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Uma das grandes lutas do homem moderno – talvez a maior – consiste em ter tentado fundamentar, a partir do século XIX até os dias de hoje, a colocação do “eu” no centro da hierarquia de sentido do humano, e a de construir, a partir dessa atomização, uma ética que simultaneamente justifique e seja justificada pelo radical mínimo a que chamamos “eu”. O sujeito, deposto do fardo e do cajado das múltiplas instâncias que ordenavam a existência – os deuses, a natureza, o destino – encontra-se sozinho perante as forças que ameaçam degluti-lo e arrotá-lo antes que ele consiga anotar a matrícula daquilo que o esmagou, e defende-se como pode, com a tecnologia, com a ciência e os seus múltiplos remendos, com o reiki, os chakras, a meditação progressiva, a psicanálise, a hipnose regressiva, a homeopatia e todo e qualquer par de botas que, não sendo de todo científico, tome da ciência as palavras pelas quais evoca o que pretende ser sem o sendo: quântico, comprovado, evidente, estatístico, atómico. A canga que arrasta consigo para se justificar é semelhante à colecção avulsa de citações com que uma tese anémica se escuda da crítica. É assim que veste a moderna banha da cobra.

Afastando o sobrenatural, o homem acabou por afastar igualmente a morte. Pelas múltiplas representações artísticas que temos do acto de morrer, até pelo menos à idade média, percebemos claramente que a morte era, para todos os efeitos, um acontecimento de tal ordem de grandeza que o seu sentido transcendia claramente o homem que a recebia. Por isso a morte era pública e, como diz Walter Benjamin no ensaio “The Storyteler”, sobre Leskov, esta revestia-se da maior importância porque justificava o sujeito, não somente nos aspectos do conhecimento ou da sabedoria que legava, mas, e sobretudo, no sentido em que encerrava, à vista de todos, uma ordem de sentido que começara no nascimento e que terminava no leito onde o moribundo, rodeado da sua comunidade, dizia as suas últimas palavras enquanto que, dentro de si, desfilava a sequência de imagens a que ele chamaria “a minha vida”. A morte é a autoridade pela qual estas últimas palavras, ainda que proferidas pelo mais indigentes dos mendigos, se revestiam de uma clareza e poder impassíveis de serem contestados. A morte, como continua Benjamin no ensaio citado, é a fonte de autoridade do homem que morre e de todas as histórias que o homem conta (não é difícil conceber que contaríamos histórias distintas – ou que não as contaríamos de todo – se fôssemos imortais).

Não contente com o afastamento da morte, o homem moderno afasta tudo quanto possa estar remotamente ligado a ela: a velhice, a doença, a exaustão física e mental. Os velhos, os doentes e aqueles que de alguma forma foram tocados pela deformidade do corpo ou da mente são atirados para as valas comuns a que se dão nomes cada vez mais higiénicos e despidos de sentido: casas de repouso, cuidados continuados, lares de terceira idade (este cada vez mais em desuso porque ainda quer dizer qualquer coisa). Assim se constrói na esfera pública a imagem sanitizada do homem e mulher ideais: jovens, impecavelmente cuidados, saudáveis até à náusea, tão tonificados como ditam os Tom Fords de plantão, confiantes e empreendedores e conscientes do seu papel atómico nesta grande estrutura molecular a que se dá o nome de civilização e que enche a boca de Aristóteles e Shakespeare para, na verdade, olhar para o passado com bafio e nojo indisfarçáveis, convencidos de que os Tinders, Facebooks e Ubers do momento são os faróis pelos quais o mundo redundará numa gigantesca agremiação de escuteiros felizes.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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