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No Domingo passei um bom serão: fui assistir ao show do Patuá e diverti-me imenso.
Ao longo da peça fui também ganhando motivação e ideias para temas que poderiam ser aqui abordados na minha coluna, a qual – caso o caríssimo leitor ainda não se tenha apercebido – passou a ser mensal.
Não vou, no entanto, fazer aqui nenhuma crítica à peça “Unga Chá di Sonho” – para isso já basta a habitual apreciação detalhada do colega Leocardo que, aliás, já se encontra disponível no seu blog.
Da última peça do Dóci Papiaçám di Macau quero apenas referir o seguinte: uma vez mais, manifesta a obsessão que nós, antigos residentes de Macau em geral e Macaenses em particular, temos pelo passado.

* * *

O que tenho para dizer vem também na sequência de uma pequena discussão que tive no Facebook com conterrâneos meus quando um ilustre amigo nosso fez um post sobre a ameaça do eventual crescimento urbano para os lados de Coloane e a perda da “alma de Macau”.
Fui ingénuo ao ponto de afirmar publicamente que se devia ter mais visão do futuro, já que existem recursos naturais em Henqin e Zhuhai, que ficam right across the border, e que havemos de ter isso em consideração.
Uma vez que, se Coloane é para mim ao virar da esquina mas, no tempo dos meus avós, ficava longe e era a terra dos piratas e gwai chi lous (*), provavelmente para o meu filho, quando for crescido e as fronteiras com a China forem mais permeáveis – ou até inexistentes – Macau será apenas uma pequena parte de uma grande área metropolitana composta por Hong Kong e pelos municípios de Zhuhai e Shenzen.
De resto, este assunto foi já por mim abordado aqui anteriormente. (**)
Pelo que encaro a actual transformação urbana de Macau com naturalidade e de forma objectiva – não significando necessariamente que goste ou que sinta que esteja tudo a ser feito da melhor forma.
De resto, Macau está em mutação e crescimento territorial desde o século XVI – trata-se de um processo contínuo que teve os seus surtos e ondas, com altos e baixos e intensidades diferentes.
Portanto, nessa perspectiva, o que se está a passar não é forçosamente anormal.
Mas isso pouco importa: naturalmente o meu ponto de vista não foi aceite pelos guardiões da “alma de Macau” e, para evitar o típico escalating fire das redes sociais – onde as pessoas se pegam e se insultam a torto e a direito – deixei morrer o assunto.
Compreendo que o facto de sermos portugueses não deixará de ter o seu peso nessa coisa toda.
Continua presente o fantasma da mudança de soberania e, talvez também fruto de tudo o que se passou com as antigas ex-colónias portuguesas e do trauma daí resultante, o contínuo receio que temos de perder o que se construiu no “passado” – essa tal coisa que recordamos obcecadamente com a típica saudade lusa.

* * *

Também gosto de falar do passado de Macau, sobretudo quando na companhia de maquistas mais antigos que viveram um Macau que nunca vivi e que procuro visualizar também com o auxílio de fotos antigas que, de quando em quando, saboreio com gosto.
(E por falar nisso, vou amanhã ligar ao Dr. Leôncio, que até conheço mais ou menos bem, para ver se ele me passa algum chá.)
No entanto, sou incapaz de afirmar que “aquele” Macau do passado – seja ele qual for, já que todos vivemos um passado diferente, num tempo diferente e de forma diferente – é que era o verdadeiro Macau, o que continha a “alma de Macau” – whatever that means.
Não posso com esse discurso pois sou incapaz de aceitar que se cristalizem conceitos e que uma determinada ideia da cidade – pertencente ao passado – seja utilizada como critério absoluto do que é, ou devia ser, a essência de Macau.
Isto para mim não existe.
Mais,
Fico profundamente aborrecido e não tenho pachorra para aqueles que, afinal, analisando bem as coisas, sabem apenas falar do passado, do presente têm uma opinião crítica que já se tornou lugar comum e não traz novidade nenhuma – o trânsito, as ruas cheias de gente, a poluição e todas essas coisas que, ainda que sejam verdade, estou já cansado de ouvir – e do futuro não têm qualquer tipo de ideia ou visão.
Portanto, que tal pararmos um pouco com essa atitude? Quer se goste, quer não, o passado pertence ao passado. Já morreu. É interessante recordá-lo, mas apenas até certo ponto – e de forma construtiva.
Ora, pensemos antes no modo como devemos educar os nossos filhos para que determinados valores característicos da nossa identidade – e do nosso rico passado – não se percam no futuro.
É que nesse aspecto quer me parecer que pouco ou nada está a ser feito pelos ilustres que vivem frustrados com o presente e passam o tempo a falar do passado.

Sorrindo Sempre

Faz frio? Fecha-se as escolas.
Chuva forte? Fecha-se as escolas.
“Filho, hoje não tens escola, está o sinal de chuvas fortes.”
E o menino, feliz da vida, salta da cama, liga a televisão e passa o dia a ver desenhos animados.
Caríssimo leitor, não sei se está a ver a gravidade da coisa.
Afinal o símbolo da RAEM não é a flor de lótus, planta que nasce humildemente no substracto lodoso e que vai lutando e subindo até se chegar à superfície da água onde se transforma numa linda flor?
Onde andam esses valores?
Já o disse aqui e volto a dizer: andamos a criar flores de estufa.

(*) Malfeitor que rapta crianças.
(**) “Compras no Tin Un ou no Carrefour”, edição de 07.08.2015 do Jornal Hoje Macau.

Compras no Tin Un ou no Carrefour

1 COMENTÁRIO

  1. Os defensores do passado (ui di VIVO)

    A destruição da cidade antiga de Macau, da qual hoje apenas restam fragmentos desconexos, não era uma fatalidade trazida pelos “ventos da história”. Foi uma opção.

    No entanto, os fragmentos deste passado, atacado desde a década de sessenta do século XX, de forma metódica, em determinados momentos frenética, tiveram ainda mérito suficiente para justificar uma classificação como Património da Humanidade.

    A “obsessão pelo passado”, de que fala André Ritchie, é talvez um sintoma de desapossamento; uma urgência sentida por quem entende a cidade como território cultural, algo mais que um lugar de passagem ou de especulação financeira; será talvez uma reacção a um exílio imposto dentro da nossa própria casa.

    Depois de décadas de destruição sistemática e substituição de um tecido urbano no qual permaneciam sedimentados os contributos e vivências de séculos e culturas diversas, tecido urbano esse demolido para dar lugar à rentabilidade especulativa da construção anónima, o que resta hoje é tão pouco que qualquer tentativa de preservação actual peca apenas por profundamente minimalista e tardia.

    Imaginemos por um momento o Largo do Senado ocupado por torres de habitação e comércio. De seguida imaginemos o antigo bairro de S. Lázaro integralmente ocupado por blocos residenciais. Absurdo? Não. Era a “visão de futuro” daquela época, que não vingou apenas porque os “defensores do passado”, com especial mérito para Francisco Figueira (1934-2009), intercederam com tenacidade, junto do Governo, por uma perspectiva cultural do desenvolvimento urbano de Macau.

    O pouco que estes defensores do passado puderam preservar garantiu uma presença mínima da “alma de macau”. “Whatever that means”, desabafa André Ritchie. Sem anglicismos podemos talvez dar uma ideia do que significa: a cidade de Macau enquanto materialização de uma história única e irrepetível de encontro de culturas. A coexistência de espaços e modos de fazer e de viver a cidade próprios de duas civilizações profundamente distintas.

    Quando em 1978 foram aprovadas as primeiras nomeações para a lista do Património da Humanidade, extensas áreas da antiga cidade cristã e do antigo bazar chinês teriam potencial para serem integradas numa proposta de nomeação a apresentar à UNESCO.

    A antiga Comissão de Defesa do Património Urbanístico, Paisagístico e Cultural de Macau, criada em 1976 e presidida por Francisco Figueira, não teve no entanto força, nesses tempos iniciais, para evitar a demolição da antiga Avenida da Praia Grande e de outras áreas de interesse patrimonial. Teria sido impossível a preservação? Não. Foi uma opção deliberada, que teve por base uma “visão de futuro” para a cidade.

    André Ritchie vislumbra hoje o futuro em Zhuhai. Não é original. Há cerca de quarenta anos apontava-se a especulação imobiliária de Hong Kong como o exemplo a seguir. A receita, ontem como hoje: demolir para rentabilizar.

    O futuro que então se perspectivava aconteceu no passado e está hoje em degradação. São os diversos não-lugares, ruas atrás de ruas ocupadas por construção indistinta. Haverá aí qualquer possibilidade de pertença? Pode ser visitado na Rua do Campo, na Avenida Avenida Horta e Costa ou na Rua do Almirante Sérgio esse futuro radioso feito de sombra, grades e automóveis. Fatalidade? Não. Foi uma escolha.

    Vivemos hoje uma nova fase especulativa frenética na cidade de Macau. A alegada falta de espaço, teoria repetida à exaustão, mesmo quando durante décadas existiram aterros desocupados, está hoje de novo na ordem do dia do debate urbano. O “eventual crescimento para os lados de Coloane” será inevitável? Cremos que é apenas uma opção. Cabe-nos aprender com o resultado das escolhas do passado.

    Numa teoria de integração metroplitana, André Ritchie defende que “existem recursos naturais em Hengqin e Zhuhai, que ficam right across the border, e que havemos de ter em consideração”. Estes recursos justificariam a ocupação de Coloane. A “visão de futuro” parece então passar pelo entendimento de Macau como um bairro de Zhuhai… Mas mesmo os bairros suburbanos precisam dos seus espaços verdes.

    A perspectiva de que num futuro, mais ou menos próximo, as fronteiras entre Macau e Zhuhai deixarão de existir reforça, muito pelo contrário, a noção de que a falta de espaço, que parece justificar toda a destruição presente, é apenas circunstancial e temporária.

    A “obsessão dos macaenses pelo passado” é talvez o único conceito novo exposto por André Ritchie… há bem pouco tempo muitos defendiam a demolição da cidade. Mudam-se os tempos… mas nem sempre se mudam as vontades.

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