Reflexões lexicais

A língua, elemento altamente contorcionista do aparelho fonador, gerada e não criada, consubstancial ao som, por ela todas as coisas foram feitas, e por elas feitas, e por elas começadas, de novo há-de aparecer no cimo das Nações para julgar os vivos e os mortos. 

O Acordo Ortográfico a um primeiro instante pouco atencioso, bloqueia: bloqueia quem de outras fonéticas, e sons e signos, foi gerando a matéria das suas fundações, mas não deve bloquear quem não tem termo de comparação, pois tudo o que se fixa como regra é indiscutivelmente fácil de apreender. Mas nós que somos de muitas camadas de evolução fonadora ficamos pouco à vontade, pois que de nós ninguém se compadece. Nós, que somos ainda da geração do Crepúsculo dos Deuses – filhos deles – portanto, filhos de Deus, vamos assistindo à vinda do Filho do Homem e estas coisas requerem ajustes, tais como a modificação da primeira origem que passa por aperfeiçoar ou mesmo reduzir a complexa estrutura de um sistema que nem sempre serve bem a causa a que se propõe. É também por causa da palavra, de Babel ,que tudo se tornou subitamente mais isolado.

Talvez que a primeira sensação de bloqueio venha justamente da severidade espartana da queda de caracteres, como se ruíssem impérios a partir da pedras angulares, caracteres minguados, desajustados, falta de caracteres, que diminuem o carácter de uma língua. A língua é noção de fertilidade fazendo alma no ser e ela será sempre materna ou não será: ela fica por isso muito bela na sua progressão germinal, na ortografia nunca sentimos ser de mais os signos léxicos – os hífens, as cedilhas, os apóstrofes, as reticências, as vogais, as consoantes mudas, o desalinho, a orquestração, a composição, a arte visual do seu grafismo. Tirar caracteres é amputá-la, facilitando até a confusão entre sinónimos, é reprimi-la. Ora a Língua não pode jamais ser reprimida, quanto muito acrescentada. Esta sistematização de amputação sistemática parece até uma queda da linguagem num local qualquer, uma maneira insidiosa de a instrumentalizar, parece que se perdeu a sensibilidade geradora de realidade manifesta que só ela transporta. É por isso que parece também desprovido de sentido o muito que se diz, o muito que aflitivamente todos querem dizer antes que acabe o tempo de não mais se poder fazê-lo. Estamos todos à beira de uma catástrofe alfabética com lesões cerebrais de tal ordem gigantescas que não sabemos prever as suas consequências. Fomos construindo matéria a partir dela – Ovo Cósmico – na medida em que acrescentamos pela linguagem toda a forma de ajustar a nossa própria dimensão… Talvez, sim, a Língua seja barroca, fractal, gasosa, líquida, fogo, terra… a Língua não é um implante: caem-nos os dentes, outros nascem, a língua ninguém a perdeu nem achou.

Bem capaz pode ainda ser que o aparelho fonador tenha os chamados” dias contados” em sílabas, números, e marés, e que míngue tanto que recue o dom da fala. Mas enquanto o ar nos der à entrada da vida o primeiro som, hei-de dela lembrar o Grito! Ela associa-se ao primeiro fenómeno vivido, escutamos a mãe – a mãe grito – choramos – abrimos o ar – gritamos por fim. Nascemos foneticamente preparados para a linguagem e é no primeiro som nascente que fixamos o fonema e dele partimos para a fala: procuramos o som, a voz da mãe, e não a sua forma, escutamos latidos, gemidos e risos, sabemos da vocação de criar laços tão gigantes como frases. Mas será que a nova humanidade se lembra deste registo? Não, o nascer asséptico implantou um clone adiado, a cesariana matou a forma do “nascido para falar”. Há grito? Há som? Há gemido? Não há. E curiosamente oiçamos eles falando (novos seres): o que entendem da articulação verbal das suas linguagens? Muito pouco, se estivermos atentos não há paralelo com o tempo da Linguagem, que, como é sabido – eles falam – mas por Acordos, que não acordam como nós tantos lados importantes do dom da dita linguagem, que poderá ser agora à nova luz da silhueta mundial até um desajuste.

Dito assim, apenas desejei acrescentar a esta discussão um ponto mais na ordem das coisas pensadas e, observando como os mudos, o mundo, sei que algo grave para nós, últimos herdeiros de uma vontade feita pela palavra, está objectivamente a acontecer. Não sabemos nada de como se vão adaptar as funções. Imaginemos um mundo telepático, preciso, mais filtrado de leveza. Pode ser que sim, que seja este o caminho, mas a nós faltam as peças desta futura construção, não somos consensuais e não temos de facto nenhuma razão para sê-lo. Deixem-nos a herança de um sonho que passou, pois que não será possível derrubá-lo. Estamos demasiado velhos para orientações e suficientemente sábios para reflectirmos as coisas, a nossa vida vai ser demonstrar que não passámos nem de moda, nem de tom, e que, se guardamos intactos todos os verbos, é por que onde tudo muda, é preciso algo que não mude e esses são os construtores da memória. Ninguém se vai lembrar dos que fazem a subtração alfabética e que reduzem a implante o que todos conquistámos gritando, dizendo até a voz nos doer.

Não estando na sintaxe dos modos e dos tempos, acresce informar que a inventividade não se rasura com bisturis orientados nem com tesouras que permanecem afiadas como em tempos de censura, e na língua, como no amor, retirar é uma falta grave: pese embora o ganho dos línguístas em assuntos da matéria, esses bens ficam para os números que precisam ter a beleza abstracta da sua função: dinheiro será por fim uma mera sigla em que até o número desaparecerá e a palavra que produz, será apenas uma ordem.

E, findo o acto, o pano cobre o palco e nestas coisas estranhas acontece pensar da saudade se delas nos esquecermos – das palavras – de como nos fizeram companhia quando todos levaram os seus tristes acordes para outro lado, de como por elas quase fomos mortos. E depois, por elas, ressuscitámos: pensamos na intrigante doença do esquecimento e no banho de ninguém a ser sujeito, e de como continuar, se tal mal nos der a paz de esquecer.

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