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“No século XVII a dimensão geográfica dá lugar à dimensão demográfica e com o declínio dos antigos colonizadores, outros aparecem: ingleses, holandeses e franceses. O fascínio tinha acabado e estava-se no tempo do distanciamento objectivo, devido ao avanço científico da Europa. É na crença egocêntrica de possuir uma civilização universal e com o dever de elevar todos os povos a esse estádio ‘superior’, que começa a corrida para a constituição dos impérios coloniais, com as vantagens materiais e políticas que daí decorriam”
Tien-Tse Chang, O Comércio Sino-Português entre 1514 e 1644

Os últimos imperadores Ming tão ocupados estavam com a sua imortalidade e em luxos que nem tinham tempo para os assuntos de Estado. A decadência imperou. Vivendo a população na miséria, era ainda obrigada a pagar altas rendas e taxas, o que levou, em 1627, os camponeses a revoltarem-se e a pegarem em armas para se protegerem a norte de Shaanxi, estendendo-se para Shanxi e Henan.
Em 1635, os chefes de grupos armados de camponeses reuniram-se em Xingyang, província de Henan, para planearem uma estratégia. Li Zicheng, um dos líderes, com o seu exército ocupou, em 1644, Xian e toda a província de Shaanxi, tendo aí formado o Estado de Dashun. Partiu depois para Leste e passando por Shanxi e Hebei, chegou a Beijing, levando o último imperador da dinastia Ming, Chongzhen (1628-44) a refugiar-se no Monte Wansui (Colina da Longa Vida) a Norte do Palácio Imperial. Aí ficou 43 dias, mas todos os esforços falharam e sem uma solução para a complicada situação, o imperador enforcou-se.
A China ficava sem governo imperial por alguns meses, período conhecido pelo Interregno Shun. As tropas Ming combatiam os revoltosos camponeses em muitas partes da China e uma pequena corte Ming mudou-se para Nanjing, agora com o nome de Yingtian.

O pirata Nicolau

Zheng Zhilong (1604-61), natural de Fujian, nasceu a 16 de Abril de 1604 em Nanan, Quanzhou, e tinha passado algum tempo enquanto jovem em Macau, onde chegou com 18 anos, sendo convertido e baptizado com o nome cristão de Nicolau. Ao reconhecer o bom dinheiro que se fazia no comércio juntou-se a um grupo de piratas, que atacavam sobretudo holandeses sedeados em Taiwan e mercadores chineses, fazendo ainda comércio com o Japão.
Diz o Padre Manuel Teixeira, “O pirata maroto, era este o nome que os portugueses davam a Iquan”, ou Cheng Chi-lung, que depois de regressar “à sua terra, partia para o Japão, onde se colocou ao serviço dum rico comerciante chinês, Li Han, juntando-se ali com a japonesa Tagawa.” E foi dessa relação que no Japão nasceram, em 1624, o seu filho Zheng Sen e uma filha, Úrsula de Vargas.
Em 1624, os holandeses tomaram o sul de Taiwan e Zheng Zhilong, a trabalhar para Li Dan no Japão, sabendo português, foi aí colocado pelo seu chefe como tradutor na Companhia Holandesa das Índias Orientais. Li Dan, comerciante no Japão, China e Taiwan, tratava Iquan como um filho e casou-o com a filha adoptiva. Tendo Iquan mudado os seus negócios para Taiwan, passou a trabalhar para outro pirata, Yan Siqi, altura em que a VOC começou a colocar fora da ilha todos os que lhe faziam frente. Os holandeses ainda usaram Iquan para lutar contra os espanhóis em Manila, mas este abandonou o seu trabalho de intérprete, em 1625, após a morte do seu novo chefe.
Tomando o comando, formou o grupo Shi Ba Zhi, que em Agosto desse mesmo ano, devido à morte de Li Dan, herdou os navios deste e a sua riqueza, engrossando assim o grupo, que se tornou independente. Iquan, como os holandeses lhe chamavam, passou então a só reconhecer como seu nome Zheng Zhilong e usou Taiwan, entre 1626 e 1628, como base para atacar as costas de Guangdong e Fujian, colocando aí grandes problemas à dinastia Ming. Apenas roubava e raptava governantes e ricos negociantes, mas tratava bem o resto da população, ajudando mesmo os mais carenciados, o que levou as pessoas a acreditarem mais nele do que no governo Ming.
“Em breve, comandava 400 juncos que, em fins de 1627, se elevaram a mais de 1000. Apoderou-se de Amoy, e dali dominava toda a costa entre os rios Yangtzé e o das Pérolas. O Imperador, vendo não o poder vencer, nomeou-o em 1628 comandante da frota imperial, com o grau de mandarim, na condição de limpar os mares de outros piratas, o que ele aceitou, estabelecendo em Amoy o seu quartel general”, segundo o Padre Manuel Teixeira, que prossegue: “Iquan tinha 300 negros ao seu serviço, sendo todos cristãos e escravos fugidos de Macau”.
Este historiador refere ainda uma questão conflituosa surgida entre Zheng Zhilong e os portugueses. Após a expulsão dos cristãos do Japão e tendo a sua filha aí nascida sido baptizada na fé cristã, com eles fugiu para Macau. Ao saber de tal, Zheng Zhilong enviou recado aos portugueses para que lha mandassem, visto ser sua filha, mas estes não atenderam às pretensões. E nem mesmo as terríveis ameaças lançadas sobre cercar Macau com a sua esquadra, demoveram os portugueses da decisão de não a entregar.
“A 1 de Maio de 1639, leu-se no Senado uma carta dos negociantes portugueses que se achavam em Cantão, contando o que “havia sucedido à nossa gente com os chineses da armada de Icoão, que no dito Cantão estão e do mais que tinha sucedido e do estado e aperto em que os ditos portugueses estão, assim do risco de suas pessoas, como dos cabedais dos moradores…” Por isso, o Senado elegeu dez indivíduos dos mais velhos e experimentados cidadãos desta cidade para tratar do assunto com os oficiais da Câmara, referentes à feira de Cantão. “Boxer nota que essa filha devia ser uma que casara em Macau com um português (ou macaísta), chamado António Rodrigues, filho dum cidadão chamado Manuel Belo”, e em nota o Padre Manuel Teixeira refere, após o casamento cristão em Macau de Úrsula de Vargas, filha de Nicolau I-Kuan, com António Rodrigues, foram estes viver em 1642 com o mandarim Iquan em Ankai. “Levados por esta palavra e obrigados pela grande discórdia (de lembrar ser 1642 o ano da Restauração em Macau) que havia naquela cidade de Macau entre todos e a grande fome que sobreveio, embarcaram para esta cidade de Anay, onde vivem”.

Sem soldo para comer

Macau já desde 1630 prestava ajuda à dinastia Ming, que lhe tinha aberto as portas do País do Meio, enviando um destacamento de 400 militares, assim como canhões para a ajudar a combater os manchus na Grande Muralha. Encontravam-se em Guangxi quando foram interrompidos na sua marcha, devido às intrigas dos comerciantes de Cantão junto aos mandarins provinciais. Em 1644, após a conquista de Beijing pelos manchus, as forças leais à dinastia Ming que lhes faziam resistência, voltam a pedir ajuda aos portugueses.
A China encontrava-se em guerra contra os tártaros e, aproveitando-se disso, proliferavam nos seus mares os piratas onde faziam grandes e ricas presas. Macau, sentindo-se ameaçada, levou o Senado, em sessão de 8 de Julho de 1646, a mandar equipar embarcações ligeiras, os chós, para protegerem dos ladrões os barcos de comércio da cidade. Assim partiram em perseguição dos piratas, levando-os a apressado retiro.
No entanto, ainda nesse ano em Outubro, “os soldados, com soldo em atraso, envolveram-se em desordem com os donos das lojas chinesas. O mandarim de Chinsam mandou fechar as Portas do Cerco, impedindo a vinda das provisões e veio a Macau exigir satisfações: “e para o compor foi preciso não só dar público castigo aos soldados, mas despender com ele prata”. Pouco depois, veio uma chinesa a vender comestíveis a Macau e os soldados roubaram-lhos, usando de violência. Com estas desordens, por falta de pagamentos e penúria da cidade, se pôs alguma artilharia em venda”, segundo o Padre Manuel Teixeira, que refere terem os canhões de Bocarro servido para tudo; “acudir a Goa, a Portugal, à China e às Filipinas e até pagar os soldados esfomeados…”

Fim da dinastia Ming

O general Ming, Wu Sangui, que governava a Passagem de Shanhaiguan, em 1644 acedeu aos manchus passarem pela Grande Muralha, para em conjunto com as tropas Ming combaterem os revoltosos camponeses.
As tropas manchus encontraram a China sem dinastia no Trono do Dragão há já alguns meses e assim, em 1644, ocuparam Beijing para onde mudaram a sua capital, até então em Shenyang. Daí Li Zicheng teve que partir e seguindo para Oeste até Shanxi, foi perseguido pelas unidas tropas manchus e Ming, sendo morto em Hubei com 39 anos de idade.
Foi então que muitos oficiais Ming, a cooperar com os manchus contra os camponeses, se mudaram para o lado destes, passando a combater os invasores manchus. Com a morte do último imperador da dinastia Ming em Beijing no ano de 1644, a pequena corte Ming estabeleceu-se em Nanjing e aí formou a dinastia Ming do Sul (1644-1662). Zhu Yousong, príncipe de Fu, tornou-se o Imperador Hong Guang (1644-1645) e libertou da prisão Zhu Yujian, condenado desde 1636, quando lhe fora retirado o título de príncipe de Tang.
Durou um ano essa pequena corte Ming desunida e corrupta, sendo em Junho de 1645 derrotada em Yingtian (Nanjing) pelas forças Qing e a corte dos Ming do Sul voltou a fugir, agora para Hangzhou. Aí se dividiu, parte vai para Shaoxing (Zhejiang) e outra, refugia-se em Fuzhou (Fujian), onde subiu ao trono da dinastia Ming do Sul o Imperador Long Wu (Agosto 1645 – Outubro 1646) e cujo nome era Zhu Yujian, príncipe de Tang. Pertencia à oitava geração descendente do terceiro filho do primeiro imperador da dinastia Ming e tinha a esperança de conseguir derrotar os manchus, que já tinham formado a dinastia Qing.
Zheng Zhilong era o mais poderoso aliado do Imperador Long Wu com quem tinha uma grande amizade, pois ajudara-o a chegar a imperador. Mas, em 1646, com as vitórias do exército Qing no centro da China e em Fujian, a 6 de Outubro, o Imperador Long Wu foi capturado e executado. Os manchus compraram com um cargo Zheng Zhilong e este, percebendo a definitiva derrota da dinastia Ming, aceitou. Foi levado para Beijing com a família, onde o mantiveram, procurando atrair o filho, Zheng Chenggong, que recusou abandonar os Ming e governou as costas de Fujian desde 1646.
Nos finais de 1650 era apenas ele no mar que lutava para restabelecer a dinastia. Derrotado em 1659, no estuário do rio Yangtzé, com essa batalha dá-se o fim do foco de resistência dos chineses han, pertencentes à dinastia Ming e voltando a Fujian, daí parte à frente de 25 mil pessoas para Taiwan onde, após um cerco de nove meses, tomou em Abril de 1661 a ilha aos holandeses. Em 1662, Zheng Chenggong morreu de doença aos 38 anos, mas Taiwan continuou independente com o seu filho Zheng Jin e só foi conquistada ao neto em 1683, passando para o domínio dos Qing.
Pouco nos estendemos sobre a personagem do pirata Zheng Chenggong, ou Coxinga, como é conhecido pelos europeus, pois a sua história já foi apresentada no HM, encontrando-se escondida também na divindade Zhu Da Xian. Quanto ao seu pai, Zheng Zhilong foi colocado na prisão em 1655 e morto em 24 de Novembro de 1661.
Em 1669, a VOC, cujo objectivo fora atacar os pontos-chaves do império espanhol e português, era a mais rica companhia privada do mundo com mais de 150 navios mercantes, 40 de guerra, 50 mil funcionários e um exército de 10 mil soldados.

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