Vestir de negro

Fundação Eugénio de Almeida, Évora, 13 Outubro

Convive com o a do Pedro [Proença], esta exposição dedicada ao «Grupo 8», conjunto artístico dos anos 1970 que projectava a sua identidade a partir do Alentejo. António Palolo foi membro e dele, Joaquim Tavares, o curador, escolheu telas cinza, talvez reverso iluminado das cores primitivas que o tornaram dos pintores mais imitados. Anunciava-se tempestade, mas não ali, no conforto climatizado do museu, parede negra e luz baixa de acentuar mistérios, obscuridades. Aquele cinzento magnetizou-me, logo deixou de ser apenas cor, ganhou textura, uma pele áspera e cortes a desenhar meridianos, cicatrizes que a fornecem de carnes. Estamos nisto: extrair da cor uma qualquer razão. Nem que seja para vestir.

Clube Estefânia, Lisboa, 1 Novembro

Certo e sabido: a vida não se deixa prender nos calendários. Ou seja, o espírito fin de siècle está a explodir-nos agora nas mãos. A religião feita refém da loucura sanguinária. A economia feita máscara dos meta-estados corporativos. A política entregue à violência da estupidez. A arte virada do avesso a patinhar nas tripas. Em fundo, o desespero que atira gente ao nada, ao nada feito mar ou muro. Gente que se atira ao nada, entorpecente e narcótico. «Três actores, três músicos, uma personagem discreta, mas omnipresente: a morte», assim se apresenta na «inútil» folha de sala do «Cabaret Macabro», que o Valério [Romão] escreveu para a Marta [Lapa] encenar. Com excepção da senhora da gadanha, que usa cabeleira, e apesar atração inevitável pela perfeição do triângulo, a afirmação não se confirma. O autor do texto começa cedo a ser invocado, contrariado, maltratado, fazendo-se afinal benquisto do princípio ao fim, ou não tivesse esculpido o texto durante os ensaios. Também a encenadora se faz personagem, primeiro interpretada pela Carla Galvão, para depois sair mesmo da sombra para fazer o que faz bem: questionar tudo, baralhar e voltar a dar. Estamos, pois, em plena desconstrução, essa noção tão cara à nouvelle cuisine. Iniciada na folha de sala, não mais útil que pastilha elástica sob a cadeira, diz ele. O autor-a-fingir-que-não-o-quer-ser usa bem a bisnaga vira-bicos, e põe a Margarida Cardeal e o Vitor Alves da Silva a questionarem o «processo», a discutir tudo e mais alguma coisa, acompanhados, como se de fado se tratasse (e trata!), pelo [Carlos] Bica, pelo Lucius Omnibus e o Pedro Moura. «Como é que a arte contemporânea reflecte o actual sistema de labirintos simultâneos a que parece corresponder o mundo actual?» O meio artístico – por ideal romântico? – vê-se sobejamente maltratado e logo curado, como agora se diz das exposições, para sinónimo de escolha e arrumação. Nem escaparam os abysmados, esses que praticam activamente e para desconhecimento geral a subtil arte do cabaret e o encantatório tratamento por mano. Não tanto desconhecido, que passa amiúde alguéns mais alheios em busca de encosto. A girândola vai rodando sobre si própria, e nem precisa parar para deixar entrar assuntos sérios, íntimos até. Para nos chamar à voragem. Só que as expectativas, se não a esperança, parecem mortas e enterradas no negro do fundo-cenário (até das fotos que autor também assina, algures nesta página). O Valério, que usa cartola, desenha a luz com o negro. E nem as canções nos salvarão. Ou salvam?
No dia da estreia, o cabaret agudizou-se em seguida, prolongando a «proceça», e confirmando a realidade: «what could permitting some prophet of doom/ To wipe every smile away/ Life is a cabaret, old chum/ So come to the cabaret.»

Lisboa, 3 Novembro

Se quisermos ter exemplo na ponta da língua de que o 25 de Abril acabou sendo revolução, apesar de não ter começado por sê-lo, basta aduzir a rede nacional de bibliotecas de leitura pública. São mais de 300 corações espalhados pelo país mais obscuro a bombar sangue, a trocá-lo por oxigénio, a produzir palavras, imagens, pensamentos. Nalguns destes lugares, a vida mudou, a morte cedeu. Sou testemunha, disso e do facto de muito devermos à força de vontade da Maria José Moura (1937-2018) este aumento das possibilidades. A morte toca menos quem soube espalhar vida.

Barraca, Lisboa, 7 Novembro

Andam por aí vozes que, de tão doutas ficam burras. Sabem tudo sobre tudo, mas sobretudo sobre edição. Sabem bem o que deve ser feito e até como. Cospem cânones na vez de expectoração. Por serem do contra, agora que é fácil e custa pouco, ganham automática razão. Costume de largo espectro, não fazem, basta-lhes escrever sobre. As enormidades do que dizem procurando fátuos likes, além do pressuposto ideológico e moral que querem impôr, resulta da ignorância, além de endémica má-fé. Livro simples, como este que agora lançamos, «As Constituições Perdidas de Aristóteles», esconde processo – próximo do cabaret . Mas interessa? Começa logo pela vontade e horas investidas na tradução pelo mano – olha outro… – António [de Castro Caeiro]. E na paciência: há muito que estava pronto a sofrer os tratos do prelo, mas circunstâncias várias retardaram-no. Até que um trabalho de outra natureza iluminou a colecção que, afinal, se quer bífida, traduções de um lado, ensaios sobre os clássicos, do outro. Depois, já que o primeiro esforço resulta informe, sobretudo devido ao carácter fragmentário e científico da obra, houve que arrumá-lo em partes, pensar em apêndices e notas, enfim, decidir se a colecção cresce no sentido da divulgação ou dos circuitos especializados. A revisão merece, também por isto, revisão. Desembocamos, então, nas conversas com o Miguel [Macedo], das quais resultará objecto, no caso com meia sobrecapa, sobrepondo apenas em metade da capa cor forte e outra tipologia, mais carregada. Este jogo, que se prolonga no miolo e no logótipo com outros expedientes gráficos, propõe esta ideia de fenda, que resulta de cruzamento abrupto entre o passado e o presente, entre elegância e arrojo. O essencial do trabalho de arqueologia destes textos reside na urgência de sentidos que escapam aos tempos. O futuro, tal como se nos apresenta hoje, precisa de se atirar de cabeça aos clássicos. Neste caso, além de questões fundadoras do nosso direito, que estão ameaçadas, também pelas de identidade. O que faz de nós comunidade? Como manter-nos comunidade viva e convivial, na vez de moribunda e despedaçada por cegos antagonismos? Nas apresentações, manda o protocolo, não se fala destes assuntos. O livro existe para além da forma e os processos, estamos aqui para congregar leitores. O Carlos [Querido], em Óbidos, e agora o Ricardo Araújo Pereira, não fizeram outra coisa se não ensinar cavalos a tocar flauta. «Contava-se que os Sibaritas chegaram a um tal ponto de devassidão que até traziam os próprios cavalos para os jantares. Estes, mal ouviam entoar a flauta, erguiam-se apoiados nas patas traseiras e com as dianteiras dançavam como quem marca o ritmo com as mãos.»

Casa da Cultura, Setúbal, 9 Novembro

Esta «filosofia a pés juntos» faz-se no terreno pesado da educação. De súbito, o António [de Castro Caeiro], mesmo após dia inteiro de aulas na escola, que não significa «tempo livre» como outrora, consegue atingir a leveza e inspirar uma plateia. Como os atletas para o combate, procuremos a disciplina de um treino, por via do estudo e da conversa. Para acrescentar cor no arco-íris das possibilidades. A vida toda feita brincadeira de crianças, outro modo de dizer paideia.

14 Nov 2018