Víctor Jara

Dizem-se muitas coisas. Mas ninguém sabe o que aconteceu. Muito menos por que aconteceu. Não. Não. Como poderão saber? Em São João todos apedrejaram a pecadora. E como diz o evangelista: “cada um foi à sua vida”. Era noite, e a polícia política entrou em casa. O castelhano era inevitável: “Vá, levanta-te, onde tens a tua guitarra e os livros imundos que lês?”

Santiago não era já a cidade que comemorava o santo que, dizem, terá morrido no norte da península ibérica. Onde São Paulo morreu também à espera do seu Jesus, para, por fim, se ir embora ter com o Pai.

Não. Santiago era outro. E afinal o teu nome era Santo Inácio, o mesmo que deu origem àquela ordem! Cerrada a perna gangrenada, o santo “colou-a”. O amor vinha da coragem física e moral. Pegaram na tua guitarra e em toda a literatura subversiva.

Tu não aceitavas nunca um não e contrariavas sempre o que te diziam. Só não foste absolutamente ignóbil, porque tinhas um carácter no teu coração que não te deixava perder inteiramente. Cantavas Ho Chi Minh como se fosse um poeta e esse lugar.

“Vamos, anda!” gritava a polícia política. Atirou-te escadas abaixo e contra ti literatura subversiva, a Antígona e o Rei Édipo, do sacerdote maior que era Sófocles. Arremessaram a guitarra como a tua mulher e filhos e os velhos pais. Escarraram-te na cara e deram tantos pontapés que desfiguraram botas na tua cara de índio. E tu, naquela que seria a tua última noite, deixavas que o corpo gemesse mas não a tua alma. Não a tua alma era possuída pelo teu espírito e tu não irias deixar o espírito gemer. Só o corpo.

As tuas mãos delgadas que percorreram Santiago à espera de cada espectáculo! Arrastavas mulher e crianças que te amavam como se fosses um oráculo muito antigo. El derecho de…

E agora era a última noite. Não era uma qualquer. “Segue: tens filhos comigo, mas não te preocupes, amor. Quero-te assim. Tu és o amor”. Arrastavas tudo contigo e não conseguias recuar. A consciência tranquila e a justiça faziam-te inimigo da má consciência e da injustiça. Não conseguias tolerar a injustiça. “Morro e vou-me se a vida for assim”.

A vida é assim.

Despiram-te e disseram-te para tocares a tua guitarra. Deceparam-te a mão esquerda. “Toca, filho da puta.” Tentaste. E cortaram-te a mão direita. “Toca, filho da puta.” E era com os cotos que tentaste fazer música daquela guitarra. “Canta”. E cantaste como nunca.

A dor toma, agora, conta de tudo o que é o teu corpo.

Cantas e cantas.

Cortam-te a língua: “Canta, cão!”.

Há um gemido surdo que soltas.

Vem do fundo dos tempos!

Foste-te.

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