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Durante a minha infância vivi com uma tia surda, que me levava à missa. O verdadeiro enigma, para mim, tornou-se o da distribuição da Palavra de Deus. Como é que o Sopro de Deus lhe chegava aos ouvidos? E, se ela lia nos lábios do padre, como mensurar o quilate da Palavra nessa comunicação semi-adivinhada?

A partir desta minha experiência deixei de considerar o silêncio como algo de mítico para o qual toda a palavra conflui, ou de reduzir a palavra a um trampolim deficitário para a expressão do inefável. Eu tive uma educação pelo silêncio, como uma experiência material, inapelável, concreta, que ainda por cima se mesclava com o afecto, e essa relação fez-me perceber que existem modos de comunicação que estão fora da consciência, no sentido de prescindirem de verbalização, intuindo aí o que dizia o Bateson sobre a impossibilidade de existir a não-comunicação.

O silêncio pode bem ser uma comunicação ainda sem mensagem, da mesma forma que há pensamentos que procuram os seus pensadores-veículos, e nele não se manifesta o oposto do som ou da palavra mas antes uma posição embrionária, que prepara e antecede a expressão.

Por outro lado, a circunstância de ter vivido com alguém que fazia as consoantes com o corpo e as vogais com os olhos mas a quem poucas palavras saíam claramente articuladas, ensinou-me que a palavra é um luxo que não se pode desperdiçar, nem pela mentira, nem pela frivolidade, e que nos cabe a responsabilidade ética de não deixar por formular uma única palavra que seja necessária.

A partir daí o que me interessa não é tanto o esforço de definir o silêncio, mas, de modo mais prático, como acomodar-lhe a cama, a transpiração e o trajecto que o silêncio faz em nós. O americano David Thoreau iluminou tudo o que eu desejaria dizer: «Não é a forma que o escultor dá à pedra que importa mas o que a escultura faz ao escultor».

Até porque só há inefáveis relativos e não absolutos e como acredito que começamos de uma maneira e acabamos de outra impõe-se uma nova dimensão anteriormente indiscernível em cada ciclo da nossa evolução ontológica. Passamos da madeira, ao ferro, para usar uma metáfora, e nesta passagem, ao mudarmos de configuração atómica isso ocasiona que não reconhecemos as constelações, pelo que precisarmos periodicamente de uma nova carta astral.

Falo metaforicamente, mas alvitro, como dizem alguns antigos, que o caos é quase sempre uma ordem por decifrar, a ventania que despenteia a estatística. E sublinho o «quase» porque, por uma questão de sanidade mental, devemos conservar uma margem de liberdade para o aleatório e para nunca nos esquecermos dos limites da racionalidade.

Do que advém, no meu caso, que o silêncio seja o outro nome com que se nomeia o acto mediante o qual a concentração nos esvazia. Do mesmo modo que a dança se intensifica quando se apodera do corpo, ou a sonata soa mais expressiva quando o seu intérprete se esquece de si mesmo no acto, o silêncio é o acto de esvaziar, e de nos pôr à escuta, e a partir daí a palavra e o silêncio retroalimentam-se e todo o real potencia-se no processo desse engendramento recíproco, diria até, desse entusiasmo recíproco.

Entusiasmo que gerou males-entendidos e que Platão escrevesse: «o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão». Confesso que só lhe perdoo porque quando vou ao talho, aponto a máquina do fiambre, e digo sempre a mesma piada, “corte-me cem gramas de Platão mal passado, por favor!”.

Mas incompatibilidades com o Platão à parte, por muito que quisesse não posso escamotear que sou agido pelo silêncio de uma forma concreta, fertilizadora, sendo que nesse estado de fluidez só existe o perigo de o entravar, quando, estupidamente, desato a perguntar pelo sentido do que estou a escrever.

Para que nos continue a nutrir, o silêncio necessita de encontrar em nós um pouco de inocência e diria até de idiotia. Dado haver um kairos do silêncio, um sentido de oportunidade em relação ao momento de calarmos.

Talvez não seja o melhor modo de acabar, reconhecer que às vezes se desprende uma tal bazófia, uma tal solenidade no uso e na evocação do silêncio que me vem logo à cabeça, em contraponto, um verso de Haroldo de Campos: “O redondo oceano ressona taciturno”.

E por isso, para apalpar o território movediço do silêncio sem nos colocarmos em bicos de pés, lembremos que em todo o século XX houve uma valorização estética do silêncio, seja pelo lado da desconstrução como no movimento Dada, seja pelo inescapável fascínio que fazia da arte uma disciplina votada ao silêncio, condensando-se neste uma meta inatingível mas sempre almejada, como se fosse o silêncio o propulsor que nos ejecta na região inefável. Em ambos os casos o silêncio é uma ferida em aberto.

Talvez pelo facto de sermos portadores da palavra e de estarmos convencidos que o pensamento é linguagem, alheados de que não pensamos exclusivamente por palavras, embora pensemos às vezes em palavras, sendo estas arquipélagos flutuantes e esporádicos.

Vezes há em que me interrogo como nos expressaríamos se não houvesse uma palavra para designar o silêncio e fico receoso. Pode aí o desejo libertar-nos destes embargos, tal como se deduz neste poema de Brecht: REMO; DIÁLOGO: «Fim de tarde. Passam deslizando/duas canoas, dentro/ dois jovens nus. Lado a lado remando/ Conversam. Conversando/ Remam lado a lado.»

Nada foi dito, tudo permanece na sombra do sugerido, na ambiguidade que o silêncio também requer e, contudo, que a minha tia surda desvie os olhos neste momento grave, imaginem os meus amigos, como se pega nos remos, e na pesada analogia de tal gesto, embora o poema explicitamente silencie o que mete em presença.

E agora, se me permitem, vou andar à vela.

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