O outro lado

Há uma árvore no meio da avenida. É uma árvore qualquer, sem nada de especial a não ser o facto de ter sido plantada a meio da avenida. Durante o ano muda de cor e esse ritmo prossegue inalterável apesar de existir na separação dos dois sentidos, sujeita aos humores dos automóveis.

Mas esta árvore não morre facilmente. A poluição diária não a destrói. Espera por esse grande vento que a derrubará, um suzuki ou um mercedes, conduzido por uma rapariga inocente e alcoolizada. A árvore não protestará. A árvore não é grande nem frondosa. Pelo contrário: lembra uma figura de Giacometti e a existência ténue daqueles seres que frequentam ruas de um homem só.

Distingui-a nitidamente, numa torção de pescoço, quando atravessei pela última vez a avenida a correr, ignorando a passadeira e o carro da rapariga de hálito inocente e alcoólico. Não sei se ainda lá está a árvore erecta a meio da avenida. A desgraça súbita não polui. Desta vez, cheguei ao outro lado.

16 Mar 2020