Embaixada Jesuíta de 1555

Nas viagens ao Japão, os portugueses tinham Lampacau como apoio na China, sua verdadeira sede entre 1553 e 1558, segundo Beatriz Basto da Silva. Feito o ‘Assentamento’ em 1554, foram eles autorizados a negociar nas águas do Guangdong, em Lampacao e Macau, e legalmente irem comerciar a Cantão. “Realizava-se com este acordo um dos principais pontos de que dependia a viagem ao Japão, para além de se assegurar o comércio pacífico com aquele imenso mercado que era a China; a possibilidade de, na época própria, poder haver, legalmente um porto na costa da China, embora ainda em regime provisório e menos estável do que as feitorias que teriam tido em Fu kien e no Che-kiang”, segundo Gonçalo Mesquitela, que refere, “A repercussão deste acordo foi imediata entre os portugueses, tal a importância que teve entre os mercadores e missionários de Goa e de Malaca, que finalmente obtiveram as condições para prosseguir o sonho em que morrera S. Francisco Xavier: a abertura da China à evangelização.”

A nova da vitória diplomática de Leonel de Sousa logo foi levada a Malaca, onde se encontravam os padres Belchior Nunes Barreto S.J. e o dominicano Fr. Gaspar da Cruz, que animados planearam ir a Cantão tentar resgatar os portugueses feitos prisioneiros na China ao longo do estado de conflito existente desde 1521. Cada vez que uma nau se perdia ou era tomada pelos chineses, os tripulantes eram mortos ou aprisionados; mas tudo isso mudara porque os portugueses passaram a ser reconhecidos e a pagar direitos.

Assim, em 1555 ocorreu a segunda “tentativa de penetração do Evangelho no Celeste Império, ao nível embaixatorial e por meios dos ‘filhos’ de Inácio de Loyola”, segundo Videira Pires, que refere, “Belchior Nunes Barreto, vice-provincial dos Jesuítas no Oriente, com o padre Gaspar Vilela, quatro outros irmãos (Fernão Mendes Pinto, Belchior Dias, António Dias e Estêvão de Góis) e quatro meninos catequistas, viajando para o Japão, chegaram a Sanchoão e aí celebraram Missa” a 20 de Julho. Seguiram para Lampacau de onde o padre Belchior Barreto se dirigiu por duas vezes a Cantão, no período de Agosto a Novembro de 1555. Beatriz Basto da Silva data de 20 de Novembro de 1555 a chegada a Cantão e refere ter sido o primeiro jesuíta a entrar na China Continental. E continuando com Videira Pires, o padre Barreto “em cada visita demorou-se um mês para negociar a libertação de alguns dos 60 cativos portugueses na China.

Só para Mateus Brito, ali preso há seis anos e mais dois portugueses, assim como três outros cristãos, o resgate era de mil taéis, por cabeça”. Mas o melhor produto para trocar pelos cativos portugueses era o âmbar cinzento, pois o Imperador Jiajing (1522-1566) há seis anos o procurava ansiosamente, por dar longa vida, noticia Fr. Gaspar da Cruz. No entanto, só depois da terceira visita do padre Barreto a Cantão e após a partida da missionária embaixada jesuíta a 7 de Junho de 1556 rumo ao Japão, foram estes seis presos libertados, passada a Quaresma de 1556 e antes de 1558.

O padre Barreto regressou a Goa em 1557, tendo exercido desde Agosto de 1555 a Junho de 1556 o apostolado entre os cerca de 300 portugueses que se encontravam então em Macau, assim como em Lampacau. Refere Victor F. S. Sit, “Fontes históricas indicam, também, que, até aos anos de 1555-1560, um certo número de comerciantes portugueses continuavam a viver em Lampacau, em cabanas precárias e a guardar mercadorias em armazéns provisórios durante o Inverno. Nesse local, havia entre 400 a 600 portugueses, cinco sacerdotes e uma igreja.”

Razões para Macau

Segundo Jin Guo Ping e Wu Zhiliang, em Revisitar os Primórdios de Macau, houve dois superiores motivos que levaram ao assentamento dos portugueses em Macau. O primeiro, o reconhecimento por parte das autoridades chinesas da superioridade bélica portuguesa e o aproveitar as esquadras bem equipadas destes para guardar dos piratas japoneses a sua costa, em vez de reconstruir de novo uma armada, extinta após as viagens de Zheng He, o que ficaria extremamente caro e não havia dinheiro para tal. O segundo motivo foi a falta do âmbar cinzento trazido pelas antigas embaixadas tributárias dos países vizinhos, mas que agora escasseava. Os portugueses conseguiam esse produto e de uma qualidade muito superior ao arranjado por vezes pelos mandarins. Assim, “a partir de 1555 as repetidas ordens de procura do âmbar cinzento dadas por Pequim” levaram a que as autoridades de Guangdong já deixassem “os portugueses estar à vontade em terra e os palhais que estes construíam passaram a casas.”

A permanência dos portugueses em Macau, refere Wu Zhiliang, talvez “esteja directamente ligada aos motivos de sustentar com o comércio as despesas militares e de servir Macau como uma barreira natural para a defesa dos mares, [mas] a razão essencial [para além de trazerem âmbar cinzento e outras estranhas mercadorias] foi a indisponibilidade das autoridades imperiais centrais da Dinastia Ming (1368-1644) no tratamento dos assuntos comerciais das costas do sudeste da China. Tal se devia à grave crise social verificada nos finais desta Dinastia e as guerras nas fronteiras do Império – a Revolta de Lótus Branco em Shandong, a invasão dos mongóis no Noroeste da China, a Guerra entre a China e Birmânia e os conflitos entre a China e Espanha nas Filipinas.”

Em 1557, no regresso da viagem ao Japão, o Capitão-mor foi informado terem as autoridades chinesas dado permissão para construir casas de carácter permanente contando-se a partir desse ano o estabelecimento efectivo dos portugueses em Macau. Também nesse ano o governo Ming criou, subordinado ao Subcomissário para a Defesa Marítima, três cargos para os assuntos de Macau: “Eram respectivamente o Superintendente de Macau (Ti-diao), com responsabilidades na administração, justiça e relações externas de Macau, o comissário para o combate à Pirataria (Bei-wo), encarregue também das patrulhas marítimas, e o Inspector de Segurança Pública (Xun-ji)”, segundo Victor F. S. Sit, que refere, “acreditados em Macau para desempenhar as respectivas funções, foram as instalações oficiais chinesas montadas a sul de Patane.”

Substituindo Francisco Martins, que em Junho de 1557 seguiu viagem para o Japão, Leonel de Sousa tornou-se Capitão-Geral de Macau e sobre si escreveu: . Daí o elogio a Simão de Almeida e a recomendação que fez para mercês reais, “porque não é de Sua Alteza por exemplo dos que se acharem em partes tão remotas, que folgue de servir Sua Alteza com pessoas e fazendas como ele fez. Tiveram comigo alguns pontos d’ honra.”

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