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Operiférico país que é Portugal tem cada vez mais o velado aspecto das «Ilhas do Encoberto» no imaginário, neste caso, no nosso imaginário colectivo. Eram estas Ilhas levantes que emergiam do fundo oceânico nas noites de S.João por volta do Solstício, sendo um fenómeno inteiramente natural devido à actividade tectónica das placas neste momento do ano. Ora as populações não tinham conhecimentos que tal as informasse e delas se criou um mito maravilhoso e terrível. Pessoa, sempre atento aos fenómenos do inconsciente colectivo e aos mistérios que o habitavam, até escreveu um belíssimo poema em sua homenagem: “– não sei se é sonho se realidade se uma mistura de sonho e vida… aquela terra de suavidade que da orla esquerda do sul se olvida… é a que ansiamos…. aí, aí, o mal não cessa não dura o bem…. mas, aí, aí, meu ser é jovem e o amor sorri. Não é com Ilhas do Fim do Mundo nem com palmares de sonho ou não que cura a alma seu mal profundo e o bem nos entra no coração. É em nós que tudo”.
Qual «Jangada de Pedra», que nos parece um pouco a «Nau Catrineta» ou a «Arca de Noé», estamos expostos a todos os ataques de forma tão sóbria, quanto nós encobertos por densas camadas de doce alienação. Aqui mesmo ao lado, mais exactamente em Almaraz, a cem quilómetros com a fronteira portuguesa, a central nuclear mais antiga de Espanha acaba de ser chumbada pela área de energia nuclear da Greenpeace por inexistência das mesmas válvulas que permitiu o acidente em Fukushima. Foi a partir daqui que se exigiu que todas as autoridades reguladoras aderissem a este sistema com carácter de urgência. Mas outras falhas são mencionadas no inquérito, tal como o risco de actividade sísmica para o qual não está preparada, desenhando-se assim, um problema de primeiro plano, cuja gravidade de uma ameaça indelével é tanto maior que a Grécia, o euro e a senhora Barroso, e o senhor y, x e b, na medida em que, com Grécia, com ou sem senhora, se tudo rebentar, também nada de relevante pode existir que valha a pena ser contado.
Chamados a manifestarem-se, os nossos queridos “hermanos” nem abriram a boca. Talvez até tivessem ali construído estrategicamente, com os ventos voltados para soprar para estas bandas… os ventos são óptimas locomotivas e, assim, se livrassem potencialmente de algo de muito indesejável, em parte, pois ninguém fica a salvo. Séneca teria pensado próximo disto caso estivesse agora a escrever este estranho texto. Os cínicos são muito lúcidos e não vagueiam nesta beberagem dos “Amigos para sempre”, ou seja, estão-se nas tintas, passe a expressão, para os seus vizinhos; nem um pedido de desculpa, ou uma desculpazinha de mau pagador, mau ventilador….
O Estado Português é um altar que ora está palrador, ora está devedor, ora está pleno de actividades paralelas, para chegar a tanta coisa, e certo anda que já ninguém se casa nem os ventos já puxam vela. No tempo dos Filipes, eles não ensaiariam em tê-la construído no estuário do Douro para haver mais aragem. Talvez já nem existíssemos num anteprojecto de Solução Final.
O facto de Portugal não ter esta energia, e com a gravidade do que se passa, o país seria receptáculo de toda a radioactividade em caso de desastre. As prioridades do país, exactamente como a dos loucos, são aleatórias, dependendo muito do entusiasmo do momento. Há o futebol, a Grécia, o euro, a crise, o Sócrates, os concursos, o Ambiente… –que é uma coisa que serve para ganhar ambiente – mas não há uma nítida percepção do que é uma prioridade, talvez porque esta paz amoleça a noção do indispensável e do acessório, ficando tudo confusamente misturado.
Este sim seria um tema para convidar os homólogos espanhóis, obrigando-os a sentarem-se a uma mesma mesa, discutindo em conjunto algo que afecta a todos e de forma urgente, grave, eficaz, mas a estrutura governativa que é uma coisa que está ali em funções de uma outra regência, quer esquecer o mau casamento com o país aqui do lado. E anda a vender coisas que se por acaso as válvulas não estiverem bem seguras lhes estragará o negócio. Portugal é isto: uma coisa meia à deriva, entre ventos e marés, acossado e sem soluções, que não seja o descolar pelo mar fora… ou submergir como as Ilhas Encantadas.
Estes aspectos que estão unidos à soberania precisavam de abordagens rápidas, e os cidadãos deviam ser informados de forma digna e com a devida consideração, infelizmente, isso não acontece num labirinto de formas que se estreitam até ao estertor da insanidade.
Para que existe um Estado? Ninguém sabe. Ele tomou o papel do nosso guarda-livros, e em matéria de soberania e defesa somos tão frágeis como entes isolados. Vivemos à beira de toda a indigência, de todos os perigos e ouvimos diariamente discursos alucinantes acerca de assuntos que não interessam nada.
Mais uma vez os “maus ventos e os maus casamentos” podem trazer a morte. E não se trata da nossa, apenas, porque essa doravante será um bem para a Terra, mas para outros reinos, que são a vida no seu equilíbrio de forças. Isso pode acontecer a qualquer momento ou nunca mas para que nunca aconteça o melhor é prevenir e não abrir um chapéu de chuva ao primeiro sinal de radioactividade. Ou as covas. Não estou a ver esta gente debaixo de uma catástrofe. Morreriam todos de inanição e estupefacção e seria como a morte dos inocentes.
Os cérebros lusos funcionam muito de forma organizada, não existe a modalidade plural e, por isso, é fácil entretê-los fazendo-os olhar para um lado, e dizendo: é dali que há-de vir o Agamémnon e ali andam estonteados até à náusea a discutir o sexo do monstro e dos Anjos, quando um mais esperto desaperta as válvulas, estende as garras e vai polir o último metal. O Federalismo Europeu começará também com a política da terra queimada. Do Juízo em Chamas. Final.
Um suporte sem forma não nos causará injúria, nós mesmos nos tornámos uma receita para a diluição, partimos da visão errónea de que para ser grande sê repartido e, neste lodaçal de coisas várias, tudo o que pode acontecer é a vitimação incrédula. Sabemos o quanto o imprevisto é o que fundamenta a História e mesmo assim não acreditamos em “brujas, pero que las hay, las hay”. Chegados àquele ponto em que quem der um tiro para o ar fará uma Revolução, neste caso, quem deixar as coisas assim, fará ainda muito mais e pior, dado que as Revoluções com um só disparo para o ar até são bonitas. Com apreensão nos deitamos nestes tempos, debaixo de factos inconclusivos, uns por não serem factuais, outros porque nem lhes sentimos o pulso ameaçador. O Governo português foi a correr meter-se num lodaçal de armas de destruição maciça, que afinal não havia, só para tirar uma foto ao lado de uns assassinos com poder, mas existem muito perto das suas janelas reais perigos que a visão esquemática não deixa ver. O rosto com que fita é uma Górgone que não se chama Portugal e o que ganhará a batalha será Perseu. Que por estas terras não existe e, aí sim, há que implorar ao Panteão Grego que nos anuncie rápido a sua vinda.
As grandes auto-estradas são veios por onde a morte célere e o tráfico ilícito há-de doravante passar à velocidade de um qualquer Ájax: aquele tornado branco, o mais Poderoso.
Todos os fantasmas são Brancos.
E todos estão adormecidos, existindo como nunca, agora e aqui, a possibilidade de serem reais.

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