Liu Sha, maestro e director musical da Orquestra Chinesa de Macau: “A música é emoção e paixão”

Aos 40 anos, Liu Sha assumiu pela primeira vez, o papel de director musical na Orquestra Chinesa de Macau, que também dirige como maestro. Aluno de topo do Conservatório Central de Música, em Pequim, Liu Sha já conduziu 43 orquestras com a visível paixão que o caracteriza. Com origens humildes e juventude marcada por amarguras, o propósito do maestro é levar ao público a beleza da música e o sentimento da melodia

 

 

Como começou a sua relação com a música?

O meu pai era músico e a minha mãe gostava muito de cantar. Durante a minha infância, visitava frequentemente salas de ensaio de teatro chinês. Via também muitos concertos. Nasci em Jinan, a capital da província de Shandong. Lembro-me do primeiro concerto que vi de uma orquestra sinfónica, originária dos Estados Unidos. Acho que devia ter cerca de 6 anos de idade e fiquei fascinando com o músico que tocava os címbalos. Impressionou-me muito. Apesar do gosto que ficou, o meu pai não queria que eu estudasse música, achava que a estrada da música era complicada, difícil de percorrer e não levava a muito dinheiro. Ainda assim, estudei piano com cerca de nove anos de idade, o que em termos de formação é muito tarde, mas gostei muito. Na altura, havia um pianista francês muito famoso, Richard Clayderman. Apesar de não ser clássico e ser mais pop, as suas composições eram muito boas. Portanto, quis aprender a tocar piano. Mas o concerto mais importante a que assisti, em 1993, foi o Concerto de Ano Novo, pela Filarmónica de Viena. O maestro era o italiano Riccardo Muti. Marcou-me imenso e apresentou-me à figura do maestro. Aquilo é que era ser maestro. Achei espectacular e poderoso. Outra coisa aspecto importante foi aperceber-me que são precisos dez dedos só para tocar piano, mas uma batuta consegue controlar tudo. Excelente!

 

Foi aí que decidiu seguir a carreira de maestro…

O problema é que nasci e cresci em Jinan. Não sabia por onde começar para estudar para ser maestro. Na altura, só havia dois locais onde podia seguir os estudos necessários: os conservatórios de Pequim e Xangai. Tinha apenas 13 ou 14 anos e ambas as cidades eram muito longe. Ainda assim, decidi que era isso que queria. O passo que dei foi escrever a muitos professores de música, aos que tinha ouvido falar. Até que um dia, um professor do Conservatório Central de Música, em Pequim, respondeu. Escreveu-me: “jovem rapaz, querer estudar é muito bom, mas tens de ter em mente que é um percurso extremamente difícil, um dos mais difíceis no mundo da música”. Na carta escreveu a morada de casa e telefone e disse-me que se eu queria mesmo estudar devia pedir aos meus pais para me levarem para Pequim.

 

 

Como disse aos seus pais que queria seguir estudos para maestro?

Uma noite, depois do jantar, falei com eles. “Mamã, papá, por favor, sentem-se. Preciso de falar convosco porque tenho uma decisão importante para tomar.” Então, mostrei-lhes a carta do professor. Não disseram uma única palavra. Este período da minha vida foi muito complicado, porque perdi os meus pais. Três anos depois de entrar no Conservatório Central de Música, a minha mãe morreu. Eles não tinham palavras porque estudar para maestro é uma área que necessita de muitos estudos, principalmente piano, audição, canto, teoria musical, harmonia. A minha família era pobre e a minha mãe teve de pedir muito dinheiro emprestado para me enviar para Pequim. Eles ficaram felizes com a carta, mas eram tempos difíceis. Três anos depois chegara a altura para fazer os exames de admissão ao conservatório, depois de completar o secundário. A minha mãe estava doente no hospital e o meu pai estava a tomar conta dela. Tinha 17 anos quando fui de comboio para Xangai, era a minha primeira vez em Xangai, não conhecia lá ninguém e não fazia ideia como chegar ao conservatório. Fiz o exame e fui o aluno melhor classificado. De repente, reparei que o segundo dia de exames era em Pequim. Como conseguiria chegar a Pequim? Não sabia comprar bilhetes de avião, nem como apanhar um avião, não sabia nada disto. Perguntei a muitas pessoas. Cerca da meia-noite desse dia, aterrei em Pequim. Na manhã seguinte fiz o exame e também fiquei em primeiro lugar. Quatro dias depois de receber a carta a dar-me os parabéns pela admissão no conservatório, a minha mãe morreu. Foi um período difícil. No entanto, estava a dar passos importantes para a realização do meu sonho.

 

 

Como foi realizar esse sonho e poder levá-lo ao público?

Para mim, a música é emoção e paixão. Amigos e professores dizem que quando estou a dirigir uma orquestra que sentem a minha paixão. Mas no início, os nervos tomavam conta de mim. Quando me formei, e era um jovem maestro apenas com um ou dois concertos no meu currículo, ficava muito tenso. Antes do primeiro concerto que dirigi queria morrer, a batuta tremia, as mãos estavam suadas, foram momentos de grande tensão. Começaram a surgir ideias estranhas na minha mente, como “e se em dirigir mal a orquestra, o que faço a seguir?” Isto aconteceu em 1999, estava prestes a conduzir a orquestra de estudantes do Conservatório Central de Música. A obra era uma composição para orquestra chinesa. Quando o concerto começou, entrei num estado mágico. Um músico disse-me depois que estava a cantar a música tão alto, quase ao nível de volume da orquestra. Foi um momento de muita excitação e intensidade. E o tempo da música, os compassos, cada vez mais rápidos. Não conseguia controlar-me, nem a velocidade da música.

 

 

Os dias de nervosismo ficaram para trás, mesmo antes da estreia de um espectáculo?

Hoje em dia não sinto tensão, apenas esperança e excitação. Mesmo que seja o primeiro concerto de uma nova composição já não entro nervoso em palco, porque há 14 anos que conduzo orquestras e já dirigi cerca de 300 novas obras. Nove anos depois de me formar, estudei orquestra sinfónica e ópera no conservatório de São Petersburgo. Estudei técnicas e estilo russo, uma aprendizagem que incidiu sobre obras antigas. As composições para orquestra chinesa não param de ser escritas e existem apenas no papel, em pauta, sem um CD, ou gravação. Se quiser conduzir Mozart, Brahms, Beethoven, posso ouvir um CD.

 

 

Quais os passos necessários para preparar um concerto?

Ser maestro é muito difícil, antes dos ensaios é necessária muita preparação. Preciso, talvez entre um mês ou um ano, para conhecer o repertório da peça que vou conduzir. Preciso tirar a melodia do papel para o piano. Quando não me sinto muito confortável com a música vejo-me obrigado a falar com o compositor, encontrar-me com ele para saber como ele “canta” a obra. O segundo passo é saber como posso transportar para a orquestra a minha paixão, as minhas ideias e a minha arte. Em casa, penso estes aspectos ao mais ínfimo detalhe. O terceiro passo é na sala de ensaio. Uso os meus braços para conduzir, uso a língua e a emoção para explicar do que se trata a obra, o seu significado.

 

 

Como tem sido a experiência como maestro e director musical da Orquestra Chinesa de Macau?

É a primeira vez que trabalho numa posição de gestão. Planear a próxima temporada e a temporada a seguir em termos de direcção musical é um novo desafio. Estou a gostar bastante e isso transparece para os músicos. Quando cheguei encontrei-os muitos fechados, quase sem emoção, apenas a tocar como um trabalho para ganhar um salário. Hoje em dia, acho que estão mais felizes a tocar. Esse aspecto é muito importante para mim. Em termos musicais, antes o som da orquestra soava um pouco rígido. Agora, parece mais relaxado, tranquilo.

 

 

Quando chegou a Macau disse que gostaria que os músicos tocassem com paixão. Como se consegue arrancar essa emoção dos músicos?

Primeiro, tive de inspirar e encorajá-lo, explicar a obra e o que precisamos fazer em termos técnicos. Depois, é importante deixar claro que eu é que mando. Peço-lhes e eles têm de fazer. Muitas vezes recordo aos instrumentistas das minhas orquestras que somos músicos e que temos a grande responsabilidade de levar a beleza da música ao público. Algo que é muito importante.

 

 

 

Que tipo de música ouve em casa?

Ouço, em primeiro lugar, música clássica. Também gosto muito de Jazz, Louis Armstrong e Charlie Parker. Como preciso fazer muita pesquisa na área da música chinesa, esse género também é uma constante.

 

 

Como prepara concertos que fundem géneros diferentes de música, como o fado?

Tivemos um concerto com uma artista de fado. É uma realidade separada, uma cultura diferente com um pano de fundo diferente, mas a minha orquestra cobre muitos estilos musicais, em termos técnicos. Em Macau, o fado é apreciado por uma grande parte do público devido à ligação com Portugal. Eu também gosto muito de fado, gosto muito da Katia Guerreiro, por exemplo. Quando ouço as suas músicas, parece que ela consegue capturar a minha alma. Para preparar um concerto que mistura dois géneros, preciso conhecer a cantora e o seu repertório. Depois são necessários arranjos para transportar as melodias tocadas só por duas pessoas para uma orquestra com muitos elementos. Como maestro, preciso das pautas e de ter tudo detalhado. Mas por vezes o trabalho é facilitado pela compatibilidade de estilos. O Fado é muito movido pela melodia, assim como a música chinesa.

 

 

Enquanto maestro, o que é importante passar para os músicos?

Paixão e entendimento mútuo. Falamos muito. Para um maestro, comunicação é muito importante. Já dirigi 43 orquestras diferentes, orquestras chinesas, teatro, sinfónicas, ballet, dirigi, por exemplo, “O Lago dos Cisnes”. A comunicação é muito importante. O olhar, a expressão facial e, claro, a linguagem são as formas para transmitir exactamente o que quero e para nos encontrarmos.

8 Mar 2019

OCM | Liu Sha assume direcção artística e promete mudanças

 

Liu Sha vai assumir a direcção artística da Orquestra Chinesa de Macau. O maestro entende que é necessário os músicos mostrarem mais do que virtuosismo. É essencial que façam com que o público se sinta mais envolvido, de forma a conquistar audiências

 

AOrquestra Chinesa de Macau (OCM) precisa desenvolver a forma como está em palco. Esta é a proposta de Liu Sha, o novo maestro e director artístico da OCM, que defende uma mudança da atitude dos músicos durante os espectáculos. “É preciso desenvolver formas de expressão, é necessário que os músicos saibam como se expressar, mover, enquanto tocam”, disse o responsável ontem à margem da conferência de imprensa dedicada à sua apresentação.

Não está em causa a qualidade dos músicos que formam a OCM, que considerou, “são todos muito bons”. No entanto, “às vezes, ao vê-los em palco não fico satisfeito porque ‘a personagem’ está muito fechada e não se abre ao que está a tocar”, explicou o maestro, que confessou que esse é um aspecto que quer mudar.

Mas, os desafios no novo cargo em Macau são maiores e passam também pela necessidade de conquistar audiências para os concertos da OCM. “Parece que aqui o público, na sua maioria, aprecia música clássica”, algo que não acontece, de acordo com o maestro, com a música chinesa. Este é também o maior desafio do seu trabalho à frente da OCM.

Também aqui, e para fomentar a adesão do público, entra a nova postura que pretende que os músicos adoptem. “Penso que quanto mais os músicos expressarem a sua interpretação, mais conseguem transmitir ao público que os vê”, apontou.
Por outro lado, é necessário levar o trabalho da orquestra à comunidade e “criar mais proximidades”. Para isso, o novo director artístico sublinha a importância de ter em conta os mais novos, um aspecto que será tido em conta esta temporada. “Temos muitos concertos programados para crianças em que usamos música popular e em que os maestros falam para os mais novos para explicar o que se vai tocando”, exemplificou.

Novos repertórios

Para chegar a mais pessoas, os repertórios também vão sofrer alterações. “A escolha de temas não vai ser fácil, até porque a música chinesa é muito rica”, afirma. “Com músicos mais activos em palco e a suavidade dos sons acredito que os espectáculos se tornem lendários”, afirmou.

Para já, é necessário “perceber o que é que chega ao público, do que é que se gosta aqui e o que querem”. Este é o ponto de partida do trabalho que o maestro tem pela frente. “Já tenho uma série de peças seleccionadas que penso interessarem às pessoas de Macau e que as vão motivar a irem a mais concertos”, comentou.
Além do reportório de música chinesa, o maestro promete manter a “tradição” e continuar a integrar peças que juntem temas ocidentais com orientais, uma componente que faz da OCM “muito especial”, afirmou.

Aliás, é com esta mistura que a temporada 2018/2019 vai abrir. O concerto é já no próximo domingo às 20h no grande auditório do Centro Cultural de Macau, e tem como título “Vislumbres do Vento Nacional”. O espectáculo vai contar com a presença de convidados, como é o caso dos intérpretes de erhu, Yu Hongmei, vice-directora do Conservatório Central de Música, e Zhai Qinxi, professora assistente de guqin na mesma instituição.

A colaboração com músicos estrangeiros também vai continuar. Para Liu Sha esta é uma grande mais-valia, recordando, por exemplo, os concertos com intérpretes de fado. “Claro que quero continuar a fazer este tipo de espectáculo até porque estamos me Macau”, rematou.

Também programados para esta temporada estão seis ciclos de concertos: o “Ciclo Clássicos”, “Produções Especiais”, “Passeando no Jardim, Ouvindo Música”, “Museus Musicais”, “Herança Musical” e “Envolvimento da Comunidade com a Música”. Os bilhetes já estão à venda.

29 Ago 2018