Sinónimos de configuração moderada

 

No labirinto cada vez mais laborioso da palavra entram formas de aparente refinamento gramatical mas que nada acrescentam ao já denominado estado das coisas. Vamos elaborando anglicismos, muitos, dado que os galicismos se perderam quase até à extinção, e angariando para a língua novas composições bastante intrigantes. Algumas, que com o Acordo Ortográfico e o manejar de várias línguas de uma “cintura” de códigos encriptados, assinalam a nova linguagem que vai definindo as suas regras, rasando já uma certa algazarra de Torre de Babel e, não raro, damos por nós a procurar compô-la na sonora formulação de algo que se entenda. Sabemos o quanto o som desenvolve o cérebro, muito mais que a imagem que o torna compassivo e sem a mesma alternância plástica.

Na torrente, na cascata, na sede, na turbulência da informação, no uso indeterminável de signos linguísticos, no buscar de interjeições que despertem tudo em nós, quase não temos alucinações de outra ordem senão auditivas, que eram também muito comuns nos profetas: todos eles ouviam coisas, chamamentos, mensagens, todos tinham a informação disponível por meio da oralidade de uma voz que lhes ditava e mandava fazer coisas, o que se via não era demasiado relevante, ao ponto da própria voz de Deus ser apenas isso – uma voz. Moisés tinha de tapar o rosto, a voz era tudo, e ela indicava numa língua o Verbo que estes homens diziam escutar.

Sempre que a imagem era referenciada ela aparecia-nos não tanto como transcrição mas como sonho. A visualidade era o que se relatava dos sonhos; ora os sonhos são mais abstractos do que a provável e extraordinária voz de Deus. Dir-se-ia que a legenda da nossa época é desmesurada, dado que a palavra serve agora a imagem como se de uma versão do dizer e da comunicação se tratasse. E pode ser entendido como a agonia de uma componente linguística face ao martírio de ver a todo o instante, e, o não ser-se mais capaz de um estreito espaço onírico que se recrie em nós como necessidade estrutural.

Mas dado que a época está bastante eufemística vejamos alguns “ternos” exemplos:

Aborto – interrupção voluntária da gravidez.

Gangs étnicos – grupos de jovens.

Fábricas – unidades produtivas.

Analfabetismo – iliteracia.

Contínuos – auxiliares da acção educativa.

Operários – colaboradores.

Primeira e segunda classes – Conforto e Turística.

Crianças mal educadas – comportamento disfuncional hiperactivo.

Cego – invisual ( felizmente não há inauditivo para surdo)

Cábula, mau aluno – criança de desenvolvimento instável.

Eis então pequenos exemplos de designações improváveis mas que representam a compacta e estruturante capacidade que a linguagem produz para se travestir. São quase estruturas que se não forem pronunciadas com um certo ritmo podem produzir uma ressonância caricata face ao que anunciam. Mas esta extrema preocupação com as coisas simples fez torná-las estranhamente complexas, vindo da máxima proposição: simples é pobre! Pois bem, nada melhor então que enriquecer as designações, não tanto pela via criativa do barroco luxuriante mas pela via correctiva de um pensamento socialmente asséptico e polido.

Ora as pessoas querem adaptar-se ao último “grunhido” da espécie nem que seja para nele se inserirem, inserir estando, inserir ficando e, numa constatação crescente, vemos que elas depressa se adaptam mas algo fica sem muito significado: a carga vinculadora da palavra – ela deixou de fundar uma realidade – e a palavra mágica, a que curava, abria em nós canais, estreitava todo o ciclo dos encontros, foi rompida como se dela nem conhecimento haja. O que se diz, tanto pode ser aquilo como outra coisa. Ou diz-se e desdiz-se na mesma linha de pensamento, a linguagem não representa a sua origem primeira: ser um pacto que acrescente ao Homem mais Humanidade. A linguagem deixou de servir a causa, esse sopro primeiro, agente divino em nós, por isso que falhar para com ela seria a verdadeira falta de cada um.

Perdendo o seu dom maior creio que se pode pensar na corrupção da estrutura fonética tocada por funções que são agora tão vastas como os canos de esgoto gigantes das Nações. No meio da cidade de Lisboa, aberta à Babel, os restaurantes escrevem não importa como os menus que os não importa quem hão-de tragar, em cada recanto se assiste ao improvável, e, a antiga solidariedade de grupo que num processo de oralidade gratuita alertava o outro, dissipou-se. Nem uma “ASAE” linguística passa por ali!

As modalidades reformistas deviam ter tido sensibilidade inventiva para uma nova alvorada de tratamento compensado para as novas classes que saíram da mordaça dos séculos. Eles que fizeram as leis e aplicaram-nas, com muito se perderam, e creio mesmo que o grande cansaço mental a que parecem estar sujeitas se deve à ânsia de se adaptarem ao inverosímil que passa a ter carácter de modelação imediata. Nunca tanta gente se entendeu tão mal em locais estreitos como a vida pessoal e nunca o discurso esteve tão dirigido para os mesmos indicadores de interesse que são a economia e a diversão: ora são áreas onde a linguagem se perde caso não haja uma vigília muito grande e uma atenção permanente.

Creio que se deixou para trás aspectos como a retórica que o Direito possuía mas que a máquina de fazer advogados, engrossando o manto engordurado da Justiça, não deixa. E não tenho dúvida que se queremos que alguém fique derrubado isso se fará por uma certa oralidade onde falta a coragem a qualquer condenado para escutar o veredicto. Com tão pouco atraente panorama público liquidamos os dias pondo-nos em silêncio ou então tentando escutar de forma parcimoniosa o que cada palavra quer dizer e mesmo que não queira dizer nada e mesmo que a ponhamos nos locais e formas mais desaconselháveis à nova oralidade, elas podem ser benéficas e transparentes, elas podem fazer-nos bem. Há cada vez mais sons que nos matam, as imagens são mais fugazes e matam tão menos que podemos ver atrocidades de forma natural.

Terrorista é uma palavra que evolui… muitos são assassinos apenas e em cada um existe uma natureza bastante organizada. De fora parece-nos “comportamento sociopata desviante”, aqui convém não ser tão eufemístico dado que nos pode literalmente cair em cima em toada gigantesca. Apelá-los-íamos de “monstros” mas todos os dias existem homens que matam vizinhos, mulheres… o país transformou-se num campo de batalha quotidiano a que de forma bastante concisa se aplica a expressão: carniceiro.

Seria então sinónimo, vigília permanente, de separação: guardar distância do “coro dos loucos” que, numa ânsia de se livrarem do mal de ser, se adensam em ritmos de conversas desenfreadas, intermitentes. Seria este sinal o signo da nova consciência, o reverter ao silêncio esta esfera da psicótica alucinação de termos, do que nos explicarem em todas as direcções sem o mandato prévio do estritamente necessário, mas isso, esvaziaria talvez ainda mais a onda de choque que é a rede dos discursivos. Dorme-se mal porque não se sonha, o sonho paralisou e sem determinadas funções ficamos exangues. Inventar não é mentir nem adulterar o real: é acrescentar ao real outra substância e isso é o trabalho criativo que não deve recriar uma só das nossas inferiores fantasias. Mas como as esferas foram ameaçadas por roedores de fazeres à solta, nós prendemos as hastes a outras fontes, não vão elas ser esmagadas pela inconsequência de certas finalidades. E mais uma vez só o poeta poderá escrever isto:

 

Sem dizer o fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não ervas. O vento é fresco; sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que o vento. Tudo o que sei já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o caminho. Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o próprio caminho. E com as palavras de vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

António Ramos Rosa

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