando pelo corredor, depois de ter saído da sala de jantar. Quando estamos a viver o campo perceptivo, quando aparentemente não se espera por nada de concreto que se destaque ou perfile de todos os objectos que aí se encontram, há ainda assim, espera. Achamos que, por defeito, nos encontramos num campo perceptivo, sem estarmos à espera de nenhum objecto, pessoa ou coisa, concretos. Mas é inversamente o caso.

Estamos continuamente e sempre à espera de poder continuar a estar na Av. de Berna, ir ao Campo Pequeno, à Gulbenkian, à Pr. de Espanha. Estamos continuamente à espera de poder continuar sentados na sala de jantar ou a ler um livro na biblioteca. Por defeito, encontramo-nos na espera de continuar no horizonte de percepção que é tão pouco só a sintonia entre ver e visto, a sincronização presente, num instante ou numa duração considerável, de agentes de percepção e objectos de percepção, que a possibilidade de não continuar, de a percepção se desfazer, constitui problema. Não nos apercebemos, a não ser quando estamos “acesos” por um conteúdo específico de espera, que estamos sempre depostos num horizonte de espera que dá identidade de sentido e permite o reconhecimento da mudança no imutável, da sucessão na permanência. O que nada muda tem também o seu apelo.

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