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Apesar da onda de solidariedade que a situação grega e o referendo de domingo passado suscitou por toda a Europa, pode dizer-se que se apresta a saída da Grécia do Euro e muito provavelmente o desmembramento da União Económica e Monetária(UEM).
O clima negocial em Bruxelas e nas principais capitais europeias não é de modo a aceitar – uma negociação realista da última proposta europeia apresentada os gregos. A única resposta que se espera deles é a capitulação e a rendição, sem reservas, às propostas que os magiares da União Europeia afirmam ser a única forma de se estar no Euro e de se convergir com as economias ricas da Europa. Isto é uma política de absoluta austeridade, de contenção severa das despesas públicas, de emagrecimento do Estado Social, de desestruturação, a final, das políticas de coesão que haviam sido aprovadas pelo Acto Único Europeu de 1986.
É fácil tentar imputar responsabilidades pela ruptura negocial entre Bruxelas e Atenas mas elas dificilmente são atribuíveis a uma só parte. Não há neste jogo santos e mártires mas apenas poderes (de distinta dimensão) que jogaram aquilo que têm à disposição para pressionar o adversário e prosseguir os seus interesses e prioridades. No caso dos administradores da UEM a convergência artificial das economias, o equilíbrio orçamental a qualquer preço, o garrote da despesa pública não referido ao desempenho do PIB. Foi este conjunto de prioridades que a Alemanha conseguiu instilar no Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança da UEM (2012) e que conduziu ao estado presente de estrangulamento da economia da União, expresso nos baixíssimos valores de evolução do PIB nesta década, na ordem média dos 0.36%.
No caso da Grécia a ideia, porventura infantil, que as economias ricas da Europa estariam disponíveis para injectar significativos montantes de financiamento que permitissem ‘segurar’ o essencial do estado social, em nome de um abstracto e insubstantivo valor de solidariedade europeia. Tornou-se claro que a posição dos credores é apenas um ‘take it or leave it’ e que não existe – como nunca existiu – margem significativa para negociar as várias metas. É, porventura, dramático que um governo democraticamente eleito pelos seus cidadãos em Janeiro e cuja posição negocial foi referendada, maioritariamente nas urnas, no domingo, se veja derrotado por instâncias que não foram eleitas mas cooptadas pela burocracia tecnocrática que dirige os destinos da União Europeia. Mas a política internacional nunca foi justa e quase nunca correspondeu a exigências de ética e elevação moral. Apenas, porventura, à saída da Segunda Guerra Mundial sob a protecção generosa do exército norte-americano.
Assistiremos, assim, nos próximos dias, à rejeição da posição grega, em nome da solidez e coerência da posição europeia. Dando acolhimento ao clamor dos eleitorados dos países do Norte da Europa que têm pressionado os governos para recusarem novos auxílios e deixarem os gregos à sua própria sorte. Na sequência da ruptura, a Comissão Europeia implementará medidas, já programadas, de desancoramento da Grécia à UEM e eventualmente um programa de assistência humanitária de urgência. Digo eventualmente, porque tenho dúvidas que os 15 países que estão em sintonia quanto à saída da Grécia da UEM ainda concedam essa ajuda de urgência. É, imaginam eles, a última estocada no moribundo que apressará a sua agonia.

Os campeões da União Económica Monetária acreditam que cortando um dedo asseguram a sobrevivência do corpo mas esquecem-se da gangrena que tomou já conta dos outros membros

A saída da Grécia do Euro não é o fim mas é ao contrário a luz ao fundo do túnel. Permitirá ao governo grego, retomando a totalidade dos poderes soberanos sobre a gestão da economia, implementar as necessárias políticas económicas. Desde logo, a obtenção de socorro de emergência fora da União Europeia. A Grécia é o baluarte sul de defesa da Aliança Atlântica, uma peça essencial no seu dispositivo, num tempo de expansão do poder geoestratégico russo sobre os territórios vizinhos. É, também, um país vizinho da Turquia e essencial na contenção da ameaça islamita radical que está, pouco a pouco, a partir dos territórios que já dominam no Norte da Síria e do Iraque a sequestrar zonas do Médio Oriente que são vitais à defesa do Ocidente e ao aprovisionamento de matérias-primas.
Não é preciso fazer um grande exercício de imaginação para se perceber que os Estados Unidos não deixarão cair a Grécia na zona de influência da Rússia e da China. As ilhas helénicas dominam estrategicamente as rotas de navegação do Norte do Mediterrâneo e dão acesso ao também estratégico Canal de Suez. Mas ainda que a ajuda de emergência não seja totalmente assumida por Washington irão aparecer outros poderes disponíveis para cooperar. Isso era claro em artigo publicado esta semana no New York Times.
O segundo passo é a emissão da moeda nacional, o novo dracma, sob a tutela do Banco Central grego e a sua interligação à carteira de moedas internacionais. Retomando os poderes de gestão monetária que perdeu quando entrou na UEM, o governo grego estará agora livre para desvalorizar a nova moeda face ao Euro e ao dólar. O que irá estimular as exportações, o turismo (a principal indústria nacional) e a fixação de novos investimentos. Passará para a gestão nacional o controle da inflação, instrumento que tem sido mantido artificialmente baixo por condicionamento do Banco Central Europeu (entre 1% e 1.5%).
A situação da Grécia é muito difícil. Como referia o Prof. Jeffrey Sachs, da Universidade de Columbia, a economia grega encolheu 25% desde 2009, o desemprego atinge os 27% em geral e 50% na juventude. É ingénuo pensar-se que um terceiro pacote de assistência financeira ( o mecanismo ESM) irá resolver, significativamente, a aflitiva situação grega. Será um paliativo num doente já moribundo, destinado a assegurar o reembolso dos empréstimos concedidos pelos bancos alemães, franceses e britânicos aos falidos bancos gregos. Apenas uma pequena parte – menos de um terço – será destinado a aplacar a situação aflitiva dos segmentos mais depauperados da população.
Os campeões da União Económica Monetária acreditam que cortando um dedo asseguram a sobrevivência do corpo mas esquecem-se da gangrena que tomou já conta dos outros membros. As políticas em vigor no Tratado Orçamental estão desajustadas à situação presente da União. Foram criadas para responder a circunstâncias que já não existem. Se não forem revistas a União Económica morrerá e outros países sairão do Euro. É uma questão de tempo.

2 COMENTÁRIOS

  1. O Euro só veio dar cabo do sistema. Perdeu-se muito poder de compra, as pessoas cada vez tem menos que comer, não existe dinheiro pagar rendas, ter filhos na escola, pois mesmo não sendo na Privada precisa de comprar livros e isso sai caro.
    Acho na minha modesta opinião que deveria-moas sair do Euro sim.
    Seria entrar na Banca rota, mas Portugal já teve uma situação há uns anos atrás e levantou-se, assim iremos pagar dividas ao FMI, durante toda a Vida, isto implica os nossos filhos, vão ter que pagar pelos erros dos Governantes.
    Trás consequências graves todos temos noção disso.
    Mas hoje em dia 5 euros não dá para nada tudo aumenta, mas salários não, triste.
    Portugal deveria mesmo, se quer ver os nossos Jovens a regressar a sua Terra.

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