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Apesar de os Governadores de Cantão terem comunicado a Fernão Peres de Andrade, em 1518, que a embaixada fora aceite pela Corte Imperial, Tomé Pires aguardou quinze meses em Cantão” Gonçalo Mesquitela. A razão devia-se a Portugal não pertencer aos países tributários da China e por tal, para ser aceite em Cantão e obter autorização para ir à capital imperial, era necessário encontrar uma solução. Para ultrapassar tais impedimentos, os Governadores de Cantão aceitavam o Embaixador Tomé Pires como sendo oriundo de Malaca. Depois, já em Cantão, Fernão Peres terá ditado uma carta aos intérpretes, que a adaptaram com os termos tradicionais da diplomacia chinesa. Ficavam assim resolvidos os entraves iniciais para a Embaixada ser aceite em Cantão e poder seguir até Pequim.

Fernão Peres de Andrade, antes da partida da sua frota para Portugal, disse aos Governadores de Cantão que, no ano seguinte, outro Capitão português iria com uma armada buscar o Embaixador. Fernão Peres chegou à Índia em finais de 1518 e o novo Governador das Índias, Diogo Lopes de Sequeira, que tomou posse em 27 de Dezembro, nomeou o sobrinho António Correia para ir com uma esquadra à China e trazer de volta Tomé Pires e seus companheiros. Mas o então Capitão do Mar, Simão de Andrade tinha escrito de Malaca em 10 de Agosto de 1518 ao Rei D. Manuel enumerando os bons serviços prestados. Segundo João Paulo Oliveira e Costa, Simão servira “a Coroa na Índia desde 1504, quando acompanhou Duarte Pacheco Pereira na defesa de Cochim contra as investidas do samorim de Calecut. Nos vinte anos que se seguiram, participou na maior parte das campanhas militares que levaram à criação do futuro Estado da Índia. Afonso de Albuquerque, por exemplo, cita-o sempre entre os combatentes mais aguerridos e os conselheiros mais temerários”. Fora um dos heróis da tomada de Malaca em 1511 conjuntamente com o seu irmão Fernão Peres. Pedia ao Rei para ser nomeado para um cargo mais importante. O Rei sabendo já do êxito da visita de Fernão Peres de Andrade à China, acedeu e enviou a Simão de Andrade um alvará autorizando a sua ida como Capitão duma esquadra, quando seu irmão regressasse. Assim, Simão de Andrade com o alvará real foi enviado à China em lugar de António Correia, que parecia um homem muito mais qualificado para tal missão. Esta substituição revelou-se fatal tanto para a Embaixada de Tomé Pires, como foi causadora das desgraças que os portugueses sofreram na China durante os trinta anos seguintes. Contrastando com seu irmão Fernão, Simão de Andrade era homem de pouco tacto, caprichoso, violento, de um espírito conflituoso e muito cioso da sua posição social, características que os cronistas fazem salientar.

Em Abril de 1519 partiu de Cochim para Malaca a esquadra comandada por Simão de Andrade e para além da sua nau, outros juncos acompanhavam-na cujos capitães eram “Jorge Botelho, Álvaro Fuzeiro, Jorge Álvares e Francisco Rodrigues (o cartógrafo),” segundo refere Gonçalo Mesquitela, que continua: “No entanto, Jorge Álvares ficou retido em Malaca por o seu junco ter aberto um veio de água, só conseguindo partir para a China no ano seguinte, com Diogo Couto.” Mas Armando Cortesão diz que à nau de Simão de Andrade só em Malaca se juntaram os três juncos. A pequena frota capitaneada por Simão de Andrade chegou a Tamão (que João de Barros chama Tumon, a actual Lin Tin) em Agosto do mesmo ano e “aí se instalou mas, devido à sua prepotência destruiria o trabalho pacientemente realizado por Fernão Andrade, criando uma situação muito embaraçosa na China para todos os portugueses” Gonçalo Mesquitela.

“Simão de Andrade julgava, não sem razão, que quando chegasse a Tamão acharia Pires já de regresso de Pequim. Em vez disso, verificou que o Embaixador nem sequer tinha ainda partido de Cantão. Pires devia estar muito aborrecido com as insuportáveis demoras chinesas e certamente se queixou ao Capitão português. Acostumado ao prestígio e respeito então desfrutados pelos portugueses no Oriente, (Simão de) Andrade deve ter-se ressentido com tal procedimento, tomando-o como afronta ao brio lusitano. É natural que grande fosse a sua indignação e irritação. Isso, sem dúvida, contribuiu para os lamentáveis desmandos que cometeu – circunstância em que não atentaram tanto os historiadores do passado como os do presente, embora essencial ao juízo deste muitas vezes discutido ponto da história” Armando Cortesão.

Fernão Peres com o Rei D. Manuel

Após ter chegado ao Oriente como um dos Capitães da armada de 1505, Fernão Peres de Andrade, destacou-se nas campanhas contra Mombaça, Calecut, Cochim, Ormuz, Goa e Malaca e ainda, em 1513 na conquista da fortaleza de Upi, na Costa do Malabar, Índia.

Apesar dos seus vinte e seis anos, Fernão Peres era já um veterano da Índia, onde servira a Coroa entre 1505 e 1513, enchendo-se de prestígio, primeiro sob o comando de D. Lourenço de Almeida, depois com D. Francisco de Almeida e por fim sobre a alçada do Governador Afonso de Albuquerque, que o deixou em Malaca como Capitão-mor do mar para defender a cidade recém-conquistada. Fernão regressou a Portugal onde esteve entre o Verão de 1514 e a Primavera de 1515, tendo a oportunidade de explicar ao Rei D. Manuel a importância do mercado chinês. Voltou Peres de novo ao Oriente, agora como comandante dum dos dezassete barcos da esquadra de Lopo Soares de Albergaria com duas missões, a de explorar o Golfo de Bengala (que não teve tempo de realizar) e de se dirigir a Cantão para deixar o Embaixador português, por ele escolhido na Índia, ao Imperador do Celeste Império. Tendo ficado catorze meses na China, aí deixou boas relações e uma boa imagem dos portugueses, causando um excelente efeito os pregões lançados na cidade antes de partir para, se qualquer chinês tivesse recebido agravo de algum português ou algo lhe fosse devido, se lhe queixasse a fim de receber reparação ou pagamento.

Saindo de Tamão em Setembro de 1518, Fernão Peres de Andrade chegou a Malaca onde “foi bem recebido e melhor festejado, assim pela riqueza que trazia a sua armada e provimento de munições de toda a sorte contra o Rei de Bintão. Resolvidas as coisas da guerra contra a sagacidade daquele rei, se partiu Fernão Peres com D. Aleixo de Menezes, capitão daqueles mares, e chegaram ambos a Goa a tempo que já tinha acabado seu governo o Governador Lopo Soares” Gonçalo Mesquitela.

Demorou-se na Índia um ano, partindo em Janeiro de 1520 para Lisboa, onde chegou em Julho. Damião de Góis diz: <por a cidade de Lisboa estar tocada de peste, se foi (Fernão Peres) a Évora, onde então El-Rei estava com a Rainha D. Leonor, sua derradeira mulher, dos quais foi mui bem recebido, e El-Rei lhe perguntava muitas vezes pelas coisas da China, e das outras províncias daquela região, ouvindo-as com muito gosto, porque de seu natural era curioso de saber o que passava pelo mundo, para disso tomar o que mais cumprisse ao governo de seu Estado, Reinos e Senhorios>. “Isto mostra o interesse que as minuciosas notícias da China – trazidas directamente por Andrade e seus companheiros – despertaram em Portugal e explica como os cronistas tiveram tanto material para as suas extensas descrições de Cantão, chegada de Pires e tudo o que se passou com Andrade e a sua esquadra” A Cortesão. E João Oliveira e Costa refere: “O sucesso da viagem de Fernão Peres de Andrade entusiasmou, certamente, D. Manuel I. O monarca via, assim, coroados de êxito os esforços de mais de uma década, para levar os seus súbditos até aos limites do espaço que lhe cabia segundo o tratado de Tordesilhas.

A partir de 1519, o rei promoveu um novo surto expansionista no Oriente, a que não escapou a China; convicto de que se conseguiria estabelecer um acordo com os chineses, D. Manuel concebeu para o mar da China o mesmo modelo de fixação que já resultara noutras regiões do Oriente.”…”estabelecimento de uma feitoria no Celeste Império, criação de uma armada da China e de outra para fazer a viagem entre Samatra e Cantão, construção de navios e de uma fortaleza na própria China.”

A razão da demora

Simão de Andrade chegou a Tamão em 1519, para recolher de volta a Embaixada, mas Tomé Pires ainda se encontrava em Cantão. Segundo a leitura de Wu Zhiliang, após consultar um documento coreano, a morosidade burocrática de três anos do Tribunal dos Ritos, cujo responsável era natural de Cantão e hostil aos portugueses, foi propositada. Uma das razões foram as palavras irreverentes sobre a pousada oficial que os portugueses acharam pouco digna para albergar a embaixada, o que deixou o Tribunal dos Ritos ofendido e por isso, atrasou o despacho para a sua recepção.

Referindo-se às demoras impostas a Tomé Pires e sua Embaixada, João de Barros comenta: <É tanta a majestade deste Príncipe (o Rei da China), e os negócios desta qualidade são tão vagarosos, principalmente quando gente estrangeira há-de ir a ele, por tudo ser resguardos, e cautelas, que há mister muita paciência quem houver de esperar seus vagares>. Paciência não era a principal virtude de Simão de Andrade, e ele cometeu vários actos que as autoridades chinesas consideraram que infringiam as suas leis, tais como a construção dum forte de pedra e madeira em Tamão, sob pretexto de defesa contra os piratas, e o levantamento duma forca em que um marinheiro foi executado.

Sobre o comportamento bárbaro de Simão de Andrade pesavam, a construção de uma fortaleza sem qualquer permissão da parte chinesa, ter roubado os mercadores que foi encontrando, ter matado um marinheiro e raptado crianças. Tais acções levaram os chineses a ficarem alarmados, tanto com a força das armas, como com o carácter velhaco dos portugueses e por isso passaram a olhá-los como “fan kwei” (em mandarim feng gui 疯鬼) – diabos estrangeiros. Não sabemos se estes e outros actos mais repreensíveis foram praticados antes de Pires ter partido de Cantão, mas sem dúvida tiveram a mais desastrosa repercussão em acontecimentos futuros.

Viagem até Nanjing

A embaixada de Tomé Pires só em 23 de Janeiro de 1520 iniciou a viagem até Beijing (北京, Pequim). No entanto, a meio caminho, em Nanjing (南京, conhecida pelos portugueses por Nanquim) encontraram-se com o Imperador, nessa altura Zhengde (1505-21).

De Cantão, Tomé Pires e o seu séquito partiram rio acima em três galés chinesas movidas a remos “com toldos de seda e desfraldando bandeiras portuguesas” segundo A. Cortesão, mas Rui Loureiro diz serem as bandeiras da Embaixada imperiais e representavam um dragão, que João de Barros chama “um leão rompente”. Continuando com A. Cortesão: “Ao chegarem ao sopé da serrania Norte da província de Kuantung (Guangdong), deixaram as galés e seguiram em liteiras, a cavalo e a pé, através do Passo de Meiling (Meiguan, 梅岭关), provavelmente de Nanhsiung (Nanxiong南雄) para Nan’an (南安).”

Segundo Rui Loureiro: “a missão portuguesa apenas teve de desembarcar em Nanxiong, para a travessia das serras de Nanling, a que Barros chama Malenxam, que se estendem na fronteira entre as províncias de Guangdong, Jiangxi e Fujian. Daqui, Tomé Pires escreveu pela primeira vez a Simão de Andrade por um mensageiro chinês, comunicando-lhe os sucessos da jornada.” A. Cortesão refere que: “Durante a travessia das montanhas morreu Duarte Fernandes. Seguiram então para o norte, em direcção a Nanquim, mas não se sabe exactamente o caminho tomado. É de supor que a embaixada tenha feito percurso idêntico ao de outros viajantes europeus posteriores, como o padre Ricci, em fins do século XVI”.

Essa jornada, após atravessada a passagem de Meiling e já em Nan’an, que hoje é a vila de Dayu (大余), de novo se voltava a embarcar e navegando primeiro pelo Zhangjiang (章江) passando por Nankang (南康) chegava-se a Ganzhou (赣州), onde o rio desaguava no Ganjiang (赣江), que era um afluente do Yangtzé (长江, Changjiang). Ao longo do percurso atravessava as povoações de Wan’an (万安), Ji’an (吉安), Linjiang (临江, hoje conhecida por Zhangshu), Nanchang (南昌) e entrando pelo Lago Poyang (鄱阳湖) chegava à cidade de Jiujiang (九江), já banhada pelo Changjiang, o terceiro rio mais longo do mundo. Daí era só seguir navegando pelo Rio Yangtzé (nome por que é conhecido o Rio Chang pelos ocidentais) uns quinhentos quilómetros, para chegar a Nanjing. A Embaixada portuguesa levava já mais de três meses desde que saíra de Guangzhou, quando chegou em Maio de 1520 a Nanjing.

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