Mulheres de Itália (21) – Insectos, cocaína, música

Ilustração de Ana Jacinto Nunes

 

Galatea coleciona insectos há muitos anos, mas a cada sirene de ambulância que passa fica com vontade de atirar toda a colecçãopela janela.
Gaudenzia ouve a sua ginecologista a fazer uns sons estranhos com a boca.
Gelsomina tem um cancro e está a sorrir para o filho de cinco anos que acabou de entrar no quarto.
Geltrude está a fazer ginástica.
Gemma tenta fazer sons excitantes, mas está entediada e imagina que o marido foi transformado num material que só tem peso.
Generosa está a sublinhar um livro com um lápis staedler B 1.
Genesia diz a uma cliente gorda que ela está muito elegante.
Genoveffa revolta-se com o que ouve na televisão.
Germana diz à mãe que não fala com ela até ela ser inteligente.
Gertrude está a treinar ballet no quarto porque a escola está fechada.
Ghita está a enviar uma fotografia sua nua para um rapaz do Brasil.
Giacinta está a gritar com o pai para as colegas verem.
Giada está a correr sozinha no parque e tem um fato de treino preto bem apertado no rabo.
Gigliola está nas urgências a gritar que uma velha passou à frente do filho.
Gilda estuda a forma de locomoção dos cavalos quando estão a ficar velhos.
Giliola veste cuecas azuis, mas depois arrepende-se.
Ginevra pega no estetoscópio mas percebe que o homem jámorreu.
Gioacchina tem quarenta anos e não encontra um namorado em lado nenhum.
Gioconda mexe nos papéis antigos de uma gaveta do pai e encontra lá uma fotografia que lhe mete nojo.
Gioia está cada vez a gostar mais de Jesus.
Giorgia consome cocaína e assim, pensa ela, ficará até ao fim, aandar em círculos até ser uma velha demente com o nariz bem vermelho.
Giovanna quer que o namorado se cale e segure no saco que ela trouxe para vomitar.
Gisella sente que comer se tornou há muito secundário.
Giuditta pensa que deveria ter dito ao pai que não interferisse na sua vida.
E Giulia está a dançar ao som da música Dance Monkey.

19 Fev 2021

O sexo dos insectos

O sexo dos insectos ensina-nos que não podemos confundir o que é normal do que é natural. Se o natural é o biológico e lógico do mundo animal, parece que os insectos estão a desafiar alguns conceitos de género, e a praticar tipos de sexo muito particulares. Parece que o normal para as criaturas de seis pernas não é o que uma mente pouco reflexiva pudesse assumir – porque está presa em conceitos de ‘naturalidade’ ocas.

Há alguma facilidade por parte dos biólogos em estudar estas criaturas (são baratas, de fácil acesso)  e de tomar algumas conclusões relativamente ao funcionamento humano. Aliás, para os mais aficionados na matéria, estas criaturas apresentam aquilo que seriam comportamentos de amor, zanga ou reconciliação, com um cérebro minúsculo e com a ausência de hormonas como as nossas – alguma coisa faz com que estas miniaturas consigam funcionar de uma forma tão organizada. Mas como os insectos são feios e como temos muito medo deles, temos alguma dificuldade em antropomorfizarmo-los e aprender o que quer que seja com eles.

A proposta de Marlene Zuk no seu livro Sex on Six Legs: Lessons on Life, Love, and Language from the Insect World é de que temos que parar de recusar o que são propostas de normalidade dos insectos, e quiçá aprender alguma coisa com eles.

As moscas, as abelhas, os louva-deus, os gafanhotos, as joaninhas ou os escaravelhos têm estilos de vida diferentes do que a nossa visão antropocêntrica poderá esperar – ao ponto de confundir muitos pensadores (e isto aconteceu durante a antiguidade clássica) com a ambiguidade dos papéis de género que os insectos apresentavam. Todos já sabem que uma colmeia é uma monarquia matriarcal, com uma chefe de estado feminina. O que o senso comum e as visões populares preconizam é que as abelhas trabalhadoras são machos – quem faz o trabalho, e desenvolve a vida da colmeia – quando na verdade são fêmeas. A autora do livro, bióloga, tem a sensibilidade de uma cientista social ao pensar porque raio é que a assumpção primária é de que as abelhas trabalhadoras são machos? E ninguém se informa, ou corrige, que as abelhas são na verdade, fêmeas (e responsáveis pela criação de um terço da nossa comida)? Também é o caso das formigas onde os soldados são as fêmeas, para grande surpresa do mundo em geral. Mundo geral esse que cresceu com filmes e series de animação onde as abelhas e formigas eram traduzidas a um mundo antropomórfico masculino (a excepção será talvez os que viveram a sua juventude nos anos 80 e que cresceram com a ideia d’A Abelha Maia). Claro que este tipo de confusão não é o fim do mundo, e provavelmente não passa de pura ignorância. Conseguimos, contudo, ter alguma noção sobre o nosso desconhecimento dos nossos companheiros invertebrados e do nosso viés em assumir que certas ideias são masculinas, quando que não deveriam haver receios em vê-las como femininas.

Os insectos-fêmea têm poderes extraordinários na forma como procriam. Imaginem: estas criaturinhas podem copular com múltiplos machos e escolher o esperma que desejam de facto fecundar – aliás, podem guardá-lo para depois. O esperma só é utilizado quando ela quiser pôr ovos, seja isso daqui a uma hora, semanas ou meses depois do contacto sexual. Os machos tiveram que desenvolver mecanismos evolutivos para se protegerem destas estratégias que dão poucas garantias que a sua carga genética seja passada a outras gerações. Por isso é que os insectos têm pénis com picos, ganchos, i.e., mais parecem um canivete suíço, para certificar que o seu esperma se torne no vencedor.

Estas curiosidades e outros detalhes da vida sexual dos insectos podem ser pesquisadas e analisadas no livro que foi a minha inspiração da semana, e também por essa internet fora. Podem deixar-se levar pelo mundo verdadeiramente fascinante do que são formas naturais de envolvimento e desenvolvimento sexual, que compõem uma possibilidade infinita de formas sexuais alternativas. É óbvio que não me pus a escrever a pensar que os homens deveriam ter um pénis a assemelhar um instrumento de guerra, não acho que exista uma lição de facto para ser aprendida – nada do que os insectos fazem poderíamos repetir em casa! Mas, quer queriam quer não, toda a investigação à volta do sexo dos insectos ensinam-nos acerca dos seus mecanismos evolutivos, e das tão criativas formas de desenvolvimento – e de inclusão! Porque no mundo fantástico dos insectos temos colónias compostas por maiorias arrebatadoras femininas, observamos comportamento homossexual e temos exemplares hermofroditas. Tudo de forma normal e muito natural.

11 Abr 2017