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Têm início relações humanas, mas não têm fim. Acabam mas não no sentido em que é como se nunca tivessem sido. Pelo menos, não, algumas. Mas talvez falemos de relações humanas, daquelas que se travam no núcleo duro das nossas existências, aí onde a batida cardíaca ganha o seu bombear.

A própria expressão “relações humanas” é complexa e ambígua. Todas as relações do humano são humanas. O mundo em que vivemos está completamente revestido pelo ser do humano. Nós próprios reconhecemos de algum modo ser humanos. A relação do humano com Deus é humana, ainda que de Deus para nós possa não o ser, a partir de uma certa teologia. Tudo o que é humano é em relação: de si para si, de si para o mundo, de si para Deus, de si para os outros. Ainda, desde sempre que estamos remetidos para outros, outros que estão vivos e na proximidade espacial e afectiva. Outros também que sabemos terem existido, os antepassados que estão na boca daqueles que nos estão próximos, pais e mães dos avós, conhecidos contemporâneos deles. Pode ser também com um sem número de pessoas que constituam a nossa árvore genealógica incógnita e as árvores genealógicas dos outros que conhecemos. Cada pessoa é constituída pela ausência de todas as pessoas que são condições de possibilidade da sua história, mesmo que não façam parte da sua história. Sem haver histórias para contar acerca delas que tenham sido vividas na primeira pessoa. Podemos ainda compreender que estamos remetidos para incógnitas futuras, quem serão, como serão, os nossos descendentes, os descendentes dos descendentes dos nossos familiares e amigos? Como são os pais para os órfãos de pais incógnitos? Todos nós somos um feixe complexo e emaranhados de relações com todas as pessoas que conhecemos e com todas as pessoas que não conhecemos, como se a nossa fachada apenas fosse a ponta de um iceberg constituído pela multidão de gente com quem convivemos mas também com a multidão de gente muito mais vasta, a perder de vista, que não conhecemos, a humanidade, as gerações de gerações passadas e futuras e todos os nossos contemporâneos que nunca veremos a não ser a porção finita e limitada das pessoas que conhecemos.

Das pessoas que conhecemos, umas houve e há que sempre lá estiveram, pai e mãe e avós e tios e irmãos ou primos mais velhos, aquela parte da família que já vive quando acordamos para a vida. Outros há que conhecemos ao longo da vida, fomos tendo como amigos, como os outros que se tornaram nossos. Fazer um amigo é um acontecimento histórico, não apenas porque existe um momento em que não o conhecemos e um momento em que o conhecemos, mas também porque nós próprios somos diferentes se não tivéssemos conhecido essa pessoa. Seríamos diferentes, se não tivéssemos os amigos que temos. Seríamos outros. Nem saberíamos distinguir quem seríamos agora que somos conjuntamente com esses outros que se tornaram e ficaram amigos. Somos definidos pela presença de familiares e amigos que são os nossos. A sua presença é indelével. Podemos não os ver com a frequência com que os víamos nas tardes infinitas e oníricas da infância e da juventude. Podemos já não os ver. Houve outros que morreram e outros que se afastaram e ficaram, por isso, vida fora.

E, contudo, vivem em nós, mesmo se não vivem já connosco. É que os interrogamos, quando queremos saber como reagiriam, o que fariam, que conselhos têm ou teriam para dar. A sua presença é completa, ainda que desaparecidos. São os nossos mortos, que cruzam as nossas casas e as asas das suas vidas desaparecidas batem ainda o ar das nossas cidades, fazem a corrente de ar que bate portas e estilhaça os vidros das janelas. Passam por nós com a densidade suficiente para lhes adivinharmos a presença.

Há também aqueles que por um qualquer mal-entendido, bem entendido para uma das partes e mal entendido para a outra das partes, se afastam e irremediavelmente para sempre. Até podem reencontrar-se algures, décadas mais tarde, ao abrir de uma porta, ao dobrar de uma esquina ou lá ao longe. Não sabemos bem como os dois reagirão, se mal se bem. Se será indiferente e é como ver um fantasma já morto, mas que não enterráramos. Mas esses outros de que nos afastamos e nós afastados dos outros somos habitamos uma dimensão diferente do ser. Nunca nos despedimos e vive em nós a amargura da injustiça que fica em nós, objectiva ou só nossa. Viverá também talvez alguma alegria dos dias felizes, se calhar pouca, porque tudo se esfuma em face da tristeza e da melancolia.

Não é é como se nunca tivesse sido. Ninguém desaparece como se nunca tivesse existido. A amargura atesta-o e a amargura é a abominação da desolação.

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