Sofia Afonso Ferreira, criadora do movimento político D21: “Acima de tudo, sou democrata”

Depois de uma carreira na área da comunicação, Sofia Afonso Ferreira funda agora a Democracia 21 (D21), um movimento cívico com aspirações a ser um partido político liberal. O novo rosto da direita portuguesa está em Macau para apresentar o movimento que fundou. O evento está marcado para hoje às 18h30, na Livraria Portuguesa

O que é o D21?
Por agora é um movimento cívico, liberal e de direita. Estamos a acabar de recolher as assinaturas e em breve daremos entrada com o processo no Tribunal Constitucional. O D21 começou em Janeiro. Primeiro tentámos perceber se era viável a criação de um partido liberal em Portugal. Temos uma história muito incomum em Portugal quando comparada com o resto da Europa. Neste momento, os liberais são a segunda força política na Europa. Quase todos os países têm mais do que um partido liberal, uns no poder, outros em coligação, etc. Em Portugal não temos um partido liberal há 90 anos devido a circunstâncias históricas: primeiro tivemos uma ditadura, depois tivemos uma revolução, e depois tivemos estes anos, pós 25 de Abril. Já houve umas tentativas de projectos deste género, mas que falharam sempre. O máximo que tivemos até agora está associado ao PSD ou ao CDS que por vezes defendem algumas políticas liberais, mas essencialmente na área da economia e não dos costumes.

Está a referir-se, por exemplo, ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, à adopção por estes casais e à eutanásia?
Sim. Nesta parte dos costumes até estamos mais próximos dos partidos tradicionais de esquerda de Portugal. Mas nós partimos de uma base completamente diferente: nós damos mais poder ao indivíduo do que ao Estado e, como tal, tem que ser a sociedade a definir este tipo de coisas que têm que ver com a sua essência, e não um Estado. O Estado é um regulador e não tem que dizer se se pode ou não casar com quem se quiser, se se pode adoptar ou não, ou se em caso de doença grave, as pessoas podem ou não optar pela eutanásia. O Estado deve servir apenas para regular o bom funcionamento democrático das instituições e das leis, mas não impor-se.

Como é que essa regulamentação se operacionaliza?
É difícil de explicar porque não é um conceito muito incutido na sociedade portuguesa. Em 2018, não ser a favor do liberalismo na parte dos costumes para mim é anacrónico. Podemos ter as nossas convicções para nós, para a nossa família para quem está a nossa volta. O liberalismo é isto: é defender que o indivíduo pode ter as suas coisas.

FOTO: Sofia Mota

Disse numa entrevista que o foco para o D21 está na remodelação nas áreas da justiça, da saúde e da educação? Que tipo de reformas propõe?
Vou começar pela educação. É uma área que teve alguma polémica há cerca de um ano com os contratos de associação. Nós somos a favor destes contratos. A razão tem que ver com um problema que a Europa está a enfrentar e que em Portugal estamos numa situação gravíssima, ou seja, não nascem bebés. No interior do país, as escolas começaram a ficar sem crianças. O que o Estado pagava para a manutenção daquelas escolas era muito elevado e começou a fazer contratos de associação com escolas privadas. A poupança entrou na casa dos 60 por cento por cada aluno. Atenção que isto não se justifica em todo o país. Justifica-se quase zona a zona. Houve uma grande campanha de que estaria a haver um abuso destes subsídios dos contratos de associação a escolas privadas. Com certeza que houve casos ilegais. Mas também se cometeram muitas injustiças porque tivemos casos de escolas que, de um momento para o outro, ficaram sem os contratos e fecharam, o que trouxe o desemprego de pessoas. Por um lado, e por outro, crianças passaram a ter que ir para escolas que ficavam a 30 quilómetros de casa.

Defende a subsidiação de escolas privadas pelo Estado, é isso?
Nós defendemos, acima de tudo, que esta matéria tem que ser revista. Houve decisões que foram peremptórias e direccionadas ao país todo tendo sido altamente prejudicial para algumas zonas.

E defendem o ensino gratuito?
Sim, com certeza.

E na justiça?
Em relação à justiça, a nossa maior bandeira é contra a corrupção e, portanto, todas as medidas que vamos apresentar, as mais prioritárias, são no sentido do combate à corrupção.

Como pretendem reformar o sistema de saúde?
Na saúde temos um problema idêntico ao das escolas. A saúde está por um fio, é talvez a área mais em perigo neste momento em Portugal. Por uma razão muito simples, eu posso ter problemas na área da educação mas ninguém morrer e na saúde se houver falhas as pessoas morrem. As pessoas que tenham cancro – como um caso que soube há dias em que depois de identificada a doença só conseguiu consulta para Abril do ano que vem – com a espera podem não ir a ter tempo para combater a doença.

Ainda assim, o sistema de saúde português é considerado como um dos melhores da Europa ao nível da oncologia.
É verdade. Isso parece quase inacreditável. O nosso serviço de saúde público até tem vários pontos de excelência. Mas houve aqui uma série de medidas nos últimos anos que não ajudaram na saúde. Nos últimos meses tivemos direcções de hospitais inteiras a pedir a demissão.

Estamos a falar num momento que se segue a cortes orçamentais profundos, nomeadamente na área da saúde.
O sistema tem de ser repensado. O grande problema é o facto das políticas serem levadas a cabo durante cerca de três anos. São apresentadas reformas, são implementadas durantes três anos e depois são mudadas. Isto é tareia à esquerda e à direita. Defendo que deveria existir um pacto entre os partidos relativamente a reformas que têm de ser feitas. São reformas que deveriam ter um período de implementação mínimo de dez anos. É a única maneira. É por isso que muita coisa não funciona.

Criticou há uns dias a proposta de Orçamento de Estado por implicar muita despesa pública. Mas é necessário investimento. Como encontrar um equilíbrio?
Nós apostamos muito nas reformas, porque parte dos nosso males advém de uma má gestão e da corrupção que, em Portugal, é transversal. Os liberais não são contra o Estado. Mas um Estado enquanto regulador. Por exemplo, um português típico, olha com inveja, e com alguma razão, para os países nórdicos onde a carga fiscal é muito elevada, mas as pessoas têm acesso a todos os serviços e com qualidade. O problema, em Portugal, é que estamos a chegar ao ponto em que qualquer pessoa, com um ordenado mediano, chega facilmente aos 35 ou 40 por cento de impostos, sem conseguir aceder a serviços de qualidade.

Acha que em Portugal as pessoas deveriam ter direito aos mesmo benefícios que são dados por esses países?
Exacto. Mas não temos serviços de acordo com isso. Se pagássemos o que pagamos, mas com serviços de saúde e de educação de acordo com esse valor tudo estaria razoavelmente bem e as pessoas, se calhar, não se importavam de pagar tantos impostos. Das duas uma, ou pagamos metade dos impostos que pagamos, continuamos a ter os serviços que temos, e o dinheiro com que ficamos vai-nos permitir viver melhor e investir de outra forma em nós próprios, na nossa profissão, na família, nos estudos dos filhos, etc. Nós, liberais, olhamos mais para o indivíduo e por isso, neste contexto, poderíamos pagar 20 a 25 por cento dos impostos e ter os mesmos serviços deficientes. Vivemos com isso e assumimos. Ou então, se pagamos aquilo que pagamos tem de haver uma reforma profunda e tem tudo de funcionar bem. E quem regula tudo isto é o Estado. Os países nórdicos também têm os seus problemas. Nada é perfeito. Mas são países que realmente têm sistemas de saúde e de ensino gratuitos que funcionam bastante bem.

A Europa tem estado dividida. Os movimentos de direita são cada vez mais extremos. Uma das razões tem que ver com a reacção à integração de refugiados. Como vê esta questão?
Quando tivemos agora esta vaga de refugiados na Europa, Portugal nem foi muito afectado. Não tivemos problemas. Mas houve outros países que tiveram. Quando falamos de refugiados estamos a falar de pessoas que vêem de uma situação extrema de vida ou morte e, portanto, precisam de um porto de abrigo. Penso que a Europa esteve bem a acolher os refugiados. Claro que depois isto originou problemas. A Itália foi altamente massacrada. A Itália foi o país com mais entradas de refugiados. A legislação Europeia diz que o país por onde os refugiados entram é responsável pelo seu processo de acolhimento e de trânsito. O que aconteceu foi que a Itália foi altamente prejudicada nisto. A Alemanha concordou em acolher grande parte destes refugiados. À partida, parece uma atitude bastante altruísta, mas na Alemanha não se brinca em serviço. A Alemanha para manter a economia lá em cima precisa de uma população activa grande. Atenção que os refugiados que vieram da Síria, na sua maioria, tinham cursos superiores e tinham as suas profissões. Eram refugiados bastante apetecíveis. Percebo perfeitamente porque é que a Alemanha lhes abriu a porta. Eram pessoas que se podiam integrar perfeitamente. Outros países fizeram o mesmo que a Alemanha. Agora há aqui um grave problema. A população destes países onde tem existido uma contestação mais forte, não viu isto com bons olhos devido aos problemas sociais que trouxe e por verem parte dos orçamentos a irem para estas questões. Começou a haver reacções de racismo puro e duro. O que se nota depois é a ascensão de partidos nacionalistas.

Como vê esta ascensão de movimentos de extrema-direita?
Acho que é perigoso. Esta coisa do populismo faz-me uma grande confusão. Mas isto é tão perigoso como seria perigoso partidos de extrema-esquerda subirem ao poder e imporem determinadas coisas. Acho tudo perigoso. Não é por acaso que a democracia se situa ao centro. E eu, acima de tudo, sou democrata. Até vejo isso um pouco como um equilíbrio natural, porque quando há um excesso de um lado, tem que haver a reacção do outro.

Mas isso pode resvalar para situações perigosas.
Sim, mas a história também nos ensina que perante essa situação também vai existir um contramovimento. Foi sempre assim.

Não há maneira de evitar esse resvalar?
Há, são os liberais. É a luta pela defesa de direitos e por uma boa implementação da democracia.

Referiu que “entre Haddad e Bolsonaro, venha o diabo e escolha”. O que quer dizer com isto?
Nós preferíamos que fosse um candidato novo que estivesse nesta corrida. O PT teve o problema gravíssimo de estar associado à corrupção e está a ser altamente penalizado por isso.

Mas o Bolsonaro assume-se contra a democracia.
Sim, e por isso não sei qual deles é o melhor. Se fosse brasileira teria graves dificuldades em escolher.

Em escolher entre democracia e não democracia?
Mas eu não considero nenhum dos dois candidatos democratas.

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Rui Nunes
Rui Nunes
25 Out 2018 03:44

Bela reportagem feita. Parabéns ao jornal Hoje Macau.