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A 10 de Julho de 1522 saiu do porto de Malaca para a China, Martim Afonso de Mello Coutinho, com seis navios, de que eram capitães ele e Vasco Fernandes Coutinho e Diogo de Mello Coutinho, seus irmãos, com Pedro Homem, Duarte Coelho e Ambrósio do Rego” segundo refere Marques Pereira. E com ele continuando: “Esta expedição, ordenada por el-Rei D. Manuel, é considerada pelos historiadores como a segunda embaixada de Portugal a este império” (à China). “Em 1521 D. Manuel procurava controlar o comércio com a China tendo concebido duas rotas para a pimenta, uma entre Cochim e Lisboa e outra entre Pacém e Cantão”. Já João Paulo Oliveira e Costa assinala: “Quando morreu, a 13 de Dezembro de 1521, D. Manuel I estava certamente convencido de que a influência portuguesa se estendera definitivamente até à Ásia Oriental. Mas quando o soberano despachava as armadas no seu reino do Extremo Ocidente, os acontecimentos precipitavam-se no Extremo Oriente; a política manuelina caminhava aí para o fracasso”.
A frota partira de Lisboa para a Índia a 5 de Abril de 1521 e como Embaixador do Rei D. Manuel à China ia Martim Afonso de Melo, o qual era fidalgo da sua casa e tinha o porte e entendimento para esta negociação. Fora nomeado para, após findar o trabalho de Embaixador, ser Capitão da fortaleza a edificar na costa chinesa, sem estar sobre a alçada da Índia, pois levava poderes semelhantes aos desses governantes. Para consolidar e aumentar os conhecimentos da construção naval que Fernão Peres de Andrade tinha trazido da China, pretendia-se aí construir um navio, para o qual seguia Manuel Mendes de Vasconcelos como capitão dessa futura embarcação. “A bordo da nau Conceição ia Martim Afonso de Melo e estava acompanhado pelos seus irmãos, Vasco Fernandes Coutinho e Diogo Melo (nomeado para feitor dessa fortaleza), um cunhado, Simão de Miranda e muitos criados que há muito serviam na família”, como escreve Marques Pereira.
Em Chaul, na Índia, Martim Afonso de Melo encontrou-se com Simão de Andrade, que deixara “a orla costeira chinesa, na monção de 1520, sem que se agudizasse a reacção chinesa, o que só aconteceu alguns meses depois” logo, “desconhecedor dos eventos ocorridos depois da sua partida”. E continuando com João Paulo Oliveira e Costa: “Simão de Andrade, certamente entusiasmado com o negócio que realizara e com a forma autoritária como se impusera, transmitiu na Índia a Martim Afonso de Melo uma imagem optimista da situação. E Martim Afonso seguiu viagem disposto a construir a primeira fortaleza na China, conforme lhe ordenara o rei” e esperava vir a encontrar Tomé Pires já regressado a Cantão.

A sombra de Simão de Andrade

Encontrava-se o Embaixador Tomé Pires em Beijing desde meados de 1520, ou Janeiro de 1521 como as fontes portuguesas indicam, à espera de ser recebido pelo Imperador Zhengde. Os memorandos que iam aí chegando relatando os distúrbios provocados por Simão de Andrade e os seus homens em Tamão, assim como a conquista de Malaca pelos portugueses, um porto tributário da China, colocaram em maus lençóis a Embaixada. Com o falecimento do Imperador Zhengde em 20 de Abril de 1521, logo foi esta obrigada a sair da capital, devido à suspensão obrigatória de todas as actividades e regressar a Guangzhou. Numa viagem muito lenta, só lá chegaram a 22 de Setembro de 1521, permitindo aos mensageiros da corte de Beijing muito antecipadamente entregar as instruções para o governo de Guangzhou, mas não trazendo ordem para prender a Embaixada.
Os anteriores desmandos de Simão de Andrade, de pura pirataria, criaram o primeiro equívoco grave nas relações com as autoridades locais, trazendo-lhes graves problemas pois tinham sido responsáveis pelo arranjar de uma solução forjada para a Embaixada de Tomé Pires ter podido seguir até Beijing. “A complexidade da questão deve ter beneficiado Simão de Andrade que, assim, não foi imediatamente atacado por forças imperiais, mantendo a prática dos abusos” como refere Gonçalo Mesquitela e com ele continuando: “O simples facto de tais factos sucederem implicava uma imensa responsabilidade das autoridades respectivas que, antes de um acto de força, a autorizar ou ordenado por Pequim, eram os primeiros a estar interessados em resolver a situação…”

A primeira batalha entre portugueses e chineses

Simão de Andrade deixou por volta de Setembro de 1520 a orla costeira chinesa sem ter esperado pelo regresso do Embaixador Tomé Pires, que por essa altura estaria na capital da China. Se a embaixada passou em Beijing quase um ano, ou apenas três meses, não há até agora como confirmar, e por morte do Imperador Zhengde teve que daí sair a 22 de Abril de 1521, só chegando a Guangzhou em 22 de Setembro de 1521, como diz A. Cortesão.
“Entretanto, antes de Tomé Pires chegara a Cantão Diogo Calvo, com alguns navios” segundo L. Albuquerque, mas Cortesão diz que chegou “a Tamão a nau Madalena, pertencente a D. Nuno Manuel, a qual viera de Lisboa sob o comando de Diogo Calvo. Outros navios se lhe tinham junto em Malaca, entre eles, um de Jorge Álvares que, no ano anterior, não pudera ir com a esquadra de Simão de Andrade por o seu junco ter aberto uma veia de água. Quando (entre finais de Maio e Junho) em Cantão foram recebidas as instruções enviadas de Pequim contra os portugueses, juntamente com a notícia da morte do Imperador, os chineses imediatamente se apoderaram de Vasco Calvo, irmão de Diogo Calvo, e de outros nossos compatriotas que se encontravam comerciando na cidade” A. Cortesão. E prosseguindo com este venerável historiador investigador: “Além de apreenderem alguns dos navios portugueses, os chineses, com uma grande armada de juncos, bloquearam a Madalena e outros navios nossos que se encontravam em Tamão, entre os quais dois juncos que, em 27 de Junho de 1521, haviam aportado com Duarte Coelho. Poucas semanas depois chegou Ambrósio do Rêgo, com dois outros navios”.
Luís Gonzaga Gomes refere: “Em 27 de Junho de 1521, Duarte Coelho chegou a Tamão, num junco, acompanhado doutro, pertencente aos moradores de Malaca, ambos fortemente armados. Ao saber do ânimo predispostamente hostil em que os chineses se encontravam contra os nossos, Duarte Coelho pretendeu sair, mas, verificando que os juncos que se encontravam no porto não possuíam armamento suficiente para repelir uma agressão, deixou-se ficar, para os ajudar a escapar e principalmente, pelo facto de Jorge Álvares, seu íntimo amigo, se encontrar tão doente, que veio a falecer, onze dias após a sua chegada…”
Segundo uma nota de João Paulo Oliveira e Costa: “Foram precisamente Ambrósio do Rego e Duarte Coelho que abriram as hostilidades junto a Cantão”.
E regressando ao que diz A. Cortesão: “Tantos eram já os tripulantes portugueses mortos em combate, ou aprisionados e depois chacinados, que nessa altura já não havia bastantes para todas as embarcações, de modo que Diogo Calvo, Coelho e Rêgo resolveram abandonar os juncos a fim de melhor guarnecer os três principais navios. Assim se fizeram à vela em 7 de Setembro, mas logo foram atacados pela esquadra chinesa. Contudo, conseguiram escapar, graças a um tufão providencial (, segundo Barros opina) que dispersou os juncos inimigos, aportando a Malaca em Outubro de 1521.” 17715P12T1
João Paulo Oliveira e Costa diz: “No ano de 1521, as águas de Cantão só foram visitadas por mercadores privados e pelos navios da feitoria de Malaca.”
Algo estranho são os cerca de setenta dias de perseguição das autoridades chinesas a estes mercadores até eles fugirem. Como conseguiu Duarte Coelho sepultar Jorge Álvares a 8 de Julho de 1521 em Tamão, onze dias depois da refrega? Questões que não vimos explicadas!
Segundo L. Albuquerque: “Duas semanas depois da partida destas naus, Tomé Pires e os seus companheiros chegaram a Cantão. Estavam irremediavelmente entregues à sua trágica sorte.”
“Do navio de Diogo Calvo ficaram presos, além de Vasco Calvo, sete outros portugueses e quatro servidores, os quais escaparam à matança por dizerem que pertenciam à Embaixada de Tomé Pires” A. Cortesão.

O triste fim da Segunda Embaixada

Voltamos agora à segunda Embaixada, com que iniciamos este artigo e que, de Lisboa fora enviada à China a 5 de Abril de 1521 pelo Rei D. Manuel.
Um ano após Martim Afonso de Melo Coutinho ter saído de Lisboa “com a missão de consolidar a amizade que julgava já estabelecida entre portugueses e chineses, e conduzir novo embaixador, pois tinha como certo que nessa altura Tomé Pires estaria de regresso” segundo A. Cortesão, de Cochim partiu em Abril de 1522 com quatro barcos e em Pacém carregou pimenta, tendo chegado a Malaca em Julho. Nessa praça, Martim Afonso de Melo tomou conhecimento dos incidentes ocorridos no Verão do ano anterior em Cantão. Acautelado em Malaca, aí reforçou a sua armada e juntou o junco comandado por Duarte Coelho e o barco Santiago capitaneado por Ambrósio do Rego (que já tinha sido feitor e provedor da Fazenda em Malaca), os mesmos que abriram as hostilidades contra os chineses em 1521 nas águas em frente ao porto de Tunmen.
Saiu a frota de Malaca no dia 10 de Julho de 1522 para a ilha de Tamau (Lantau). Levava Martim Afonso de Melo Coutinho ordem do Rei D. Manuel (que já tinha morrido a 13 de Dezembro de 1521 e agora era D. João III o Rei de Portugal) para ir “ao porto de Tamou, e procurando amizade com o rei daquela grande província, a China, edificar nele, ou noutro lugar que mais acomodado parecesse, uma fortaleza em que ele ficasse por capitão. Facilitava o negócio ter mandado Fernão Peres de Andrade um embaixador ao mesmo rei, que foi Tomé Pires; e não havia até então novas do que mal lhe saíra a jornada” segundo refere o Frei Luís de Sousa, nos Annaes de D. João III.
A 4 de Agosto de 1522 chegou Martim Afonso de Melo “à ilha de Tamou (Tamão), e entrou no porto acompanhado de Diogo de Melo, e Pedro Homem, com tanta confiança e descuido, como se entrara na barra de Goa. E foi na pior conjunção que pudera ser, porque em terra nadavam os chineses encarniçados na prisão do embaixador Tomé Pires e seus companheiros, e muito mais no roubo de seu fato e fazenda, que era muita e boa; e no mar corria a costa uma armada grossa da mesma província, por ser monção em que acudiam àquele porto navios de várias nações a fazer seu trato.” E continuando com Frei Luís de Sousa: “Procurou Martim Afonso tomar língua da terra; mandou um barco e outro ao general da armada. Não lhe tornando nenhum, entendeu que estava tudo de guerra, e que fizera erro em se meter no porto. Determinou sair-se ao mar largo. Não esperavam mais os chineses que ver o movimento que fazia. Tanto que viram que os nossos se faziam à vela, foram sobre eles com todo seu poder, disparando muita artilharia. Era o partido muito desigual, e acrescentou a desigualdade um desastre; deu fogo na pólvora do navio de Diogo de Melo, voaram as cobertas para o céu, e foi toda a gente ao mar, uns mortos, outros nadando. Era Pedro Homem tão animoso que lhe não tolheu a vista de tantos inimigos mandar alguns homens no batel a ver se podia salvar Diogo de Mello e foi parte a falta deles para ser acometido com mais ousadia dos chineses, e com menos dificuldade entrado. Era Pedro Homem de corpo agigantado, e de forças e ânimo igual. Pelejou de maneira, que se o não acabara um tiro de fogo, contra quem não valem forças nem esforço, pudéramos dá-lo por vencedor de um exército inteiro. E isto é certo, que tiveram tanto que fazer os chineses com ele só, e com o seu navio, que isso valeu a Martim Afonso para não se entenderem com ele. Assim vendo que não tinha outro remédio, (Martim Afonso de Melo) se fez à vela para donde viera, e chegou a Malaca em meados de Outubro do mesmo ano; e daí se passou à Índia na monção. E deste modo se malogrou também a segunda embaixada portuguesa à China.” Annaes de D. João III.
Jorge dos Santos Alves resume: “Nas duas semanas que se deteve naquela zona, os navios de Martim Afonso enfrentaram dezenas de juncos” e “incapazes de manter os adversários à distância sofreram a abordagem e então os combatentes portugueses foram literalmente submersos por vagas sucessivas de assaltantes.” “A armada chegou à China a 4 de Agosto de 1522, mas só se deteve aí 14 dias, retirando-se de seguida, deixando para trás dois navios afundados e um grande número de mortos, entre eles Diogo de Melo e Pero Homem.”
Num ápice de um ano, tinham falhado as duas primeiras embaixadas portuguesas ao Império do Meio e os chineses vencido duas batalhas navais.

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