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Nasceu em Macau, tem 35 anos e organiza festas ou trabalha como DJ desde há mais há mais de 16 anos.
“Era uma loucura”, diz, “tinha uns 16 anos, era o tempo das ‘raves’ e havia muitas festas. Fiquei admirado com a música e a paixão por isto começou aí”, confessa Gordon, explicando ainda que “foi nessa altura que a música electrónica primeiro se fez sentir em Macau”.
Foi há quase 20 anos e, na altura, “não havia dinheiro para os pratos e a misturadora”, diz Gordon.
Com uns amigos juntaram algum e assim conseguiram comprar o primeiro conjunto de mistura. Aí surgiu o Kit Leong para os orientar.
“Posso considerar o Kit o meu mestre. Ensinou-nos a misturar e a organizar festas”.
Não é fácil organizar festas. A falta de espaços é o principal problema que Gordon encontra. Mas tenta.
“Ando sempre à procura de um local que ninguém se tenha lembrado para organizar uma festa. Mas geralmente acabamos sempre no LMA ou no Kam Pek”
Antes trabalhou na extinta Lótus (no Venetian) mas desde que o espaço encerrou tem agido por conta própria.
A atracção pela música fez com que desistisse da escola cedo no final do secundário mas admite voltar a estudar um dia
“Talvez venha a estudar para engenheiro de som ou algo assim”, confessa.

Álbum para breve

“A minha música preferida? Techno”, diz Gordon sem denotar a mínima dúvida.
“Começou com o Derrick May, o lendário DJ do techno de Detroit”, explica.
Mas para além de passar o que os outros produzem, Gordon dedicou-se recentemente a produzir um álbum de originais mas recorrendo a instrumentos antigos.
“Queria instrumentos electrónicos a sério”. Encomendaram-nos e aguardam com alguma ansiedade.
“Mandámos vir a Roland TR e o velhinho Mother 32 da Moog” diz, híper animado.
“Estamos a preparar um ‘live set’ e esperamos editar um vinil também com 10 faixas.” O trabalho deve estar concluído ainda este ano mas lastima a falta de apoios. Todavia, desconhecia o programa do governo de apoio à produção de álbuns.
“Concorri uma vez ao Fundo as Indústrias Culturais”, disse, “mas fiquei desmoralizado com o resultado.” “Disseram-nos que não era negócio”, explica. A ideia era montar um estúdio num prédio industrial para formação musical, gravação e com um espaço para apresentações ao vivo. “Tipo o “Boiler Room” da Mix Mag”, percebe? Mas isso para eles não era negócio.”
Para Gordon não existe um verdadeiro interesse em apoiar os artistas locais.
“A ideia que corre no meio artístico é que se não tiveres grandes contactos no governo nunca vais conseguir apoio nenhum”, lamenta.
Por isso, não pensa concorrer a fundos. A solução é ir tentando por ele mesmo.

Terra aborrecida, sem cultura

“Qualquer dia, vou para Berlim”, desabafa Gordon quando começámos a falar da vida em Macau, “pois talvez lá consiga desenvolver-me”, diz.
“Macau está para lá de aborrecido”, diz, atribuindo culpas à falta de cultura e à incapacidade dos locais em se aprimorarem.
Em relação à falta de cultura, Gordon atribui grande parte da culpa ao Governo.
“Apoiam pouco artistas como eu. Acham que música techno e electrónica é igual a drogas.”
Propusemos imaginar-se no lugar de Chefe do Executivo. “Mais cultura e mais apoios para quem a pretende desenvolver”, diz sem hesitar. “Percebo que os casinos façam falta. Mas não deixava abrir tantos. Prejudica a cultura”. “Não temos entretenimento, não temos cultura. As pessoas vêm para aqui apenas para jogar”, lamenta.
Mas a dificuldade é quando artistas internacionais lhe pedem para lhes mostrar sítios pitorescos que revelem a cultura local.
“Já não sei que dizer”, desabafa, “digo-lhes que Macau é só casinos e pronto”, explica Gordon que resume dizendo que ,“não temos orgulho em mostrar a terra. A vida nocturna é atroz. Os bares, horríveis… até os karaokes, a maioria tem maus sistemas de som. As pessoas de Macau não pensam muito no que fazem.”
Estávamos a entrar no cerne da questão. Mas a culpa seria apenas do Governo ou as pessoas também terão algo a ver com isso?
“Não se preocupam em fazerem bem”, diz Gordon em relação aos locais.
“Abrem negócios por ouvirem dizer que fazem dinheiro sem saberem o que estão a fazer. Passados uns meses já estão a passar o espaço”, indica.
Para o DJ, “as pessoas deviam preocupar-se mais em estudar os assuntos.”
“Temos internet, mas nem isso usam. Não há desculpa”, lamenta-se.
“Precisam de abrir a cabeça e deixar de ser preguiçosas”, conclui.

Nas chinesas não dá

Voltávamos à ‘movida’ de Macau, ou à falta dela. Com tanta gente nova em Macau porque não existe um seguimento mais forte da cena underground?
“Porque quando eu era novo não havia EDM. Era só música a sério”, diz.
“Às vezes vêm uns miúdos às nossas festas mas acham aborrecido.”
Será falta de promoção? Porque não levar as festas às escolas?
“Só se for na Escola Portuguesa”, diz Gordon sem hesitar.
Quisemos saber porquê.
“Conheço bem as escolas chinesas. Tentei muitas vezes. Só querem os estudantes a estudarem mais. Não fazem festas. Com eles é mais jantares em restaurantes chiques ou alunos a cantarem modinhas locais. Só a Escola Portuguesa teria atitude para uma coisa dessas”, e prometeu ir mesmo reflectir sobre o assunto.

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