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Santa Bárbara, Lisboa, 3 Setembro

Agora os caracteres andam luminosos, mas desde sempre foram iluminados. Não há luz mais intensa que a de um pensamento, nem nada mais brilhante que o gesto da escrita, fruto do desejo de contar, da necessidade de um registo, de um apoio para pensar mais e mais longe. Pensar nesta história continua a ser mergulho no enigma, que exige falar de momentos grandiosos e invenções minúsculas, mas também de matérias e imagens, de religiões e rebeliões. De velocidades e arquitecturas, de técnicas e histórias de amor, saber e sabor. De muito, portanto, mas sobretudo de nomes e palavras: alfabeto e papel, volumen e codex, Gutenberg e Baskerville, Bíblia e Enciclopédia, minúsculas e gravura, Afonso X, El Sabio, e Geoffroy Tory, biblioteca e autor, multimédia e e-book.

Quem mais senão a Natureza para fornecer o lugar da escrita? Pedras, tabuínhas de cera ou argila, ossos, folhas de palmeira, metais, peles de animais (o medieval pergaminho, por exemplo) e, enfim, liber (latim para uma película entre o tronco e a casca de certa árvore) e biblos (grego para «papyrus», essa planta oriunda do Vale do Nilo). Toda a Antiguidade se deixou escrever em longos rolos de dezenas de metros de papiro com textos copiados numa só face em colunas de 25 a 45 linhas. Como para tantos outros detalhes, pouco mais se consegue do que imaginar a enorme biblioteca de Alexandria ou obras como as 123 atribuídas a Sófocles das quais só conhecemos sete.

A nossa época deve ter começado no exacto e revolucionário momento em que os rolos (volumen) passaram a codex, conjunto de cadernos dobrados e cozidos que permitiam a escrita de ambos os lados da folha, que reorganizaram o texto (títulos, capítulos, índices), que tornaram mais fácil o manuseamento e melhor a armazenagem. Questões de técnica, claro, mas que só nos nossos dias se vêem afectadas pelos formatos de computador (e-book) que possibilitam coisas de nada como procurar instantaneamente significados ou cruzar leituras, abandonando assim a evidente e sempiterna sequência das páginas.

A mão foi, de facto, responsável por muitas mudanças, sobretudo a do monge copista medieval que celebrava em latim o seu Cristo reproduzindo a Bíblia, de modo cada vez mais rápido por exigência dessa fé que se espalhava através da rede crescente de mosteiros, que eram escolas e logo cidades. Terá sido a pressa que obrigou à passagem das capitais romanas para as unciais e destas para as nossas elegantes e legíveis minúsculas carolinas? Era outra a qualidade do tempo, que permitia iluminar cada página com uma arte feita de segredos e contemplações e encadernar o conjunto de modo tão protector quanto luxuoso. De velocidade só podemos falar por causa de um mistério chamado Gutenberg, a figura alemã que soube aproveitar a existência do papel, essa invenção chinesa, e as conhecidas técnicas de impressão como a de carimbos gravados de madeira para tudo verter na ideia de caracteres de chumbo móveis e tintados que por força de uma prensa conseguem, em 1454, reproduzir velozmente a célebre Bíblia de 42 linhas.

Uma frase, ainda que seja um pulo, não nos consegue fazer percorrer a viagem deste instante em que o Livro é lido em voz alta, até que uma vontade de saber ou a necessidade da ficção nos fazem ver, de súbito em finais do século XVIII, um pequeno livro na mão de uma burguesa que lê apenas para si, num momento íntimo e silencioso, perigoso, portanto, um romance de cavalaria. Entre um momento e outro, não há apenas uma Europa que discutiu Deus e a Ciência, para quem as imprensas passaram a centros de saber, tantas vezes subversivo e digno de fogueiras simbólicas, há todo um percurso evolutivo feito da descoberta da numeração árabe, da pontuação e outras arquitecturas, da «ciência» dos tipos de um Garamond e da página segundo um Troy, ou da «paixão» total pelo objecto livro de um Baskerville; ou das visões gravadas para sempre como motivo de espanto, fossem elas a anatomia de Vesálio ou a de Charles Eisen para os contos de La Fontaine. Há, antes de mais, a ideia de que todos podem partilhar (em livrarias e bibliotecas) o tudo que cabe nesta caixa: todas as viagens, todos os saberes (Enciclopédia), todos os fogos pela mão não de um copista, mas de um autor. E o livro nunca foi só letras, foi iluminura e cercadura antes de ser design; foi a página fulgurante e absoluta de William Blake (Canções da Inocência e da Experiência) e as invenções de Laurence Sterne (Vida e Opiniões de Tristam Shandy) ou de Raymond Queneau (Cent mille milliards de poèmes). Foi, portanto, tudo antes de ser agora todas as formas, tamanhos e possibilidades. Os caracteres, que nunca foram cegos, continuam irrequietos.

Santa Bárbara, Lisboa, 3 Setembro

Na classificação das artes há uns lados de sombra onde se abrigam, ao fresco, aquelas disciplinas tão indisciplinadas e movediças que escapam às supremas etiquetas e às grandes hierarquias do gosto e da sensibilidade. São menores ou impuras, e por isso se atravessam no nosso caminho. Às vezes até se instalam para ficar nos nossos modos de ver e de experimentar. Como algumas insidiosas melodias que não nos deixam o ouvido, há pequenos momentos visuais que nos paginam os dias, que os arrumam logicamente ou os desarrumam poeticamente.

Sebastião Rodrigues foi um desses discretos manipuladores com poder para, com uma capa, nos levar à descoberta de um livro fundamental, com um cartaz explicar nos uma revolução, no desenhar de uma letra nos aproximar do mundo. Era tido como designer e ilustrador, ou seja, como coordenador e intérprete mas o seu trabalho foi além disso. A sua obra tem tanto de irónica desconstrução dos modos de ver como de criação de paisagens fascinantes e faiscantes.

A força de seta da linguagem de Sebastião está na maturidade que resulta do imenso trabalho de análise e leitura, de corte e costura, de um velho labor prolongado coerentemente por várias décadas. E que diz esta língua artesanal e discreta? Que os mais banais dos objectos podem ser símbolos, que uma letra pode ser uma imagem. A conversa que Sebastião Rodrigues pôs a letra a ter com a imagem é de um equilíbrio tão elegante que oferece uma inquieta tranquilidade. Dá ideia por um instante que a vida pode ser uma brincadeira entre contrários. Como se aquela estética bem humorada, aquelas sínteses luminosas fossem o sinal político da possibilidade de outras vidas, um piscar de olho à complexa simplicidade que tem um gato preguiçoso ou um f. Um efe de fragmento.

Escreveu ele algures simplificando que desenhava «com a maior parcimónia os mais diversos símbolos, para os dispôr da melhor maneira que sei em variadíssimos espaços, além da parcimónia, também utilizo a alegria, (…) o jogo, (…) o improviso e até o imprevisto.» É estranho que dois efes a conversar nos possam dar lições de vida. Dois efes que falam podem dizer o quê (conferir em Divertimento, com Alexandre O’Neill, ed. Bruáa)? Dizem pontos de interrogação, corações, setas partidas e outros sinais que fora de contexto fazem outros textos, se tornam imagem. Um símbolo do jogo e da alegria que ainda pode ser a vida. Contra a morte.

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