Macau na WebSummit

Marco Rizzolio

 

A WebSummit é “a conferência” anual sobre empreendedorismo: uma das mais importantes do mundo, focada na Internet e em Tecnologia. Trata-se do maior e mais importante marketplace de tecnologia da Europa. Os empreendedores ligados à tecnologia estão constantemente a procurar melhorias, e ali é onde encontram ferramentas para que isso aconteça.

Hoje em dia, a maioria das inovações é impulsionada pela “Internet das Coisas”. Quando falamos de siglas como VR (Realidade Virtual), AR (Realidade Aumentada), AI (Inteligência Artificial) ou Crypto (BlockChain), muitas destas inovações têm um impacto disruptivo na sociedade, transformando a nossa maneira de viver. Estamos a falar de novos produtos ou de serviços que criaram novos mercados mudando os hábitos das pessoas, como a Netflix, AirBnB, Uber, Drones …

Mas todos nós temos que concordar que a transformação da nossa sociedade pela tecnologia deve ser sustentável e tem que criar um impacto positivo na sociedade. Os empreendedores que usam a tecnologia são sempre curiosos e querem manter-se atualizados sobre as novas tendências que ocorrem nos seus segmentos de negócios.

Este ano, a WebSummit terá nove áreas, onde diretores de inovação e pesquisa, CEOs, CTOs, CMOs de empresas como Huawei, Xiaomi, Apple, IBM, etc., irão cobrir tópicos desde Data-Science, Big-Data, e até, e mais urgente, tecnologia e inovação que visam a melhoria imediata do meio ambiente e sustentabilidade do planeta.

Websummit não é apenas um encontro onde aprendemos sobre as novas inovações tecnológicas. Todo o ecossistema de startups estará presente na conferência, formada por incubadoras, aceleradoras, universidades, organizações financiadoras, investidores, assessores jurídicos, multinacionais, governos. É um melting pot de participantes, desde pequenas startups a multinacionais, que têm a oportunidade de marcar reuniões e fechar acordos durante o evento de três dias.

Todos os participantes da conferência procurarão fazer network, tentando estabelecer novos acordos parcerias. O CEO da Uber afirma que o acordo de investimento mais importante da vida dele foi assinado durante a Websummit de 2011 em Dublin.

Dois tipos de eventos acontecerão durante a Websummit:

• Side Events: sessões com um formato de mini apresentações durante as horas fora da agenda do evento, para as pessoas socializarem. (ou seja, Sunset Summit e outros eventos privados patrocinados por grandes empresas)

• Night Events: Durante a noite, os participantes são convidados a continuar o network em 3 locais diferentes para cada noite: LX Factory, Bairro Alto e Rua Cor de Rosa no Cais do Sodré. Aqui, o network será muito mais leve, mas não menos eficaz.

Ecossistema de Startups na RAEM

O governo de Macau está a tentar acompanhar a tendência destes ecossistemas que já existem em várias partes do mundo há mais de 20 anos e onde o empreendedorismo provou impulsionar o desenvolvimento rápido e sustentável do conceito de cidades inteligentes. Macau não quer perder o comboio com as cidades vizinhas da Grande Baía, como Hong Kong, Shenzhen, onde as primeiras incubadoras nasceram no início dos anos 2000.

Lugares como Sillicon Valley, Shenzhen, Hong Kong, Lisboa, Tel-Aviv, Berlim e muitas outras cidades perceberam há anos a importância destas estruturas empresariais e o ganho económico real para a comunidade, trazendo a troca de conhecimento; conectando investidores com stakeholders e criação de talentos. A nossa cidade vizinha, Hong Kong já viu o nascimento de empresas 7 unicórnios (empresa com valorização acima de 1B $USD), entre elas a GoGoVan, Klook, Bitmex, Sensetime, Lalamove, TinkLabs e WeLab.

Em Macau, as primeiras incubadoras começaram a surgir em 2014. O Macau Design Centre e o Centro de Serviços Integrados Culturais e Criativos de Macau, financiadas pelo FIC (Fundo de Indústrias Culturais de Macau), foram as primeiras incubadoras que tiveram a pretensão de incubar e acelerar as empresas instaladas na suas estruturas. Ambas aceitam principalmente empresas ligadas as indústrias criativas, como design, multimédia e artes. O Macau Envision é outro acelerador também fundado no ano passado e alberga actualmente cerca de 10 startups.

Em 2017, o Departamento de Economia de Macau também lançou um espaço de trabalho partilhado sob a administração da empresa Parafuturo. O MYIEC (Centro de Jovens Empreendedores de Macau) é a primeira incubadora/aceleradora “de verdade”, que abrange sectores mais diversificados, como software, medicina, multimédia, viagens, logística e financiamento directo do governo. A Parafuturo recebeu mais de 120 pedidos e cerca de 60 projectos estão a ser incubados no MYEIC, ajudando as startups a conectarem-se com potenciais parceiros, investidores, mas também mentores. Macau está a abraçar esta nova onda de empreendedorismo e já está a construir o seu próprio ecossistema de startups.

No início deste ano, a Parafuturo juntou-se a uma competição de startups “Protechting”, aberta a empresários locais, em cooperação com os grupos de investimento e tecnologia chineses Fosun e Alibaba. O Protechting é um programa de aceleração de startups lançado há três anos e desenvolvido pela Fosun e pela Fidelidade. Este ano, as startups locais de Macau vão participar na competição dedicada à Healthtech, Fintech e Insurtech, que será realizada no dia 8 de Novembro, no WebSummit Lisbon.

Do desenvolvimento

As Startups são fundamentais para ajudar a diversificar a economia de Macau. O desenvolvimento deste ecossistema faz parte do plano de desenvolvimento de cinco anos de Macau e também faz parte de uma das 19 acções governamentais sugeridas pela Secretaria do Fórum Económico de Macau.

Apesar de Macau ser uma cidade com 650.000 habitantes e uma economia dependente do jogo, muitos empreendedores estão a gerir negócios nas mais variadas áreas, desde desportos, produtos de saúde, designers de moda, programadores, consultores, multimédia… O pequeno tamanho do mercado de Macau é uma vantagem para as startups locais, já que menos investimentos são necessários para conquistar uma participação de mercado, enquanto isso, possivelmente chamando a atenção de um possível parceiro de investimentos chinês. Há também uma mudança de mentalidade da nova geração que quer trabalhar de forma independente e construir seu próprio negócio.

Macau está já a trabalhar na expansão das oportunidades de desenvolvimento local e internacional para os seus empresários da área da Grande Baía e dos países de língua oficial portuguesa. O MYEIC assinou um acordo de cooperação com a empresa portuguesa Beta-i, em Lisboa, e concordou em criar uma “Zona Interactiva Macau”, onde ambos os membros podem solicitar o uso do espaço de trabalho e desfrutar dos seus serviços de incubação.

O Centro de Incubação de Jovens Empreendedores de Macau estará a trabalhar no próximo ano com a incubadora brasileira Fábrica de Startups Rio, para estender a “Macau Interactive Zone” ao Brasil e procurar oportunidades de projectos empresariais de alta qualidade para entrar em Macau e na China. Um modelo semelhante já foi criado no 760 Creative Industry Park em Zhongshan, na província de Guangdong.

O MYEIC e a DSE estão a reforçar a cooperação com muitas incubadoras da grande área da baía: em Henqhin, Zhongshan, Guagdong, Shenzen e Hong Kong. Empresários locais com o ID de Macau poderão usar esta rede de centros de Incubadoras na China, que os ajudarão a facilitar a abertura de uma empresa na China, tendo escritórios, participando em programas de aperfeiçoamento e ajudando a encontrar trabalhadores qualificados e potenciais investidores chineses.

Um outro acordo foi assinado no ano passado entre o Gabinete Económico de Macau e a Fábrica de Startups, permitindo que vários empresários de Macau pudessem usufruir de programas de consultoria/mentoring em Portugal, ao mesmo tempo que tinham um escritório de partilha no Second Home em Lisboa. Algumas empresas do MYEIC já têm sucesso internacional como é o caso de Aomi e Bingui.

O papel de Macau no futuro do ecossistema de grandes startups da Grande Baía é conectar-se com empresas de países de língua portuguesa que querem ter acesso ao mercado chinês. Isso também funciona ao contrário com empresas da Grande Baía que queiram ter acesso ao mundo ocidental. A estratégia de longo prazo passa pelo fortalecimento das relações e parcerias entre os diversos pólos de empreendedorismo: vinculando toda a cadeia de ciclo do ecossistema: incubadoras, aceleradoras, investidores, universidades, entidades governamentais, assessores jurídicos, mentores etc.

São serão sempre necessários programas permanentes de Incubação e Aceleração para empreendedores locais: mentoring avançado que abrange vários aspectos relacionados à gestão de negócios e à abertura de canais de investimento para facilitar o desenvolvimento dessas startups.

A consolidação do ecossistema existente na área da Grande Baía precisa de leis que ajudem a quebrar as barreiras da cooperação. No caso dos Países de Língua Portuguesa, ainda estamos num estágio menos avançado devido à distância, mas certamente veremos os frutos das parcerias que têm sido criadas, nos próximos anos.

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