PARTILHAR
Gisela Miravent

 

Não foi completamente inesperado, já a várias cabeças aquilo ocorrera. Mas foi grandioso e ainda assim imprevisto no momento preciso em que aconteceu. Nunca se acredita que o céu e o mar possam verdadeiramente trocar de lugar entre si.

O acordo selado de madrugada desenrolou-se ao longo de um dia furioso e de luz indefinida. As vagas atingiram uma altura aterradora e bela; água e espuma em quantidades sobrenaturais foram lançadas ao ar e pregadas num espelho mágico, cheio de criaturas marinhas dentro. Inversamente, as nuvens lançaram-se num mergulho abissal e encheram antigos oceanos de uma massa onde tudo se podia perder. Até pedaços próprios.

Nem tudo correu bem. Nem todos perceberam a tempo o que estava prestes a acontecer, pelo que peixes muito variados e plantas aquáticas multicolores ficaram para trás, sem possibilidade de se encontrarem com o seu mar – a não ser vendo-se ao espelho até ao limite da sua existência. E muitos pássaros bateram asas dentro de água, procurando atingir o céu ao contrário.

Que ideia, pensavam todos, que ideia gigante e louca – o que lhes deu?, não chegava o abraço do costume, não tinham vivido sempre para o limite um do outro? Tantas vezes se interpelaram para lá do limite até… a cada tempestade baralhavam-se e tinham filhos: as criaturas mais estranhas que povoam a Terra… e agora? Terra gasosa e uma luz irradiada de um chão indeciso. Sobre as cabeças, um espelho poucas vezes transparente, carregado como nenhum céu nos dias em que se compõe como a derradeira ameaça.

Uma gaivota olhava fixamente as nuvens de entre uma massa de água a que não conseguia escapar. As nuvens pareciam-lhe ondas, também iam e vinham, entravam umas pelas outras, variavam na forma e tonalidade. Não pensara que podiam ser assim bonitas: como pudera suceder que nos seus vôos de tão longas distâncias nunca se tivesse apercebido de que as nuvens eram todas diferentes entre si?

Os olhos da gaivota desanimavam-se e ela não lutava, observava só, completamente espantada, a cavalgada daquelas massas de água em transformação contínua, de forma fantástica em forma fantástica. Sentia vertigens. Queria cair, mas o espelho fixara-a ali. Entre as nuvens, abaixo, peixes saltavam desolados por esse outro mar que já não lhes pertencia, as barbatanas incertas de como trabalhar aquele gás difuso, as guelras a quererem sustentar o líquido evadido para sempre. Era um espectáculo sofrido e poético. Os peixes, sobretudo, emprestavam às nuvens uma vivacidade de esplendor apocalíptico.

E foi então que o viu. A princípio tomou a coisa por mais uma nuvem interessada na mascarada. A gaivota estava agora convencida de que as nuvens representavam incessantemente as formas que lhes calhara observar no tempo e se se configuravam em dragões a cuspir pela boca baforadas gasosas é porque os dragões existiam. Mas esta forma sofria de maneira contrária à alegria doida e pueril das nuvens. Não se movia ligeira, arrastava-se com esforço, a fazer uso não se sabe de que engenho e força. Era uma baleia azul, gigante entre gigantes. E sobre a baleia, num desajustamento de corpos cilíndricos impossíveis de se concertarem entre si, arrastava-se ele, em ensaio natatório condenado desde que o mar dera em céu e o céu em mar, ineficaz e triste de se ver: o espadarte.

Fundo nos olhos da gaivota acendeu-se uma luz. Não parecia possível que no meio daquele tumulto de fim dos tempos fosse justamente aparecer-lhe o espadarte numa situação tão desoladora e irremediável quanto a sua. O seu espadarte. A memória socorreu-a desde o mais íntimo de si e devolveu-lhe imagens dos passeios suaves ou agrestes que haviam feito os dois tantas vezes, a mímica de que usavam para comunicar, a dança de corpos no limite do céu e do mar, a alegria transbordante ou a melancolia por conta de dias de fome e cansaço. Estava tão encantada quanto apreensiva. Logo o seu espadarte.

Bateu asas. Bateu-se furiosamente de encontro à água porque só movimentando-se poderia desencadear um reflexo capaz de ser detectado pelo espadarte. Talvez. No entanto, quanto maior o vigor em que se implicava mais água engolia; em menos de nada afogar-se-ia para sempre. Semiconsciente, continuou sempre a bater as asas ou talvez já não as batesse senão em sonhos. Parecia não dar mais acordo de si. Nos seus olhos, a luz apagara-se. Pensou que pensava: tinha sido uma gaivota feliz e tinha havido um espadarte com quem partilhara os melhores momentos da sua vida. Depois caiu.

A baleia azul preparou-se para lançar um repuxo de água imemorial. O espadarte fixou os olhos na gaivota e concentrou-se em chamar a si as últimas energias. Beijou suavemente o corpo cravejado de cracas da baleia e, unidos num esforço superiormente combinado, a baleia ejectou toda a água que guardava dentro de si por entre a massa traiçoeira de nuvens e o espadarte, lançado a par do repuxo, empreendeu um salto em altura nunca antes visto, como se lembrava de ter tentado sem o mesmo sucesso quando quisera provar à gaivota que podia voar como ela. A sua espada embateu no espelho de água e quebrou-o. Enquanto o espadarte se projectou para o interior do mar invertido, a gaivota cruzou-se com ele numa queda inconsciente rumo ao seu céu de sempre.

O mundo é agora completamente outro. Tanto desapareceu, tanto se transformou. Outros adaptaram-se às massas de nuvens a vogarem eternas sob um capacete líquido e fantástico. No limite do espelho de mar, e no cimo do mais alto castelo de nuvens, o espadarte e a gaivota sorriem um para o outro enquanto coreografam o amor possível numa dança deslumbrada e feliz.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here