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Há duas semanas estava no Cais do Sodré a beber uma cerveja com amigos quando um homem, imiscuindo-se no grupo, me interpela acerca do assunto que discutíamos: o presidente Trump e a sua capacidade aparentemente inesgotável de fazer inimigos da esquerda à direita. O homem discordava da interpretação que dávamos a esse facto: para ele, a antipatia do sistema e de algumas elites tendencialmente conservadoras demonstrava que o recém-empossado Presidente dos Estados Unidos da América estava, de facto, a fazer a(s) coisa(s) certa(s) e a “drenar o pântano” em Washington, imagem que o próprio Trump usou como metáfora para um dos objectivos do seu mandato presidencial.

Discordámos e discordámos até concordarmos em discordar. Quando duas pessoas têm posições tão distintas acerca da interpretação a dar ao mesmo fenómeno, não é pela quantidade de argumentos e exemplos que uma delas vai convencer a outra. E a coisa vai ficando simultaneamente mais pobre em ideias e mais entrincheirada nas posições que cada um ocupa à medida que se vão acrescentando cervejas à conversa. Passámos da política para o cinema, área na qual, felizmente, encontrámos mais pontos de concordância que de conflito.

A certa altura, o homem – vamos chamar-lhe Rui, por conveniência – perguntou-me onde dormia. Pedi-lhe para repetir, pois o sentido não era de todo claro. “Onde dormes”, repetiu, “aqui nalguma rua do Cais Sodré?”. “Moro mais acima”, respondi, “perto da Rua do Poço dos Negros”. “Ah, tens uma casa, que bom”. E só aí percebi o que o Rui queria formular com aquela pergunta: ele achava que eu, como ele, vivia na rua, e estava curioso por saber onde. Laborávamos num duplo equívoco: eu convencido de que ele tinha uma vida semelhante à minha, no que concerne os rudimentos básicos da mesma, e o Rui convencido de que eu, tal como ele, não tinha uma casa onde regressar à noite.

A conversa arrefeceu um pouco depois de percebermos o engano. Continuámos a falar de cinema, sem nunca regressarmos ao assunto que causara aquele desconforto de sabermos habitar mundos inteiramente distintos. Passado algum tempo, um amigo do Rui chegou e partiram ambos, noite fora, cada um com uma cerveja pendurada pelos dedos como as crianças fazem com os baldes que usam na praia para edificar castelos. Eu regressei ao grupo de amigos onde estava e contei-lhes o que se tinha passado e falámos de como o nosso património de experiências, quando desfraldado, pode condicionar de forma decisiva uma conversa sem necessitar de ser parte dela. Algumas coisas funcionam como letreiros que aproximam ou afastam diferentes pessoas de diferentes grupos que, por vezes, se sobrepõem e se mesclam na construção do que chamamos, rudimentarmente, identidade social.

De certo modo, a minha percepção – ainda que muito limitada – da sua experiência de vida, dava outra luz à discordância que espoletou a nossa conversa subsequente. Para alguém como eu, com casa e uma existência relativamente estruturada, a chegada de Trump ao poder corresponde a uma forte possibilidade de destabilização da vida como a conhecemos. E a vida como a conhecemos, mesmo que não corresponda ao “melhor dos mundos”, de Leibniz, não parece ser tão insuficiente que mereça ser trocada por outra a que pode corresponder pouca ou nenhuma melhoria. Para alguém como o Rui, que vive de certo modo outra vida, nas margens mais ou menos confusas da sociedade, Trump pode representar um possibilidade de mudança efectiva. E mesmo que seja uma possibilidade remota, o Rui tem – aparentemente – muito menos a perder com a mudança do que eu. E o Rui, estando ao lado do sistema que é incapaz de lhe prover um tecto, sente que Trump, também ele de algum modo estranho ao sistema, o representa, politicamente, muito mais do que um político de carreira. A possibilidade de fazer um reset ao nosso modo de vida e esta empatia por alguém fora do sistema faz com que Trump tenha muito mais apelo para o Rui do que para mim. Se o Rui pudesse, teria votado Trump. Não porque acredite em Trump ou confie nele, mas porque a vitória de Trump corresponde à derrota do sistema. E mesmo que a derrota do sistema não corresponda a uma vitória do Rui, o Rui acha que se tem de começar por algum lado, e que a aposta vale a pena. Eu não tenho como o contrariar nisto. Afinal, sou parte interessada. Ainda tenho algo a perder.

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

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