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Nádia

Chamam-se Zungeiras, ou Quintadeiras, e são mulheres que percorrem as ruas de Angola de cabazes à cabeça. Vendem fruta, produtos de cozinha, alimentos, roupa, sapatos. Foram proibidas de o fazer. Mas continuam. E, consigo, continuam os encantos que transmitem a quem passa ou a quem as vê através de uns novos olhos.
Foi o caso de João Rodrigues, fotógrafo português a trabalhar em Angola, que retratou as mulheres zungueiras através da sua lente, simplesmente porque a sua forma de vida o cativou.
“Acho que, por aqui, a mulher zungueira é vista como algo perfeitamente normal, acho que é tão normal que só um olhar de fora é que repara [nelas] e as observa. Mas é impossível não notar a presença delas. Estão em todo o lado”, relata João Rodrigues ao HM. “Decidi fotografar porque acredito que dentro desta mulher está muita coisa. Sim, este é um projecto com relevância antropológica, mas decidi fotografá-las essencialmente pelo que representam esteticamente: vejo-as muito femininas. E filosoficamente: quantas delas não dariam boas advogadas, gestoras, ministras?”

Isabel
Isabel

Formado em Psicologia, João apaixonou-se por fotografia há cerca de 13 anos, tendo tido já oportunidade para expor os seus trabalhos. A ida para Angola valeu-lhe uma colaboração com um colégio local, onde dá formação na área da Educação. Mas valeu-lhe também mais do que isso: uma viagem a um mundo que poderia perfeitamente ter passado despercebido por ser tão comum no quotidiano africano.
“Estive relutante em avançar com este projecto, porque me pareceu à primeira vista um cliché. Mas por essa mesma razão, por ser algo característico desta terra e por não ter havido ainda um grande enfoque artístico nelas, é que decidi avançar e fazer a sua apoteose”, explica ao HM, acrescentando que “ao fim e ao cabo, a ‘mamã zungueira’ acaba por ser um pedaço histórico da vida em Angola, bem como uma figura icónica da sociedade”.
João Rodrigues decidiu, então, falar com estas mulheres. Perceber os seus modos de vida. E tirar os seus retratos, numa espécie de “resenha poética da sua figura e da sua apologia política e social”. Algo que, confessa, nem sempre foi fácil. E que continua a ser um desafio.
“Continuarei a percorrer as ruas, perseguindo estas mulheres, pedindo a sua autorização para as retratar, coisa que nem sempre é fácil, uma vez que, por motivos vários, é-me negada essa intromissão, ora por não se quererem mostrar para fora dessa forma, ora por não se acharem bonitas na sua indumentária de trabalho.”

A busca pelo pão

Quando se procuram notícias sobre as zungueiras não é difícil dar de caras com os problemas que estas mulheres enfrentam, agora e desde sempre. Queixam-se de serem maltratadas pelos agentes federais – que, segundo a imprensa, lhes tiram o dinheiro e a mercadoria -, trabalham no meio do trânsito caótico de Angola, carregam pesos significantes na cabeça ao mesmo tempo que, muitas delas, carregam filhos nas costas ou na barriga. kk
“Aqui, na província de Benguela, até é tranquilo para elas. Os problemas com as leis estão em Luanda, onde há relatos de agressões e despejos”, explica João ao HM.
O governo angolano quis acabar com a actividade das zungueiras e passá-las para as bancas dos mercados oficiais. O braço de ferro ainda continua, especialmente nas ruas da capital, onde a proibição de venda nas ruas foi implementada com mais força. Mas João Rodrigues quer mostrar mais do que a questão política que ronda estas ‘mamãs’.
“Outra coisa que me espantou foi o espírito empreendedor delas”, diz-nos, enquanto nos encaminha para um vídeo que mostra as zungueiras a adaptarem-se aos tempos modernos e a permitirem o pagamento dos seus produtos através de terminais automáticos multibanco.
“Estas mulheres lutam por algo nobre e eu fiquei enternecido ao vê-las. A mulher zungueira é para mim uma empreendedora, uma lutadora, o sustento da casa e um binómio de amor. É uma mulher com inteligência e a perseverança de andar quilómetros com uma verticalidade única, fazendo o que acredita ser um trabalho digno. Uma mulher que simplesmente ganha o seu pão e o dos seus filhos mas com força para se manifestar, discordar das leis e fazer frente a essa repressão”, continua.

“Por motivos vários, é-me negada essa intromissão [da fotografia], ora por não se quererem mostrar para fora dessa forma, ora por não se acharem bonitas na sua indumentária de trabalho”

Macau? Talvez

Depois de um projecto em Cabo-Verde – onde João expôs, no Centro Cultural Português, na cidade da Praia, fotografias de portas da cidade, que davam conta das histórias e da alma de cada casa – e de um projecto sobre as mulheres obreiras da Índia, o caminho na fotografia é para continuar.
“[A fotografia] surge da necessidade de interiorizar o mundo e de expor o meu mundo cá para fora. Não posso ainda falar dos meus próximos projectos. Para já pretendo ficar [em Angola] um ano, mas um dos meus sonhos é conhecer os países de Língua Portuguesa.” zunga
África primeiro, diz, porque algo na cultura o puxa e lhe dá vontade de lá ficar. “Se uma porta se abrir”, Macau pode ser o próximo passo, até porque há, provavelmente, muito por fotografar aqui.
“Se fosse para Macau com certeza algo me iria saltar à vista. Não sei o que seria, mas antes de vir para Angola não sabia o que iria ser o meu alvo e ele apareceu. Em Macau à primeira vista o Jogo parece-me ser interessante, mas só um olhar profundo me faria decidir em investir num projecto”, diz-nos João Rodrigues, com a certeza de que, por agora, a ideia é continuar a dar relevo ao projecto da “Mamã Zungueira”, não só nos média, mas com exposições fotográficas e tertúlias. Tudo para que as pessoas não esqueçam as mulheres que “trocam, num escambo ordinário, a força dos músculos, a força lenta e cuidadosa da passada, pelo dinheiro”, como no diz. “Um dia as mulheres serão mais felizes. Um dia. Um dia ‘mamã’. Mas esse dia vai ter de esperar e o melhor é aguentar e aguardar verticalmente por ele.”

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