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CCB, Lisboa, 8 Fevereiro

Convém ouvir, orelha no chão, o pulsar da botânica, que soa hoje como cavalo-de-ferro. Antes entrar sussurrante por este Obra Aberta – que viu o Tónan Quito ser substituído à última hora pelo Miguel Castro Caldas, a pretexto dos clássicos e da Oresteia em cena – a solidão do Sandro William Junqueira acompanhou a minha por estes dias. Quero dizer: habitei os não-lugares comuns de «Quando as Girafas Baixam o Pescoço» (ed. Caminho). No coração do betão que construiu pulsa um sangue de personagens cujo nome resulta ser característica-ferramenta, com que faz e desfaz o entorno, com a qual se auto-desmontam para nos dar a ver o dentro, em bricolage de largo espectro. Parecem pequenos contos, de título pesado, significativo («Um pai atravessado na garganta»), tendo apenas a partilha do síto como fio de ligação. Parecem pequenos contos, mas são pinceladas de uma tela maior e caleidoscópica, de um romance que parece temer sê-lo, que se aproxima do real pelo avesso. Será este o mais estranhamente neorrealista dos romances contemporâneos? As personagens ganham a carne da proximidade e a narrativa enche-se de episódios e momentos, embrulha-se em novelo, ora de lã, ora de arame farpado. A prosa apresenta-se terreno húmido de subtilezas, de observações incandescentes, de atenção à natureza das coisas, à Natureza, de uma poética que nos explode algures (nas mãos?, nos olhos?): «A rosa é um fio de terra que se levanta». O Sandro trouxe o Manoel de Barros, esse «aparelhado para gostar de passarinhos», com interesse em falar da sua Poesia Toda (ed. Caminho) e acabou fazendo dele chave-de-fendas para o seu próprio texto, para o seu olhar sobre as palavras. E a leitura. Sandro calcorreia escolas e bibliotecas e outros lugares, talvez de betão, a dizer das vidas que se ganham e perdem no jogo da leitura. Da planta que se folheia, que se rega, que cresce. Uma inutilidade, sabemo-lo bem: «o que nos fode é a inteligência.» (Quem nos manda aceitar a utilidade para governo das nossas vidas?) Sobra por aqui muita melancolia. No finzinho do conto final, o Velho deita-se no canteiro de arma na mão e diz à laia de tenho dito: «Seja como for, estamos sempre sós./ Já ninguém ouve as rosas.» Não preciso comprar arma, tenho livro. Velho que sou, procuro canteiro.

 

Horta Seca, Lisboa, 11 Fevereiro

Tão pouco nos conhecemos que só posso rasgar aqui lamento. Culpa minha. Falámos de Stuart, longamente, de livros, por causa de bibliotecas, umas feitas, mudadas, vividas, mexidas, outras por fazer. Nunca falámos do José Gomes Ferreira, que iluminou e continua cada uma das minhas infâncias-lego. Perdeu-se inocências na tradução das gerações. Perde-se tanto no não falarmos. Partilhámos amigos, amigos queridos, gostos, batalhas, dores, lugares. Falámos tão pouco, por exemplo de. Arquitectura, sim, talvez possa ser, fio-de-prumo, o primevo contorno no mundo, bater de asas na neve, maceta e escopro na pedra bem escolhida, assentar do tijolo ainda que burro, cálculo do arco, leitura do espaço e aconchego. Não conheço mais humana casa da cultura do que a de Beja, desenhada nos múltiplos cruzamentos da tradição e da engenharia, ao gosto popular e com as visões do pensamento, seios que se amamentam da via láctea. Raul Hestnes Ferreira, discreto escultor do betão, deixou hoje de desenhar.

 

Instituto Industrial, Lisboa, 14 Fevereiro

Livrerso: o Pedro [Proença], aranhiço dos múltiplos sentidos, tem travestido como ninguém a rede em teia. Quantos dias passaram sem que produzisse projecto, exposição, palavra que me escapa, conceito que já foi, além daquele que mais interessa agora: livro no lugar nenhum e todos do em linha? Um dos seres ali nados e criados, John Rindpest (acessível no issuu), ganhou as dimensões do passeável em versão livro expandido e lá fomos ouvir a versão amiga do artista a dissertar acerca do vinil sobre parede, meia dúzia de pontos de não retorno a responder ao eterno Kafka e um mala de couro, chamada «Fuga», pronta a partir («poetry as art as poetry» na  Fundação Portuguesa das Comunicações, em parceria com a Galeria Bessa Pereira, até dia 23). O Pedro mastiga as artes (e o mundo) à velocidade do pensamento, pelo que não será de fácil digestão esta sua arte combinatória. Custa aceitar que o kairos pode acontecer em versão Ikea, pendurada em frases, armadas em inteligentes. «O que nos fode é a inteligência.» A ideia de livro que o Pedro tem abordado em cruzamento de espeleólogo e neurocirurgião merecia o exagero de uma Cordoaria para que também a sua mão talentosa pudesse servir a três dimensões esta visão crítica do universo das artes plásticas, desenvolvesse até ao máximo a contaminação entre texto e imagem, e mais entusiasmante, prolongasse o jogo que cria universos a partir do objecto-livro, respectiva gramática, pensadores ou artesãos.

 

Horta Seca, Lisboa, 15 Fevereiro

«Azul em jaguar turquesa», o Daniel [Lima] apareceu meio de surpresa para me trazer os papéis que resultaram das exposições perdidas por estes olhos que a terra há-de comer. «Figurasavulsas», na biblioteca de Viana [do Castelo], e a de Guimarães, da qual usei nome em abertura de parágrafo. A tarde desfez-se em camadas, planos, figuras, modos de representar na nossa conversa os assuntos. Montaram-se projectos, pedi empurrões em amigos, recolhi informações de nada sobre as experiências vividas a Norte. A visão e o modo de operar do Daniel, de tão literários, perturbam as nossas monotonias, insistem em parar a corrida para que possamos absorver, interpretar, deixar assentar. Na televisiva feérica pele do mundo, as suas composições rasgam um palco no qual o teatro é apenas uma das personagens (o cinema outra), mas tudo cosido pelo desejo de ficção (veja-se nesta página exemplo para «Por Mão Própria», de Luís Carmelo, ed. Abysmo). Nem todas as ilustrações são lanterna, algumas rasgam janelas.

 

Horta Seca, Lisboa, 17 Fevereiro

O Mário [Reis] mãos-de-barro reduziu, assim tornando pessoal e portátil, a banheira termal das Caldas da Rainha, um formato de ressonâncias romanas ou apenas romanescas. Pediu-me texto para inscrição na peça, desconhecendo o fascínio que dedico às águas. O desafio tocou na pele com estilete, suscitando com singular rapidez palavras de pó: «as nuvens pousam na quietude/ sob tal superfície perco corpo/ o banho tomou-me e o navio quedo se vai// verso ou sarcófago?»

 

CCB, Lisboa, 18 Fevereiro

O jeito que me dava acabar assim, na entrada anterior. Contudo, experimentei em palco a Isabel [Abreu] no palco da Oresteia a fazer-se o mais carnal dos insectos, corpo esticado ao limite da plasticina, voz de barro no coro do bom senso (não são todos?), ser transcendido a fio de palavra, a estender-se ao sopro dos elementos, mulher esquecida e amante, mãe assassina por mor de uma dor, mãe vítima de vingança óbvia (não são todas?), carne das trevas no plástico do negro. Actriz, que modo mais visceral há de dizer mulher?

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