Eu sou ela

“and he said: you pretty full of yourself ain’t chu
so she replied: show me someone not full of herself
and i’ll show you a hungry person”
Nikki Giovanni

As redes sociais mundiais estão obcecadas com Greta Thunberg e coube às redes sociais portuguesas duas obsessões extra: o último video do rapper Valete e a gaguez de Joacine Katar Moreira. Não sei quase nada sobre Valete, a sua carreira, as suas origens, o seu percurso pessoal e profissional. Ouvi muitas vezes uma canção de há uns anos, em que colabora com Capicua, rapper, feminista e activista extraordinaire. Essa canção, Medusa, é precisamente sobre abusos, igualdade de género, é o denunciar de situações criminosas e misóginas que vemos, ainda, repetirem-se demasiadas vezes. Na semana em que o Theatro Circo de Braga se encontra de luto profundo por um elemento fundamental da sua equipa, Gabriela Monteiro, ter falecido, vítima de violência doméstica, a reflexão e a acção tornam-se mais urgentes ainda. Não entendo o que aconteceu nos últimos anos para que a mensagem de Valete tenha, aparentemente, mudado. Sei que enquanto rappers, feministas, plantas e animais de estimação debatem no twitter e no Youtube, essas mulheres continuam a precisar, elas sim, de atenção, que tem ido para tudo e todos excepto as mesmas. Passamos tristemente do oitenta ao menos oito, quando as argumentações e defesas revisitam os esqueletos no armário de cada um dos envolvidos, abordando situações totalmente alheias a esta. Mediatismo à parte, não é diferente ver o video de Valete (que não aprecio, nem à letra, nem à defesa que dele faz) ou ver videos virais, brasileiros, verdadeiros, de mulheres que maltratam outras mulheres violentamente, em situações de adultério, com armas e cortes de cabelo, exactamente ao nível do que os gangues fazem. E se recordarmos a carreira musical de Rihanna, talvez fiquemos um pouco confusos com Love the way you lie ou Bitch better have my money e a mensagem que passam, depois da sua famigerada relação com Chris Brown, resultante em violência. Apenas me pergunto se não deveríamos, como diz Capicua, colocar a minha ira, a nossa ira, a ira…ao serviço de cada vítima acusada / e transformada em monstro.

No cartaz de um evento está a minha foto e a de mais três mulheres, uma delas negra. Por engano, escrevem o meu nome duas vezes: por baixo da minha e da foto de uma delas, a escritora Yara Monteiro, que se apercebe do erro e pede a correcção. Concordamos, rindo, que é um elogio mútuo, erros à parte. Seria porque ambas temos uma mega cabeleira solta e volumosa, fácil de confundir? Estas coisas acontecem com alguma frequência, seja com nomes, fotos ou até descrições. Por vezes até através do tempo e do espaço, como descreve a Djaimilia Pereira de Almeida em Esse Cabelo, quando se reconhece na mítica foto de Elizabeth Eckford, tirada em 1957. Eu mesma tiro uma foto de rosto encostado à capa deste romance, ao melhor jeito “podia ser eu”. É que podia mesmo. Dias mais tarde, ao jantar numa associação, um jovem dirige-se-nos.

Sim, estou agora com essa amiga, já fora do cartaz e com muito menos cabelo do que na foto. O jovem apresenta-se e, quando dou por mim, está a segurar-me as mãos, embevecido. Pede-me um autocolante, respondo que só tenho um, a minha amiga também, mas cede o seu. Ele continua, embevecido, a segurar-me a mãos e a dizer coisas que não percebo, mas a minha amiga sim, e clarifica: “Ela não é a do autocolante.” É então que eu e o jovem ficamos perplexos, ele por perceber que eu não sou eu ou, pelo menos, aquela que ele julgava que eu era, e eu por perceber finalmente de onde vinha tudo aquilo. Mais um dia na minha vida. A minha amiga continua “Ela está lá fora.” Sei um bocadinho mais sobre ela do que sobre o Valete. Ela, neste caso, também conhecida por aquela com quem eu fui confundida, era Joacine Katar Moreira, a outra mulher do momento. Sim, aquela que gagueja e depois fecha os olhos e faz sons estranhos e tudo isso.

Ocorre-me um trocadilho entre o romance de Yara e a gaguez de Joacine, em vez de Essa dama bate bué, poderia ser Essa dama gagueja bué. Continuaria a ser uma história sobre mulheres e luta. Tento negociar com esta minha nova função de sósia, que representa uma grande vantagem para ela, a da ubiquidade. Mas onde é que ela não está? Outro dia vi tantos dos seus cartazes espalhados, a maioria intactos, um ou outro vandalizados, como todo o bom cartaz, no bairro com maior diversidade cultural de Lisboa. Recordei as suas palavras numa entrevista recente: “Eu sou uma mulher negra para poupar o esforço a muita gente.” Tenho de lhe perguntar, a ela e a todas as mulheres, vítimas ou não de alguma coisa, certamente sobreviventes de muitas mais, se conhecem a poesia de Nikki Giovanni (em cuja foto de cerca de 1980 me espelho, cheia de saudades de ter o cabelo maior) e aqueles seus versos: “I cannot be comprehended / except by my permission.” Urgem a permissão, a compreensão, o respeito e a paz.

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Esmael silva Monteiro
Esmael silva Monteiro
14 Out 2019 01:32

bonito e emocionante!