PARTILHAR
A residência consular – antigo Hotel Belavista – tem agora um espaço de sombra inteiramente feito de escadotes de madeira e atilhos plásticos. A ideia, pensada por Diogo Aguiar e João Jesus, foi montada por um colectivo de interessados em levar a arte mais longe. A organização cabe à BABEL

Sobre o pôr do sol singular que só da residência consular é visível, o HM esteve à conversa com dois arquitectos da LIKEarchitects, um atelier português sediado no Porto. Os dois dedicam-se àquilo que chamam de “arquitectura convencional”, mas o talento recai sobre um projecto de matriz mais interactiva, que se insiram no espaço urbano das cidades. E para Diogo Aguiar, em Macau, “é altura dos casinos retribuírem à cidade” a oportunidade que lhes foi dada para crescer, numa perspectiva de criar mais actividades relacionadas com arte e cultura.
Foi a pensar nisso que os dois arquitectos do atelier português prepararam, juntamente com os alunos do workshop que antecederam a inauguração da obra, uma peça interactiva feita de escadotes de madeira e atilhos plásticos. Empilhados de forma lateral, criam uma espécie de cúpula de sombra que permite aos visitantes entrar e sair por vários lados.
O workshop durou cerca de uma semana e a exposição inaugura hoje, podendo todos os interessados ver o pôr-do-sol debaixo de um conjunto de escadotes bem montados. A mostra estará patente na residência consular até 1 de Novembro e tem entrada gratuita.
Para chegar ao protótipo final, explica João Jesus, foi preciso um dia e meio. “Fizemos vários estudos da forma como poderíamos encaixar [os escadotes] com a premissa de não danificar o objecto e tentar criar espaços, explorámos vários tipos de encaixe de forma a alcançar o objectivo pretendido”, informou o arquitecto, em conversa com o HM. Este, acrescenta Diogo Aguiar, é “um trabalho colectivo”, que não conta somente com a assinatura do atelier do Porto.

Para tudo e todos

Os conceitos aqui postos em prática destinam-se a um público mais geral, ao transeunte comum, nada de “arquitectura para arquitectos”, como se diz de tantos edifícios de conhecidos profissionais. “Temos reparado que há uma grande identificação por parte das pessoas quando percebem que as coisas são construídas a partir de materiais que reconhecem”, conta Diogo.
Questionado sobre o facto de em Macau a construção ser um sector em constante crescimento, mas não haver uma aposta clara na arte e cultura, Diogo não tem dúvidas: o sector do Jogo tem que começar a retribuir à região pela oportunidade que lhes foi dada. “A própria cidade tornou-se refém desta proliferação de casinos e é o momento em que tem que reflectir e pensar no que é que pode pedir em troca às operadoras”, sugere Diogo. “Temos uns edifícios todos sumptuosos e depois ao lado uma massa cinzenta de edifícios de habitação por reabilitar e uma série de torres a nascer por trás. Foi um impacto de contraste”, confessa. Ambos os arquitectos consideram que existem, sim, intenções de fazer crescer estes ambientes na cidade, mas ainda “muito pontuais”.
Para a BABEL, a série de projectos MAP vem suscitar o interesse da população para a arte e cultura contemporâneas. Através de um programa vasto que inclui workshops, instalações, palestras, cinema e outros eventos, a ideia é, assegura a fundadora da BABEL, Margarida Saraiva, trazer a arte para a rua e permitir que as pessoas interajam com esta. Enfim, fazer com que a cidade alicie a mais do que passar de carro.

Arquitectura inconvencional

Embora os LIKEarchitects sejam um atelier de arquitectura, não dão prioridade à criação de projectos como os conhecemos. Antes, como explica Diogo, fazem projectos “não convencionais”.
E como se transporta este ideal para a materialização de uma estrutura? Através do emprego de objectos do dia-a-dia. Criam o abrigo de exposições, conferências e várias outras iniciativas. O repertório dos LIKEarchitects conta com poucas obras de arquitectura “convencial”, mas também com um prémio internacional na China atribuído a um destes projectos, no Idea Tops.
“Geralmente, é o cliente quem define o programa e, quando estudamos isso, procuramos encontrar um objecto que melhor responda às premissas do cliente”, explicou Diogo.
Por exemplo, em busca de algo para albergar uma exposição do artista Andy Wharhol – num centro comercial em Lisboa –, o colectivo optou por usar latas de tinta para servir de paredes à mostra temporária.
“Esta arquitectura mais experimental é resolvida através do protótipo, ou seja, parte da forma como o nosso trabalho começou”, disse Diogo. O trabalho destes jovens – na casa dos 30 – ganhou vida através da vontade comum de construir e fazer acontecer. Em Portugal, explica, “as coisas não têm a velocidade que têm em Macau” e é complicado um atelier tão recente pôr logo as mãos na massa de grandes projectos.
“Dedicamo-nos a projectos mais pequenos, em que a arquitectura possa ser, em grande parte, controlada por nós, incluindo o orçamento, o transporte e outras coisas”, continua Diogo.
São os “acontecimentos efémeros” que mais sentido fazem para estes jovens. Por quê? A razão é simples: “permite-nos experimentar muito mais, levar conceitos ao limite”, dizem. A ideia é tirar partido dos objectos e criar espaços completamente novos, que os próprios arquitectos desconheciam até verem feito. No entanto, é no curso de Arquitectura que está a base de tudo isto. “Trazemos da nossa formação muitos dos elementos e formas de pensar para o nosso trabalho”, explica João.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here