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Desta feita é Feliciano Barreiras Duarte, recém-empossado secretário-geral do PSD. Ao que parece, este terá não somente mentido no currículo – que já se prontificou a rectificar – como terá forjado uma carta que Deolinda Adão, Professora e Directora Executiva do Programa de Estudos Portugueses na Universidade da Califórnia, embora reconheça a sua assinatura, diz nunca ter escrito.

Na missiva, em Português, a Professora Deolinda Adão afirma, em nome da Universidade da Califórnia, Berkeley, que “Feliciano Barreiras Duarte se encontra inscrito na Faculdade como visiting scholar” – um estatuto concedido a professores ou estudantes que visitam a universidade com o propósito de dar aulas, conferências ou investigar em tópicos nos quais o seu trabalho seja de reconhecido mérito. Diz ainda a carta que a mesma Deolinda Adão planeia ser orientadora da tese de doutoramento de Feliciano Barreiras Duarte.

O problema dessa carta é que nem dez porcento é verdade, se quisermos glosar Manoel de Barros. A única coisa que a Professora Deolinda Adão reconhece no documento, aliás, é a assinatura. Tudo o mais parece ter sido forjado. Feliciano Barreiras Duarte confessa-se surpreendido. Reitera a sua incompreensão perante as declarações da Professora Deolinda Adão, afirmando que a carta – que ele próprio produziu enquanto prova – terá mesmo chegado dos Estados Unidos, tendo este sempre confiado na sua autenticidade.

Percebe-se ao longo das declarações que este tem dado à comunicação social, que o seu estatuto de visiting scholar na Universidade de Califórnia nunca passou de uma ideia avançada pelo próprio e por Manuel Pinto de Abreu (também este professor na Lusófona, onde Feliciano igualmente lecciona). Manuel Pinto de Abreu pertence ao PSD, como Feliciano. Surpresas? Nenhuma. A pedra de toque do despudor total surge quando Feliciano Barreiras Duarte afirma ter pensado em ir para Berkeley mas que nunca pôde concretizar o projecto por não lhe ser economicamente viável.

Se atentarmos ao currículo presente no site do parlamento e o compararmos com o aquele que está no DeGóis – um repositório de dados relativos a académicos e investigadores portugueses – notamos algumas diferenças de monta. No currículo que enviou para o parlamento, Feliciano menciona ter um Mestrado em Direito, na vertente de Ciências Jurídicas e Políticas. Naquele que podemos consultar no site do DeGóis, o Mestrado em Direito não existe. O que existe, outrossim, é uma frequência no Mestrado em Sociologia na Universidade de Évora, na variante Poder e Sociedade. Qual destas informações corresponde à verdade? Não sabemos.

Na realidade, o comportamento de Feliciano Barreiras Duarte é tudo menos original. Estamos decerto lembrados de José Sócrates e da sua Licenciatura domingueira, só para dar um exemplo. As Autónomas, Independentes e Lusófonas desta vida parecem ter sido criadas não para disponibilizar, por via privada, cursos nos quais os alunos com médias menos satisfatórias poderiam ver realizadas aspirações académicas e profissionais, mas para dar guarida a políticos que, de outro modo, teriam de se conformar com uma titularidade académica abreviada.

Se pensarmos que estas criaturas – para além de assumirem competências pedagógicas em áreas nas quais a sua formação é tudo menos clara – mostram uma inteligência tão débil que pensam viver numa época anterior ao Google e têm como aspiração governar-nos, é difícil não sentir um arrepio na espinha. E, simultaneamente e como que numa epifania, compreender uno tenore a história recente do rectângulo, transformado simultaneamente em coutada e em chiqueiro.

Feliciano Barreiras Duarte, no fundo apenas um subproduto clássico do pós 25 de Abril, representa aquilo que de mais pernicioso existe na política contemporânea, moldada conceptualmente pela sociedade do espectáculo e do entretenimento: o aparecer tem primazia ontológica sobre o ser e, para quase tudo, como diria o Raposão do Eça, basta ter “a ousadia de afirmar”.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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