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Amei algumas mulheres. Muitas mais, na imaginação. Agora, vejo-te andar e abrando o passo. Não faço a mínima ideia das tuas dores. E andas. Levo-te para todo o lado, porque não quero deixar-me só. Não é por ti. É por mim. Seguimos a vida a dois. Tu aturas-me o álcool, a filosofia, o Muay Thai. Foste sempre assim. Olhavas para mim com olhos espantados como se eu estivesse para morrer. Conheces-me melhor do que eu. Eu queria ser bom. Queria ser melhor. Mas, sabes, herdei a melancolia da tua mãe. E que posso eu fazer. Eu não tenho muitas certezas. Tenho, sobretudo, dúvidas. Mas, lembras-te? Foste ter comigo à Alemanha. Pensava eu que já era adulto. Nem agora, depois de 24 anos. Falávamos castelhano. Íamos ver São Patrício e comer aquele bolo: schwarzwälder kirschtorte. Depois, havia a namorada, os amigos alemães. Compravas tudo na bela turca que não falava a tua língua nem tua a dela e havia três: turco, alemão e português. Seguimos sempre. O mano e eu a pensar que éramos filhos únicos, porque o teu amor é assim. Um filho único, mas duas vezes. Agora, o tempo é diferente. O pai partiu, mas está-nos sempre na conversa. Os dias passam e eu vivo contigo como um filho decadente, porque não constituiu família. Não: porque queria ser sacerdote ou militar e foi professor.

Amei algumas mulheres na minha vida. Muito mais na imaginação do que na realidade. E sei por quê. Sou tudo menos marido ou pai. Sou o que as paredes no silêncio da casa me dizem. Saxa loquuntur, dizem os antigos: as pedras falam. Era o silêncio, depois de terem partido. É o silêncio que não deixas que aconteça, quando, de manhã, me vens falar dos teus sonhos. São sempre sonhos com a C. São os filmes que vês. Vês cinco filmes e misturas tudo. E és adorável por isso. Porque a vida é a trama que vamos tecendo e tu tens dois filhos completamente doidos, doidos varridos. Mas levamos-te nos anos de limusina.

Amei muitas mulheres na minha vida: na imaginação mais do que na realidade. A casa não é a mesma sem o pai nem o mano. Mas esta casa era a do avô. Morreu há 20 anos. Estava na Alemanha. O pai disse-me ao telefone para não ir a Portugal e que o seu pai tinha encontrado o seu Deus. Lia tanto para não se perder. Disse-me um dia que agora é que ela me deu. “Agora é que ela me deu”. Era a velhice. E a morte a seguir. Mas o pai nunca morre. Nunca. Ele prometeu-me e eu acredito. Ainda não fala comigo nos sonhos. Mas o Zorba Anjos disse-me que ele ia falar um dia comigo. Também o Zorba Anjos ficou um dia sem o pai.

 

Amei muitas mulheres na vida, na realidade e na imaginação.

 

Mas como tu, mãe…

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