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No século XIV, o vasto império chinês encontrava-se convulsionado por inúmeras revoltas, motivadas pela dissoluta existência que levava devasso Sân-Tái (Shun Di, 1333-1368), último imperador mongol da dinastia Un (Yuan)”, segundo Luís Gonzaga Gomes.
A dinastia mongol governava a China e discriminava o povo Han a tal ponto que este, já na miséria, se revoltou. Essa revolta iniciou-se no dia 15 do oitavo mês lunar de 1355, com uma mensagem no interior dos bolos lunares tradicionalmente trocados entre as pessoas a incentivar os han a pegarem em armas contra os invasores nómadas mongóis. A história da revolta dos camponeses contra a opressão dos imperadores mongóis da dinastia Yuan chegou-nos aos ouvidos em Bozhou, na província de Anhui.
Os mongóis encontravam-se com problemas desde 1328, devido a não terem regras para a sucessão dos khan (em português can ou cão), estando a corte Yuan em lutas internas. Mobilizando a população descontente, em 1351, Liu Futong conseguiu ocupar o Sul da província de Henan e o Norte de Anhui com um grande grupo de rebeldes, que usavam bandeiras vermelhas e turbantes da mesma cor. Em 1352, Zhu Yuanzhang (1328-1398) alistou-se nesse movimento, conhecido pelos Turbantes Vermelhos, que foi vencendo os exércitos do Imperador Shun, tendo em 1355 criado um governo em Bozhou.
Liu Futong (1321-1363) proclamou a nova dinastia Song em Bozhou e coroou o filho de Han Shantong (seu primeiro companheiro de luta que tinha sido capturado e morto), Han Liner como Pequeno Rei da Luz. O movimento, que contou com a ajuda da sociedade secreta daoísta do Lótus Branco, aumentou e alastrou-se tendo, depois de muitas peripécias, conquistado todo o Norte da China.

Mensagem dentro do Bolo Lunar

Zhu Yuanzhang, nascido em 1328 de uma família Han de camponeses, teve como primeiro nome Chongba. Ficou órfão ainda jovem, devido à peste que lhe levou toda a família e para sua sobrevivência, entrou no templo de Huangjue, onde se tornou monge budista. Como eram muitos a recorrer a esse estratagema, havendo pouco alimento no templo, teve que o abandonar. Vagueou alguns anos e, em 1352, juntou-se à revolta contra a dinastia Yuan, entrando no grupo chefiado por Guo Zixing. Este, vendo as qualidades e bravura de Zhu Yuanzhang, casou-o com a sua filha adoptiva, Ma. Combatiam a Norte do Rio Yangzté e após ocuparem Hezhou (Hexian, em Anhui) em 1355, Guo Zixing morreu. Como Zhu não quis ficar sobre as ordens de outros chefes, criou um grupo de guerreiros e foi combater os mongóis para Sudeste. É dessa altura a História do Bolo Lunar, que conta ter Zhu Yuanzhang um plano para atacar a dinastia Yuan e com a finalidade de informar todos os que com ele estavam nessa luta, já que os espiões mongóis se encontravam por todo o lado, escreveu alguns papéis com a mensagem dos pormenores do plano. Escondendo-as dentro dos bolos lunares, depois enviou-os aos seus homens.
Ao mesmo tempo que espalhava pela cidade servir o bolo para prevenir desgraças, passou a palavra para que quem apoiasse o movimento, dependurasse lanternas às portas de suas casas. Tudo isso ocorreu sem que os mongóis desconfiassem já que não sabiam ler chinês e a festividade era muito antiga. Quando os chineses comeram os bolos e leram as mensagens, mobilizaram-se e derrotaram os mongóis em Yingtian (Nanjing), conquistando-a em 1356 e toda a área circundante, onde fizeram a sua base. Nos doze anos seguintes prosseguiu-se a luta contra a dinastia Yuan pelo resto da China.
Bozhou caiu nas mãos dos mongóis em 1359 e Han Liner acompanhado por Lui Futong fugiram para Anfeng. Entretanto as divergências entre os chefes dos revoltosos levaram a que muitos deles procurassem, ao longo do Changjiang, criar reinos independentes.
Após a morte em combate de Lui Futong em 1363, Zhu Yuanzhang foi ajudar Han Liner e colocou-o em Chuizhou, ainda como Rei Song. Já em 1366, Zhu convidou o Rei Song para se estabelecer em Yingtian (nome que pouco depois passou para Nanjing), mas na travessia do Changjiang (Rio Yangtzé), aconteceu o naufrágio do barco que o transportava e assim morreu Han Liner. Logo Zhu Yuanzhang, mandou construir muralhas em torno da cidade, só terminada em 1386, altura em que as fronteiras dos Han deixaram de ser ameaçadas pelos mongóis.

Fundação da dinastia Ming

Em 1368, Zhu Yuanzhang ascendeu ao trono em Yingtian, mudando-lhe o nome para Nanjing, onde fez a sua capital e fundou a dinastia Ming (1368-1644), tornando-se imperador com o nome de Hong Wu (1368-1398). De salientar que Ming significa brilhante e este imperador, após a morte, ficou com o nome de Tai Zu.
“Desde a fundação da Dinastia Ming (1268-1644), que a grande preocupação era a defesa contra qualquer tentativa restauradora da dinastia derrubada, a Yuan. Por esta razão, toda a defesa militar chinesa se concentrou no Norte, nas fronteiras com os Mongóis”, segundo referem Jin Guo Ping e Wu Zhiliang.
“A partir de finais do século XIV, nota-se uma evolução nestas actividades piratas, que parecem estar agora sobretudo ligadas às lutas que opunham o fundador dos Ming aos seus rivais. Alguns dos adversários de Hongwu, refugiados nas ilhas nipónicas, associam-se aí a piratas japoneses. Entre eles encontravam-se, talvez, antigos partidários de Fang Guozhen (1319-1374), personagem misteriosa que tanto combateu os ocupantes mongóis como os movimentos de resistência e que incluíra nas suas tropas contrabandistas e piratas das costas do Zhejiang”, segundo Jacques Grenet. Já Gonzaga Gomes refere: “De entre os inúmeros cabecilhas de rebeliões, celebrizou-se um famigerado pirata de nome Fóng-Kuók-Tchân (Fang Guozhen) que, conforme o valor das peitas que lhe eram oferecidas, ora se submetia a um chefe mais poderoso ora tomava o partido de outro, quando não agia por sua própria conta, sendo campo principal das suas terríveis proezas as riquíssimas regiões da costa meridional da China”. E Jacques Grenet refere: “A ameaça faz-se sentir portanto desde o início da dinastia (Ming) e é dessa época que datam as primeiras medidas de defesa: formação de uma esquadra, unificação do comando naval, fortificação das costas do Shandong, do Jiangsu e do Zhejiang. Graças a estas disposições, à actividade diplomática dos Ming no Japão e ao seu domínio dos mares, os ataques dos piratas parecem ter-se reduzido ao longo das últimas décadas do século XV”.
Já no século seguinte, Qi Jiguang (1528-1587) foi um estratega ao serviço da dinastia Ming com serviços reconhecidos contra a pirataria japonesa nas regiões costeiras de Zhejiang e Fujian.

Ingleses no Pacífico

Segundo o Padre Manuel Teixeira, que foi buscar a informação a K.R. Andrew, diz que “em Maio de 1585 foram capturados vários navios ingleses nos portos espanhóis e confiscada a carga. Ergueu-se na Inglaterra um clamor dos comerciantes pedindo reparação. A 7 de Julho, o Governo instruiu o Almirantado para examinar estas relações e passou cartas de represália aos que provassem ter sofrido perdas. Estas cartas davam licença aos prejudicados para armar navios e capturar os navios espanhóis no mar. No verão de 1585, uma hoste de aventureiros – private men-of-war or mere pirates entre os quais Sir Francis Drake – lançou-se à caça de espanhóis. De 1589 a 1591, mais de 200 navios se empregaram nesta pirataria”. Mas, já desde 1579, circulavam em águas das Molucas e Java a soldo da Rainha Isabel I (1558-1603), os corsários ingleses, Francis Drake e Thomas Cavendish, como refere Beatriz Basto da Silva e prosseguindo pela sua Cronologia, em 1592 “o inglês James Lancaster ataca navios portugueses na carreira de Malaca” e em 1596, “A rainha Isabel I de Inglaterra tenta alcançar negociações com o Imperador da China. Escreve-lhe uma carta que não chega ao destino”.
A última do ramo dos Tudors, Isabel I (1533-1603), filha de Henrique VIII e Ana Bolena, apoiou as revoltas das Províncias Unidas contra a Espanha, que tinham começado lideradas por Guilherme de Orange em 1558. A independência dos Países Baixos foi declarada em 26 de Julho de 1581, mas só reconhecida depois da Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648). De lembrar que a Armada Invencível foi derrotada em 1588, sendo a esquadra confiada a Álvaro de Bazán, marquês de Santa Cruz mas, devido ao seu falecimento, substituiu-o o inexperiente em coisas do mar duque de Medina Sidonia, informação de Joseph Walker na Historia de España, onde refere ainda ter Francis Drake saqueado as costas do Chile e Peru, assim como Cádis.

A VOC no Pacífico

Em 1579 é formada a República das Províncias Unidas, criada por um grupo de sete províncias, entre elas os Países Baixos (Holanda e Zelândia), que se tornou independente de Espanha.
O holandês Cornelius Houtman vai a Lisboa em 1592 para recolher informações sobre as viagens marítimas portuguesas à Índia. Em 1594, um grupo de nove mercadores de Amsterdão decide unir-se e formar uma Companhia de Navegação, a Van Verre. Com quatro barcos e 249 tripulantes, no ano seguinte meteram-se no Atlântico para chegar ao Oceano Índico, usando a rota encontrada em 1488 pelos portugueses. Levaram dois anos até regressar, tendo morrido dois terços da tripulação e o apuro feito com a venda dos produtos trazidos deu apenas para pagar o investimento feito. Não fosse o êxito de terem navegado até ao Oceano Índico e a viagem teria sido um fracasso, mas com a rota da Índia aberta, logo foram criadas pelos mercadores holandeses novas companhias que se aventuraram a enviar barcos para a Ásia. “De 1598 a 1603 saíram treze frotas com destino às Índias. Muitas sofreram naufrágios desastrosos. As que conseguiram retornar tiveram lucros que alcançaram até 265%”, segundo Mauro em Expansão Europeia (1600-1870). Foi grande o sucesso e a fortuna imensa.
Os Holandeses estabeleceram-se em 1598 no Oriente e no ano seguinte apareceram na costa de Macau. Já os ingleses, vendo-se a ficar para trás, criaram em 1600 a Companhia Inglesa das Índias Orientais. Passados dois anos apareceu a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC – Vereenigde Oost-Indische Compagnie), Companhia Unida da Índia Oriental que data de 20 de Março de 1602, mas só em 1618 a sede passou para Batávia, como refere B. Basto da Silva. A VOC foi criada após terminada as gestões feitas por Oldenbarneveld e a fusão das diferentes companhias numa única, pois estas “eram concorrentes na compra de produtos na Ásia e na sua venda, na Europa”, segundo refere o brasileiro Mauro. E, terminando com António Manuel Hespanha, no livro Panorama da História Institucional e Jurídica de Macau: “No século XVII o Império holandês vai seguir o mesmo modelo, pela ocupação dos entrepostos anteriormente dominados pelos portugueses. Mas os holandeses criaram formas inovadoras, como as grandes companhias comerciais (Companhia das Índias Orientais, 1602; Companhia das Índias Ocidentais, 1621), concedendo à iniciativa privada um papel que, em Portugal, a Coroa desempenhava preferencialmente por si”.
A Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), com sede em Amesterdão, onde em 1609 é criado o Banco de Amesterdão para apoiar o comércio colonial, criou o conceito actual de acções quando em 1610 dividiu o seu capital em quotas iguais e transferíveis em Bolsa. O seu objectivo era o de excluir os competidores europeus e substituí-los nas rotas comerciais pelos três oceanos.

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