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Toda a gente tem Facebook. Os meus amigos todos, os amigos dos meus amigos, os pais destes e até alguns animais de estimação têm Facebook. É escusado referir estatísticas de utilização. Quando esta crónica sair, já estão desactualizadas. O Facebook transformou-se na maior rede social do mundo, concretizando o que os seus percursores, como o Myspace ou o Orkut, nunca conseguiram.

Para este sucesso galáctico terá contribuído certamente um aspecto da filosofia e cultura do Facebook que nem sempre é comentado com a atenção que merece: a sua radical obsessão pela não negatividade. O Facebook deu aos seus utilizadores durante muito tempo apenas uma possibilidade de interação (que não fosse o comentário) com os posts que compõem o feed: o famigerado like (perdoe-se a canga dos anglicismos). Não se podia – e ainda não se pode, apesar de o rol de interações ter sido generosamente ampliado – não gostar de uma publicação. Era algo estranho, quando um utilizador publicava uma actualização de estado na qual expressava o seu pesar pela morte de alguém que lhe era querido, que a única reacção possível fosse o like. Mas era assim. O Facebook queria proteger-nos. O Facebook quer proteger-nos.

No Facebook, não sabemos quando somos desamigados. Não sabemos quando alguém nos bloqueia. Apesar de o Facebook ter uma quantidade inacreditável de notificações que nos faz chegar, muito poucas são, de facto, de carácter negativo. Uma excepção, e por motivos óbvios, será quando somos denunciados por publicar conteúdos ditos ofensivos. E, mesmo assim, a identidade daquele que denuncia é elidida, tornando a denúncia um acto anónimo que impede que denunciador e denunciado se conheçam e possam explicar reciprocamente os seus pontos de vista. Transformada numa mera função do sistema, a denúncia perde o seu carácter subjectivo e passa a ser apenas o resultado de uma acção que pretende repor a ordem.

A própria vanidade natural do utilizador é mantida sob controlo. Uma das críticas que sempre se fizeram ao Facebook era a impossibilidade de o sujeito poder saber quem lhe andava a cuscar o perfil. Inteligentemente, o Facebook impede que isso aconteça porque os resultados de tal, pelo menos para a maioria dos mortais que lá andam, seria sempre insuficiente para as expectativas que criamos de nós próprios e do interesse que despertamos nos outros. Tudo no Facebook se rege por esta positividade radical. Podemos deixar de seguir um sujeito que ele nunca saberá (e o contrário aplica-se igualmente). Podemos ocultar histórias de que não gostamos e o algoritmo, elegantemente, apresenta-nos menos conteúdos desse tipo. Não sabemos se um comentário que fizemos na publicação de alguém foi apagado. Não sabemos se aceitaram um pedido de amizade que fizemos. O Facebook conta com a nossa distração e evita apresentar-nos o que quer que seja que nos melindre. O Facebook protege-nos.

Se o leitor (céus, que novecentista) é como eu e se sente mais despido na rua sem smartphone do que sem calças e passa, tal como este que vos escreve, uma considerável parte do dia a contemplar a indignação no feed, talvez fosse importante tirar uns minutos para perceber, com mais acuidade, de que é feita esta morada cada vez menos alternativa onde aparentemente ”todos os meus conhecidos têm sido campões em tudo”, como dizia o poeta.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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