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O Papa não esconde o seu desejo de visitar o País do Meio. Mas as relações entre o Vaticano e Pequim ainda não foram totalmente regularizadas. Por outro lado, notícias de perseguições a cristãos não ajudam a acalmar a fogueira

Assegurando que “não está” nada “em preparação”, o Papa Francisco manifestou a sua disponibilidade para visitar oficialmente a China. A declaração, aos jornalistas, aconteceu no passado sábado, dia 2 de Dezembro, a bordo do avião de regresso a Roma depois da viagem ao Bangladesh e a Myanmar. “A viagem à China não está em preparação: fiquem tranquilos, no momento não está em preparação”, afirmou o Santo Padre, sublinhando que este seu desejo “não é”, porém, “segredo” para ninguém.

No diálogo com os jornalistas no avião, uma prática comum nas viagens papais, Francisco fez algumas referências às negociações em curso entre o Vaticano e as autoridades chinesas para a regularização das relações entre os dois Estados. Afirmando que “é necessário ter paciência”, o Papa explicou que as negociações “são de alto nível cultural”, dando como exemplo uma “Mostra dos Museus chineses” que está a decorrer actualmente no Vaticano.

No entanto, as negociações existentes vão para além das questões meramente culturais. “Existe diálogo político, sobretudo pela Igreja chinesa, com aquela história da Igreja Patriótica, a Igreja clandestina, que se deve caminhar passo a passo, com delicadeza, como já está sendo feito, lentamente”.

Assegurando que “as portas do coração estão abertas”, o Santo Padre fez questão de sublinhar que, para o sucesso do diálogo com as autoridades chinesas, “é necessário ter paciência”. É neste contexto que o Papa Francisco afirmou “que fará bem a todos uma viagem à China”. E acrescentou: “Eu gostaria muito de fazê-la”.

O diálogo entre o Vaticano e Pequim reveste-se de particular dificuldade, até porque continuam a ser visíveis os ataques que as autoridades continuam a fazer à comunidade cristã neste gigantesco país asiático. Ainda recentemente, no passado mês de Novembro, a Fundação AIS dava conta que as autoridades de Yugan, uma cidade situada na província de Jiangsi, estavam a obrigar os cristãos a substituir símbolos religiosos, como por exemplo retratos de Jesus Cristo, por retratos do presidente Xi Jinping.

De acordo com o jornal South China Morning Post, que se publica em Hong Kong, esta medida já afectou “milhares de cristãos” que se viram forçados a ceder às autoridades comunistas sob pena de poderem vir a deixar de receber “subsídios” de desemprego e de combate à pobreza. Esta campanha visa, ainda segundo o referido jornal, “transformar” os cristãos em “crentes no Partido” que lidera os destinos da China. Este ataque contra a comunidade cristã em Yugan pode ser visto como estando integrado numa estratégia mais vasta de cerco às actividades da Igreja neste país.

De facto, ainda em Março, a Fundação AIS dava conta da prisão de alguns cristãos na província de Liaoning, no nordeste da China, por estarem envolvidos na distribuição de literatura religiosa, tendo-se registado, ainda este ano, a expulsão de pelo menos 32 missionários sul-coreanos de Yanji, uma região situada no nordeste da China perto da fronteira com a Coreia do Norte, onde realizavam trabalho humanitário há mais de uma década.

Também este ano, foi detido o líder de uma igreja protestante sob a acusação de ter “divulgado segredos de Estado”. O referido cristão, o pastor Yang Hua, da igreja “Living Stone Church”, em Guizhou, foi condenado pelo Tribunal a cumprir pena de prisão de dois anos e meio.

Paralelamente a estes episódios, continua a verificar-se, em diversas regiões da China, uma campanha de demolição de cruzes e de outros símbolos cristãos em Igrejas e casas de culto, que tem provocado também os mais profundos protestos por parte das comunidades cristãs locais, especialmente as que se mantêm fiéis ao Santo Padre. Na China, recorde-se, há uma comunidade cristã muito activa, apesar de “clandestina”, que se mantém fiel ao Papa, e que tem sofrido, desde o advento do regime comunista, a perseguição por parte das autoridades.

Vaticano e Pequim não têm relações diplomáticas, sendo que a China tenta controlar, de alguma forma, a vida religiosa do país tendo instituído para isso a “Associação Patriótica Católica”, que nomeia os prelados à revelia da autoridade do Bispo de Roma e que são considerados, por isso, como “ilegítimos” pelo Vaticano.

As negociações entre os dois Estados são vistas com cepticismo por alguns sectores da Igreja na própria China. No final do mês passado, a Fundação AIS dava conta, igualmente, das críticas proferidas pelo cardeal emérito de Hong Kong, Joseph Zen Ze-kiun, durante uma celebração em memória de um sacerdote da Igreja Clandestina, Yu Heping, que morreu em circunstâncias misteriosas há cerca de dois anos.

O Cardeal Zen afirmou então ter ficado “chocado” com os pormenores que conseguiu apurar, através de várias fontes, sobre as negociações sino-vaticanas, assegurando que haveria um plano “malévolo” para permitir a substituição dos Bispos fiéis a Roma pelos nomeados por Pequim. D. Zen Ze-kiun afirmou que, a ser verdade, esta informação é “chocante”. E acrescentou: “É o começo do fim”.

Esta não é a primeira vez que o Cardeal de Hong Kong acusa o Vaticano de ingenuidade nas negociações com as autoridades da China. O Cardeal emérito afirmou que a Santa Sé tem receio de ofender Pequim. Isso explicaria, por exemplo, a ausência de condenação, por parte do Vaticano, em relação à morte misteriosa do padre Yu Heping, ou à campanha de demolição de cruzes em edifícios da Igreja na província de Zhejiang.

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