Cultura | Entretenimento chinês chega a milhões de africanos

Com uma indústria de cinema que ultrapassa já o número de espectadores que os filmes de Hollywood atraem, a China aumenta a exportação de produtos de entretenimento para África, desafiando as narrativas tipicamente ocidentais

 

Reportagem de João Pimenta, da agência Lusa 

Na nova zona de desenvolvimento de Daxing, a quase 30 quilómetros do centro de Pequim, um grupo de nigerianos, tanzanianos e togoleses, envergando trajes tradicionais, acorrem pela manhã a um moderno complexo de edifícios envidraçados. Inaugurado em 2012, o complexo é composto por quatro prédios administrativos, um bloco de dormitórios e um pátio tradicional chinês, ligado por um extenso sistema de corredores que abre para diferentes jardins. Trata-se da sede da StarTimes, empresa de telecomunicações privada chinesa que ao longo dos últimos 15 anos apoiou dezenas de países africanos na transição de televisão analógica para digital, garantido o acesso das casas do continente a conteúdo audiovisual chinês.

“Já temos 50 milhões de utilizadores em África”, diz à agência Lusa Lily Meng, vice-directora-geral do departamento de média do grupo, que está encarregue da dobragem de conteúdos audiovisuais para português, inglês, francês, mas também línguas regionais como haúça, suaíli ou iorubá.

Em Moçambique, o único país de língua oficial portuguesa onde está presente, o grupo estabeleceu a StarTimes Media, uma ‘joint-venture’ com a Focus 21, empresa controlada pela família do ex-Presidente moçambicano Armando Guebuza.

“Para trabalhar em África é preciso ter boas ligações”, admite Lily Meng. “Ou então é muito difícil obter licença para transmitir”.

No seu portal electrónico oficial, o grupo StarTimes compromete-se a “fazer com que todas as famílias africanas desfrutem de televisão digital por um custo acessível”. Meng explica que os objectivos da empresa passam por “divulgar a cultura chinesa” enquanto assegura um modelo de negócio sustentável. “Temos apoio político para transmitir conteúdo chinês em África, mas não somos uma empresa estatal”, clarifica. “Fazemos estudos de medição de audiências e escolhemos os conteúdos em conjunto com os colegas africanos. Precisamos de garantir que os nossos clientes estão satisfeitos e continuam a pagar pelo nosso serviço”, descreve a responsável.

Carga ideológica

O português Samuel Gomes, que desde há um ano trabalha na dobragem e revisão de conteúdos da StarTimes, define as séries, filmes e documentários difundidos pelo grupo como “propaganda cultural”. “Noto muito a vontade da StarTimes em difundir a cultura chinesa em África e estabelecer uma ponte para negócios”, resume.

Dani Madrid-Morales, um pós-doutorado pela City University, de Hong Kong, que fez pesquisa sobre a StarTimes, considera, porém, que o grupo “tem uma enorme componente ideológica”. “Os conteúdos seleccionados mostram uma China urbana, próspera: uma China não controversa”, diz.

Pequim, que há muito se queixa que as empresas ocidentais dominam o discurso global e alimentam preconceitos contra o país, investiu nos últimos anos milhares de milhões de dólares para convencer o mundo de que a China é um sucesso político e cultural.

A agência noticiosa oficial chinesa Xinhua, por exemplo, conta já com 180 delegações além-fronteiras.

Criado em 2004, o departamento de português da agência emprega, só em Pequim, 16 pessoas, incluindo quatro brasileiros. Também a versão digital do Diário do Povo, o órgão central do Partido Comunista Chinês, tem um serviço em língua portuguesa.

No entanto, o mais antigo serviço noticioso em português da República Popular arrancou em 1960 na Rádio Internacional da China.

Naquela altura, a política externa chinesa era guiada pela defesa do internacionalismo proletário e Pequim “apoiava os países africanos na luta contra o imperialismo”, nomeadamente Angola e Moçambique. Hoje, o país asiático é o maior parceiro comercial de África. Só em 2015, as trocas comerciais somaram 145 mil milhões de euros.

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