Baleia azul

[dropcap style≠’circle’]A[/dropcap]pareceu esta estranha designação que tem por detrás práticas destrutivas e incentivo à destruição como meio de averiguar o limite das capacidades quando norteadas por um engenhoso cérebro de « Encantador de Serpentes». Não creio por isso que o seu inventor seja um jovem de vinte e dois anos — isso é apenas mais um embuste de carácter «Lobo Solitário» que sabemos não existir quando se trata de mecanismos mais vastos. Estamos perante um teste laboriosamente criado para analisar a vulnerabilidade dos jovens, até que ponto eles estão receptivos a um propósito cego e vertiginoso que, tal como a magia, os guie num canto suicida.

Todo este mecanismo não afirma: “Quero acabar com a Humanidade!” Um mecanismo destes não produz frases, deixando-as para os mais jovens e radicais. Os jovens sagram sempre. Há mesmo ritualisticamente a herança sacrificial dos mais belos, dos sem defeito, para acalmar a fúria dos deuses, pois que se for velho, com defeito ou feio, a tempestade não acalma: Abraão não vai do presente para o passado – o degolador do filho – apenas do passado para o futuro do Homem que praticava costumes tribais de matança dos inocentes na linha dessa necessidade. A sua importância firma-se pelo fim dessa prática, já que na consciência humana representada pelo anjo ele evolui para uma nova dimensão. Passam então os animais a cumprir esse antigo desígnio: os cordeiros, as pombas, os bois, sempre jovens, pois que um cordeiro adulto se transforma em carneiro. Manteve-se o princípio: o sangue velho é um plasma que também não apazigua o deus do monoteísmo.

Mas as nossas sociedades estão cada vez mais velhas, como bem se constata proporcionalmente à média de vida atribuída neste período do tempo, pois que se fôssemos homens bíblicos estaríamos certamente entre o imberbe e a pequena infância e o que daqui resulta é que da nossa vida já vivida, as ideias ,os conceitos e as realidades, ultrapassam em muito os sonhos juvenis e os espaços de manobra que eles têm para ser. No meio de tal abundância eles colidem ainda com o artefacto adulto de uma “juventude” que se prolonga, sendo por embuste que nos aproximamos muitas vezes das suas naturezas.

Sabemos que o tempo que lhes dedicamos é um dever feito com esforço e uma imensa insegurança. Queremos defendê-los mas não sabemos de que forma. No nosso íntimo achamo-los desagradáveis e problemáticos e desejamos que aquilo passe; crescer é uma dor que presenciamos e não sabemos ainda resolver; nós que resolvemos quase tudo… ou pensamos ser assim. Lembramo-nos, não raro, com um certo alívio, que mesmo em queda, ali não voltaremos mais, lembramos a nossa dor nesses domínios, mas o tempo era outro e o estranho é que a placa de vidro frio das antigas gerações é exatamente a mesma que eles projectam em nós. Nós, tão diferentes de tudo, temos de ser expostos a um teste que denuncia paralisação.

Os jovens mesmo em queda são milhões pelo mundo fora e há que saber testar os seus limites e fazer experiências ao grau de extremo abandono a que, não parecendo, estão sujeitos. É uma “central” que de certa forma quer saber se pode contar com este “exército” quando o mote das suas ordens se fizer sentir e assim estes e outros jogos e outras baleias avançam para um primeiro escrutínio experimental. Um líder jovem que não sabe dos estatutos da missão dirá ainda ingenuamente: «Quero acabar com toda a Humanidade» mas, por detrás, o saguim e o sardónico manejam os cordéis. Estes cordéis que podemos, mesmo metaforicamente, remeter para a primeira felicidade de Pinóquio « Não há cordões em mim! (…) posso andar, posso falar, posso mexer(…)». Mais tarde também ele se encontrará no ventre da Baleia, da Dona Monstra.

Aliás, a ideia de uma Humanidade engolida por um ser marinho é comum em todas as civilizações. Jonas por lá andou retido e o delírio da sua invocação e da salvação foi tanto que é vomitado do seu ventre para fora. O mar é inimigo de Deus desde a origem, é visto como um reino da morte quer como o caminho que a ela conduz e, se formos a um dos mais emblemáticos romances do século vinte, «Moby Dick» de Herman Melville, saberemos identificar alguns signos desta verdade: o seu herói é Ismael que luta contra o grande Leviatã, neste caso, a Baleia Branca. O deserto é a antítese deste Inferno e, até ver, onde Deus nasceu, bem como todos os homens das tribos desérticas. Existe ainda por lá o Paraíso. Ismael, filho de Abraão, também não foi morto tal como o seu irmão Isaac: o deserto salvou-o do sacrifício criancista. O monstro é absolutamente de identificação marítima. E agora do grande romance que diz assim: (ainda e a propósito dos jogos jovens ou dos jogos com os jovens, dos testes que só a eles sangra, e que não vemos, impávidos como andamos, a sua tão líquida frescura. E este romance é quase uma profecia).

«GRANDE E DISPUTADA ELEIÇÃO PARA A PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS»

« VIAGEM DE UM TAL ISMAEL NUM BALEEIRO»

« BATALHA SANGRENTA NO AFEGANISTÃO»

« No entanto, não consigo adivinhar por que motivo esses encenadores, os Destinos, me designaram para um reles papel numa expedição baleeira, quando outros receberam magníficos papéis em grandiosas tragédias, e falas breves e simples em comédias ou em farsas; mas agora que recordo todas as circunstâncias, começo a compreender as origens e os motivos que, astuciosamente apresentados sob vários disfarces, me induzem a aceitar este papel, além de me levarem a cair no engano de que se tratava de uma escolha resultante do meu livre arbítrio e do meu discernimento.»

O populismo não é apenas político, mas também cultural, afásicos sistemas que consistem na degradação e banalização do pensamento e, se não se fizer mais que dar notícias e querer-se inventar tudo a partir de uma ideia milagrosa que geralmente se afirma de modo terrorista, com frases bombásticas e antevisões de conhecimentos panfletários, nunca iremos saber o porquê destas Baleias, desta hiperbólica boca aberta para um ventre de que o próprio Leviatã se demitiu na sua imponderável denúncia de não querer saber mais disto para nada. É depois uns contra os outros que iremos ser vomitados sem que saibamos da “central” nem de coisa nenhuma.

Os livros não são um fim em si, mas uma ajuda, e quase seria melhor abdicar de um entulho argumentativo dissolvente que empoeirou a visão da consciência do que andar perdido entre resmas de “verdades” insolventes. Parecem-nos todas longínquas estas outras Baleias, mas não, são exactamente as mesmas que esta Azul, indisfarçavelmente monstruosas, e só outros poderes as conseguem subjugar. A atenção requer entrega, um aspecto que a “central” sabe não existir, e entregamos-lhes assim por indiferenciação esmagadora a vida dos nossos filhos.

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